Capítulo 7

1099 Palavras
  "Precisa de ajuda, moça?" A funcionária que me observava com curiosidade perguntou. Balancei a cabeça, puxando o capuz do moletom ainda mais para baixo. Estava paralisada no corredor de testes de gravidez, olhando para as prateleiras repletas de opções, sem saber por onde começar.   Ninguém me conhecia naquele bairro. Não havia vergonha em estar grávida aos vinte e um anos. Então, por que eu tremia tanto? Por que o desespero de me esconder?   Meus olhos foram diretos para os testes digitais. Eram os mais confiáveis, e eu precisava de certeza. Também eram os que não podia pagar. Comprei dois, as mãos trêmulas. Se alguém, há um mês, me dissesse que estaria ali, teria dado risada. Mas ali estava eu, repetindo mentalmente o quão irresponsável fora. Camisinhas existiam por um motivo, mas eu confiara na pílula – aquela que, sabemos bem, nem sempre tomava no horário exato. Tudo poderia ter sido evitado.   O pensamento trouxe um novo aperto ao peito. Tentei conter as lágrimas, focar em algo feliz, mas era tarde demais. Elas rolaram silenciosas. Olhei ao redor, aliviada por a loja estar quase vazia naquela hora da manhã, e as enxuguei às pressas.   "Moça, você está bem?"   A voz era de uma criança. Limpei o rosto uma última vez e me virei. Um menino, não devia ter mais de dez anos, me encarava com olhos grandes e sinceros. A situação deve estar mesmo feia, pensei, se uma criança se aproxima para me consolar.   "Luis, eu disse para não falar com estranhos!" Um homem surgiu atrás dele, seguido por outro. Levei menos de um segundo para reconhecer o primeiro. Era o mesmo homem cujo paletó eu manchara com champanhe naquela noite no clube.   Meu primeiro instinto foi virar e fingir que não era comigo. Mas a sorte claramente não estava do meu lado. "Mas ela tá chorando, Vincenzo! E você disse pra ajudar as pessoas quando elas precisam." Ah. Vincenzo.   "Sim, pessoas necessitadas", corrigiu o outro homem, com um tom seco. Então, senti um toque leve no meu ombro. "Tudo bem?"   Resignada, virei-me completamente e enfrentei a vítima do meu desastre. Esperei que não me reconhecesse, mas quando seus olhos se arregalaram levemente, soube que não tinha sorte. "Ei… você trabalha para os Lamberti, não é?" Ele perguntou, seu olhar descendo rapidamente para a caixa do teste em minhas mãos. "O mundo é mesmo pequeno", comentou, depois desviou o olhar, fingindo não ter visto nada. Era impressionante como algumas pessoas insistiam em uma conversa mesmo percebendo o constrangimento alheio. "Sou o Vincenzo."   "Serena", sussurrei, quase inaudível, olhando para o chão.   "Eu sou o Luis, e aquele é o Beau! Mas uma pergunta: por que você tá chorando, moça?" O garoto insistiu, recebendo um leve tapa no braço do homem ao seu lado. "Cala a boca", o outro – Beau – rosnou. Parecia fazer o papel de segurança.   "Você está bem?" Vincenzo repetiu, mais suave.   Respirei fundo, tentando me recompor. "Estou."   "Então… o que é isso aí?", ele insistiu, um sorriso brincalhão no rosto. Segurou meu pulso gentilmente e levantou minha mão, expondo a caixa.   "Acho que ela tá chorando porque tá grávida!", anunciou Luis, aproximando-se.   Vincenzo soltou minha mão. "Tá chorando porque… ah, isso não é da minha conta. Só queria me desculpar pelo meu irmãozinho ter te incomodado."   "Eu não quero ter filhos. Pra ter filhos tem que fazer aquela coisa. Eu vi no laptop do meu irmão. Tava num site chamado Por—"   A frase foi abruptamente interrompida pela mão de Vincenzo tapando a boca do garoto. "Cala. A. Boca."   Foi a primeira vez que ouvi Beau soltar uma risada abafada, parecendo muito satisfeito com a cena. Vincenzo estava visivelmente envergonhado. Eu não pude evitar – um sorriso fraco escapou de meus lábios ao ver a expressão exasperada dele.   "Bem, pelo menos a fez sorrir", Vincenzo resignou-se, libertando Luis.   O menino me lançou um sorriso aberto e despreocupado, e eu retribuí, quase por reflexo. Crescendo em orfanatos e lares adotivos, eu sabia bem como crianças pequenas simplesmente diziam verdades inocentes, sem filtro. Era uma das coisas que eu mais amava nelas. Eu amava crianças.   "Você estava chorando porque descobriu que está grávida?", Vincenzo perguntou, mudando o tom. O choque da pergunta direta fez eu balançar a cabeça instantaneamente. Mas ele estava certo.   "N-não! Eu nem sei se estou!", defendi-me, rápido demais. Só quando ele começou a rir, mais leve agora, percebi que estava brincando. Se ele soubesse…   "Ok, então não tem motivo para chorar. Não quero me meter, mas… poder ter um filho pode ser uma bênção", ele disse, lançando um olhar rápido a Luis, agora distraído com um celular. As palavras eram supostamente encorajadoras, mas ecoavam vazias. Eu m*l conseguia cuidar de mim. "Você é pai?"   "Não. E… desculpe, isso realmente não é da minha conta", ele se retratou, e eu me senti m*l pelo tom que minha pergunta possa ter tido. Foi sincera.   "Você sabe guardar segredo?", perguntei, antes que pudesse pensar melhor. Era constrangedor pedir aquilo, mas eu sabia de sua ligação com Christian. Ele não podia descobrir. Não antes de eu mesma saber. Christian sequer consideraria a possibilidade de ser o pai?   "Não tenho muita gente para contar, mas claro. Segredo está guardado", ele prometeu, com um sorriso que quase parecia genuíno. Ficamos em silêncio por alguns segundos. O desconforto cresceu até ser insuportável.   "Bem… obrigada pelo conselho. E por… me animar. Mas eu preciso ir." Me despedi e dei um afago rápido na cabeça de Luis. "Tchau, moça!", ele gritou para minhas costas. Eu já estava a caminho do caixa, o coração batendo forte.   Assim que cheguei em casa, não perdi um segundo. Fui direto ao banheiro. Sim, eu estava tão preparada que tinha bebido água até quase explodir antes de sair, só para não ter que esperar.   Segui as instruções do teste com mãos trêmulas. Depois, sentei no chão frio do banheiro, encarando a parede branca como uma morta-viva. Revivi minha vida: formada no ensino médio com notas medíocres, desistindo da faculdade porque não conseguia acompanhar, sem planos aos vinte e um anos, trabalhando em um clube de strip. De jeito nenhum eu podia estar—   Um bipe agudo cortou o silêncio, fazendo-me pular.   Com passos minúsculos, aproximando-me como se do teste saísse uma serpente, caminhei até a pia onde o deixara. Fechei os olhos com força.   Por favor, seja negativo. Por favor, por favor, por favor.   Juntei as mãos em uma prece silenciosa e desesperada. Abri os olhos.   A palavra, clara e inescapável, preenchia a pequena tela digital de ambos os testes.   GRÁVIDA. 3+ SEMANAS.   O mundo desabou. Simplesmente desabou.
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