Depois de horas emocionalmente paralisada, liguei para meu médico. Consegui uma consulta para o mesmo dia. A parte mais difícil seria fazer outro exame para confirmação.
Ouvir que o bebê tinha o tamanho de uma amora foi o suficiente para eu me desconectar durante o primeiro ultrassom. Sonhara com esse momento quando mais jovem, imaginando felicidade. A realidade era o oposto absoluto.
Não sabia como pedir uma indicação para uma clínica, mas consegui. Se eu… removesse… agora, não criaria laços com aquela vida dentro de mim. Era isso que faria. Seguiria em frente como se nada tivesse acontecido. Depois, tudo voltaria ao normal. Foi com essa racionalização fria que fui trabalhar, como de costume.
Mas eu não queria um aborto. Queria criar meu filho. Ter algo inteiramente meu para amar.
Apesar de já ter feito isso antes, a ideia de dançar com uma vida dentro de mim me enojava. Não era uma opção. "Enzo!", chamei, antes que ele fechasse a porta do escritório.
Ele se virou, sobrancelhas erguidas, um grande sorriso surgindo no rosto – provavelmente surpreso por eu procurá-lo pela primeira vez em seis meses, e não ser por uma besteira qualquer. "Você acha que pode me colocar no bar hoje à noite?"
Enzo me guiou para dentro do escritório e fechou a porta. Como no dia anterior, encostou a mão na minha testa. "Tá doente de novo?"
"Não… quer dizer, sim. Talvez um pouco. Mas posso trabalhar. Só não dançar", improvisei rapidamente. Não era exatamente mentira.
Ele pegou um mapa, deu uma olhada e o jogou de volta sobre a mesa. "Sabe de uma coisa? Vou falar com meu irmão. Pode deixar."
Não pude evitar a culpa. Gio era difícil e levava tudo a sério demais – por isso viera até Enzo. Mas ele ainda se dispunha a enfrentar o irmão por mim. "Tem certeza? Se não puder, tudo bem…"
"Sim, vai lá. Tá tranquilo."
Não precisei ouvir uma terceira vez. Já me virava para sair quando colidi com um corpo duro como pedra. Sabia exatamente de quem era.
"Isso é algum hábito seu agora?" A voz de Christian ecoou enquanto ele me empurrava de volta, firmando-me.
"D-desculpa", gaguejei, mantendo a cabeça baixa.
"Já que você tá aqui mesmo… A Esquilinha vai pro bar hoje. Ela ainda tá meio r**m", Enzo informou a Christian. Para ele, era um alívio não ter que enfrentar Gio. Para mim, um terror.
"Olhe para mim." A ordem veio no tom autoritário de sempre. Obedeci.
Ele me encarou, os olhos percorrendo meu rosto, e então deu uma volta lenta ao meu redor. Eu tentava não tremer. "Você ainda parece um lixo", concluiu Christian.
Sim, eu pareço. E é porque estou carregando seu bebê.
"Então tá certo?", Enzo confirmou. Às vezes me surpreendia o respeito que ele, mais velho, tinha por Christian. Lucio deixara claro: na sua ausência, Christian comandava, depois Gio, e só então Enzo.
"Você pode deixar as meninas dançarem em volta de uma fogueira, por mim. Faça o que precisar fazer", Christian respondeu com indiferença, empurrando uma pasta nas mãos de Enzo.
Era isso que ele diria se eu contasse? 'Você e o bebê podem dançar em volta de uma fogueira'?
"Só vim te entregar isso", ele disse a Enzo. Então, gentilmente – estranhamente gentil –, pousou uma mão nas minhas costas. Congelei. "Vou te levar até o bar. Vamos."
Não o recusei. Nem me afastei enquanto ele me guiava pelo corredor em direção ao clube.
O lugar ainda estava fechado. Todas as garotas se viraram, lançando olhares reprovadores. Normalmente, não me importaria – Luna e Faith me protegeriam. Mas hoje era folga delas.
"Franco!", Christian chamou, abrindo a porta da grande cozinha. Eu só estivera lá uma vez, quando comecei. Lembro-me de Lucio me puxando de lado e sugerindo que eu ficaria melhor como bartender. Mas o salário de dançarina era maior, então na época recusei.
Quando Christian entrou, todos os funcionários pararam e se alinharam, como soldados. Christian soltou uma risada curta, parecendo tão desconfortável quanto eu. "O que você tá fazendo aqui, chefe?", um homem surgiu de trás de uma bancada, antes de me observar de cima a baixo.
"Esta é a Serena. Vai ajudar aqui temporariamente. Cuidem bem dela. Nada de lavar pratos, nada pesado, sejam legais. Se eu ouvir uma reclamação, tão todos demitidos." As palavras eram uma ordem. Todos responderam em uníssono antes de voltarem ao trabalho, exceto o homem – Franco.
Temporariamente. Eu pedira só por uma noite, com medo de pedir mais. Ele estava fazendo isso por mim. E ele usou meu nome. Fora Lucio, isso era raro.
"Então nos encontramos de novo", Franco sorriu, cumprimentando-me com um aperto de mão. "Não se preocupe, chefe. Cuidado redobrado."
"Melhor ser." Christian se virou para mim, colocando as duas mãos em meus ombros, seu olhar sério. "Você não é boa em obedecer, né? Eu disse para você ficar em casa." A voz estava irritada. Ele me soltou e saiu, sem olhar para trás.
Franco então me mostrou minhas tarefas: cortar limões e frutas. Nada especial, incrivelmente entediante, mas eu seria paga. Talvez sem as gorjetas generosas, mas o suficiente para o aluguel.
O tempo passou. Meus braços começavam a cansar, mas eu não tinha direito a reclamar. Não deveria estar ali.
"Esquilo! Tá liberada!", Franco anunciou.
Deixei a faca cair, chocada. Liberada? Ainda faltavam horas.
"Ordens do chefe", ele explicou, ao ver minha expressão.
Tudo o que pude fazer foi pegar minhas coisas e sair pela porta dos fundos. Sair mais cedo não era vantagem, considerando o Uber que já havia agendado.
"Serena?" Um homem, parado ao lado de um carro escuro, chamou. Dei um passo para trás. Mesmo no escuro, o reconheci: era o motorista dos Lamberti. "Sim?"
"O chefe pediu para eu garantir que você chegue em casa com segurança. Podemos ir." Ele segurou a porta aberta.
Uma carona grátis era uma oferta que eu não recusaria duas vezes. Entrei.
Mas por quê?
Por que ele estava tomando tanto cuidado comigo?
Olhei para minha barriga ainda lisa. Imaginei uma vida diferente. Eu o julguei m*l? Se eu contasse, ele assumiria a responsabilidade? Me ajudaria a criar nossa criança?
Não. Claro que não.
Ele já dissera que Lucio ordenara que cuidasse de mim. Já dissera que se importava com todos os funcionários. Eu não era especial. Não havia chance de ele aceitar o bebê. Ele vinha de uma família rica, com laços sombrios. Alguém como eu nunca se encaixaria. E eu nunca me sentiria segura trazendo uma criança para aquela vida.
Qualquer fantasia que minha mente criasse, eu teria que esmagá-la. Isso não era um conto de fadas.
E se eu tivesse o bebê e Christian decidisse me forçar a entregá-lo? Ele gostava de dar ordens, de controlar.
Ganharia uma disputa judicial?
Uma leve tontura invadiu-me. Fechei os olhos, esperando passar. "Tudo bem, senhorita?", o motorista perguntou. Acenei que sim.
Se eu vou ter este bebê, vou dar a ele a vida que merece. Com ou sem pai.
Se eu for ter este bebê, vou fazer isso sozinha. Para que ninguém nunca possa tirá-lo de mim.