Christian observava a bela mulher à sua frente conversando com Marc e Johnny. Para os outros, Isobel era quase perfeita: inteligente, educada, gentil. Christian não discordava.
No passado, Francesca sempre comentava o quanto Isobel seria perfeita para ele, deixando os dois constrangidos. Muitos compartilhavam da opinião, mas para Christian, aquilo nunca fora uma opção.
Ele não a amava daquela forma e ignorava sua paixão persistente, mas também não recusava seus avanços quando lhe convinha. Apesar de dar inúmeros sinais de que não queria um relacionamento, ela sempre voltava, esperando que ele mudasse.
"Ian, o que você acha disso?", Marc perguntou. Christian, que não estava prestando atenção, piscou e deu de ombros. "Eles estão falando de anime de novo", Johnny bocejou.
Marc andava com Christian como seu guarda-costas. Johnny, porém, era diferente. Era seu primo – e o mais normal da família –, seu melhor amigo desde o berço. Não precisava ser seu braço direito, mas escolhera sê-lo.
"Minha opinião é igual ao bocejo do Johnny. Não me importo", Christian disse, deixando Isobel com uma expressão claramente decepcionada.
"Enquanto você reflete sobre como continua a me machucar, vou ver se ajudo a Emmanuella", Isobel disse com ironia, levantando-se do sofá e indo para a cozinha.
"Isso com certeza tinha duplo sentido", Marc riu.
Christian não era bobo; percebera também. Mas não havia nada a fazer. Não era culpa dele que seus amigos discutissem assuntos que não o interessavam, ou que Isobel se permitisse ser usada.
Seus pensamentos foram cortados por uma notificação no celular. Lucio estava voltando e, como sempre, queria relatórios de todos os negócios – transporte, restaurantes, o clube.
Às vezes, nem o próprio Lucio sabia por que deixava Christian no comando em suas ausências. Mas além de ser um bom líder, Christian tinha algo que seus irmãos não tinham: falta de ambição pelo poder. E por isso, paradoxalmente, era nele que se podia confiar.
O próprio Lucio vira como o negócio podia destruir laços familiares. Escolhera justamente aquele que menos se importava com o trono.
Christian leu a mensagem. Sabia que, ao mencionar "todas as garotas", seu pai se referia a uma em particular: Serena, que continuava visivelmente abatida.
Ele não sabia – nem se importava em saber – por que Lucio tinha um interesse tão específico naquela garota. Talvez por ela ser diferente. Mas já vira seu pai irritado antes, e Lucio não era um homem que se contrariava impunemente. "Está sendo cuidada", foi tudo que ele digitou em resposta.
"Marc, você sabe quem é a Serena, certo?", Christian perguntou.
O amigo assentiu imediatamente. "Sim. A garota que derramou champanhe no Vincenzo. E uma das suas… aventuras de uma noite. Ela parece péssima, aliás. Parece um cadáver ambulante."
"Sim… ela", Christian confirmou, ignorando o último comentário. Era uma entre muitas. Nada especial.
"Preciso que você fique de olho nela até que ela melhore. Siga-a, certifique-se de que ela não desmaie e morra em algum canto", ordenou.
"Tem alguma razão para o tio dar um tratamento especial a ela? Ele sempre a menciona nas reuniões", Johnny perguntou, tentando acompanhar.
"Não sei. E sinceramente, não me importo. Só não quero deixá-lo bravo", Christian explicou, olhando para Marc. "Entendido."
Christian sentia um desconforto ao saber que Serena se forçava a trabalhar naquele estado. Sabia que muitas das garotas dependiam das gorjetas; tinham contas para pagar. Se pudesse, daria um cheque a quem precisasse, mas sabia que isso feriria o orgulho delas – especialmente vindo dele.
Sempre que caminhava pelos corredores e as pessoas paravam e se congelavam, sentia-se m*l. Não queria ser temido, a menos que fosse necessário. Sabia que sua personalidade era difícil e m*l compreendida, mas seu pai sempre dissera que, naquele negócio – e especialmente como herdeiro –, era melhor que as pessoas tivessem medo de você.
Christian só temia duas pessoas: seu pai, pelo poder que tinha, e sua mãe, pelos comentários incisivos. Francesca sempre encontrava algo para criticar – o perfume, o terno. Raramente o elogiava, a menos que fosse para se gabar para as amigas sobre quão bonitos e bem-sucedidos seus filhos eram.
Gio, o mais velho, tinha vinte e sete anos, era temido, já casado e pai de duas filhas. Enzo, de vinte e cinco, era um encrenqueiro mulherengo, mas capaz de ser sério quando necessário. E as gêmeas, Stella e Mia, de dezenove, eram teimosas como Christian, mas também inteligentes, ambas na faculdade.
Após se formar em administração, Christian não tivera tempo para descansar. Era esperado que assumisse os negócios do pai imediatamente. Era a tradição da família, e a decisão de Lucio. Tudo, um dia, seria seu.
Ele estava preparado. Desde cedo, Lucio o levara, com os irmãos, a reuniões importantes, mostrando-lhes o lado sombrio do negócio. Ensinara-lhes tudo: como manter o império, como incutir medo, como segurar uma arma, como… se livrar de alguém. "Família em primeiro lugar. Arrependimentos e lágrimas são para o travesseiro", Lucio dissera certa vez, após enxugar as próprias lágrimas.
"Vou ver a Isobel. Acho que você feriu os sentimentos dela de verdade. Não estou acostumado a vê-la tão quieta", Marc anunciou, dirigindo-se à cozinha e deixando os primos sozinhos.
"Você vai aparecer na reunião anual da família no próximo mês?", Johnny perguntou. Todo ano, Francesca organizava um grande encontro. Supostamente era para a família se atualizar, mas na realidade era uma vitrine para suas conquistas.
Francesca e Lucio tiveram um casamento arranjado, mas, felizmente, deram-se bem.
"Não sei. Vou ver se consigo ir", Christian encolheu os ombros, sem entusiasmo. Não via motivo para passar pelo interrogatório anual.
"Tá com medo que o vô e a vó peçam netos de novo?", Johnny riu, lendo a mente do primo. As bochechas de Christian avermelharam-se levemente.
Se havia especialistas em perguntas desconfortáveis, eram seus avós. Christian os amava, inclusive o avô, que com a idade perdera a frieza e se tornara um homem de família gentil. Mas isso não tornava o interrogatório anual mais fácil.
"Só não estou com vontade", Christian tentou despistar, mas Johnny não comprou.
"Vai lá. A cada ano que você ignora as perguntas deles, o vô e a vó estão mais perto de… bem, você sabe", Johnny gracejou, dando um tapinha no ombro do primo. Christian não achou graça, mas aquela liberdade que Johnny tinha com ele era rara e valiosa. As pessoas normalmente o tratavam diferente por causa de seu status. Seu círculo de verdadeiros amigos era pequeno, e ele os valorizava por o tratarem como um ser humano.
"O dia em que eu aparecer naquela reunião será o dia em que eu estiver prestes a ser pai. Aí eles terão algo de verdade para comemorar. Ou seja… nunca."