Capítulo 10

877 Palavras
  Já haviam se passado dias, e eu continuava grávida. Três meses. Nada, absolutamente nada, havia mudado – exceto que eu me sentia cada vez pior. Após uma semana inteira atrás do balcão, chegou o fim de semana e, milagrosamente, consegui ligar dizendo que ainda estava doente. Christian estava fora de cena, assim como Lucio, que inicialmente estranhara me ver na cozinha, mas não dera muita importância.   Eu sabia que, se tivesse que trabalhar naquela noite, teria que voltar a dançar. E também sabia que não podia fazer isso – pelo menos não com um bebê crescendo dentro de mim. Depois de pesquisar inúmeras vagas de emprego, a realidade bateu: ninguém esperava por alguém que abandonara a faculdade.   Minhas mãos apertaram com força o folheto da clínica. Por que tinha que ser tão difícil?   A ação mais lógica era seguir meu plano original e interromper a gravidez o mais rápido possível. Sim, eu queria algo meu, mas também queria dar a meu filho uma vida digna. Adoção estava fora de questão – eu me apegava rápido demais, nunca conseguiria entregar meu bebê. E criá-lo sozinha… meu coração anseava, mas minha realidade gritava que era impossível.   Olhei para o número de contato no verso do folheto e o digitei no celular. Arrependi-me no instante em que alguém atendeu. Esperava que marcar um aborto fosse simples, que o resto se resolvesse rapidamente. Não foi. A enfermeira fez perguntas que eu não estava preparada para responder – inclusive o porquê da minha decisão. Ao ouvir minhas respostas hesitantes, ela marcou uma consulta para o dia seguinte. "Para conversarmos melhor", dissera.   A palavra "conversar" me assustou. Eu não queria discutir. Sabia que, quanto mais esperasse, mais chances teria de voltar atrás. Não era que eu não quisesse ser mãe – queria, sim. Mas qual era o sentido de estar grávida se eu nem poderia aproveitar a gestação?   Para piorar, a internet se tornou minha inimiga. Pesquisei sobre o procedimento, cheguei a assistir a vídeos, como se ler sobre já não fosse doloroso o suficiente.   Só de pensar, corri ao banheiro e vomitei pela quarta vez naquele dia. Não era mais apenas enjoo matinal; era uma combinação de nervosismo e nojo profundo. Eu só queria que tudo desaparecesse, para que pudesse seguir minha vida e nunca, jamais, repetir a mesma decisão.   Por outro lado, ser uma solitária tinha suas vantagens. Ninguém fazia muitas perguntas – Faith e Luna eram minhas únicas amigas, e mantinham certa distância quando eu dizia não estar bem.   "Não tô me sentindo muito bem hoje, meninas. Acho que vou descansar."   Foi o que mandei no grupo de mensagens que continha apenas nós três. Elas eram minhas melhores amigas, e normalmente você confia nessas coisas a elas. Mas contar que engravidei do nosso chefe? Soava errado de todo e qualquer jeito.   Uma batida na porta me fez pular do sofá. "Quem é?", perguntei, sem esperar realmente por alguém.   "Sou eu, Lucio!", uma voz familiar respondeu do outro lado.   Droga. Por que agora?   "Um minuto!", gritei, correndo para esconder o folheto da clínica. Liguei a TV, joguei um cobertor sobre o sofá para parecer que estava repousando. Depois de uma arrumada frenética, abri a porta.   "Você ligou dizendo que estava doente", foi tudo que ele disse, convidando-se a entrar. Trazia duas sacolas nas mãos – um sinal preocupante de que não iria embora tão cedo. "Ouvi que você passou a semana toda r**m. Fiquei preocupado." Lucio deixou as sacolas no balcão da cozinha.   A visita dele, por mais incomum, não era totalmente surpreendente. Ele já fizera isso antes. Nos seis meses que o conhecia, tornara-se uma figura paterna para mim. O problema era o momento: eu estava doente justamente por carregar o neto dele.   "Você tá com uma cara de quem viu um fantasma. Falei pros meus filhos cuidarem de você, e eles te deixam aqui parecendo a morte em pessoa. Mas relaxa, tenho a melhor receita de sopa para febre!", ele anunciou, apontando para as sacolas.   Lucio sempre tentava ser gentil, mas a "maldição Lamberti" de escolher as palavras erradas parecia atingi-lo também.   Deitei-me novamente no sofá, enrolada no cobertor. Lucio era um homem de ação; dizer a ele que estava tudo bem e mandá-lo embora seria inútil e desrespeitoso. "Tá bom… faça o que achar melhor."   Em minutos, ele já estava cortando legumes na minha cozinha, fazendo pergunta atrás de pergunta. Como ficou doente? Quando começou? Já foi ao médico?   "É só uma febre chata, logo passa", tentei assegurar, mas ele não aceitava um 'não' como resposta.   Às vezes, minha própria mente me confundia. Um dos motivos para não ter o bebê era o medo de Christian e do mundo em que ele vivia. Mas ali estava o verdadeiro chefe, o chefão, cozinhando na minha cozinha – e, para mim, Lucio nunca foi tão assustador. Eu não era ingênua; conhecia sua reputação. Mas não tinha motivo para temê-lo. Na verdade, eu o admirava. Então, por que tinha tanto medo do Christian?   "Vem aqui na mesa. Precisamos conversar", Lucio disse, secando as mãos.   Meu estômago se contraiu. Temia aquela "conversa". Mas depois de ele ter preparado uma refeição inteira para mim, obedecer era o mínimo. Enrolei o cobertor em volta do corpo e caminhei até a mesa, sentando-me diante dele.
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