a armagura e o jogo certo

1329 Palavras
Eles chegaram ao prédio dela em silêncio. Helena respirava fundo, como se cada metro percorrido até ali exigisse coragem. Quando o carro parou, ela apertou a alça da bolsa. — Klaus… você sobe comigo? — perguntou, com a voz baixa. Ele virou pra ela sem hesitar. — Subo. Subo sim. Primeiro, ela pediu pra passar na garagem. Desceram. Ela olhou ao redor, confusa. O espaço vazio chamou atenção na hora. — O que houve? — Klaus perguntou. — Meu carro… não tá aqui. — Ela franziu a testa. — Não sei se meu irmão levou. Sem dizer nada, eles voltaram e entraram no elevador. O caminho até o apartamento pareceu mais longo do que nunca. Quando Helena abriu a porta, o choque foi imediato. Luís estava na sala. E a outra mulher também. Os dois se viraram ao mesmo tempo. Helena sentiu o estômago revirar. Ela olhou primeiro pra eles. Depois, lentamente, virou o rosto pra Klaus. Ele entendeu tudo naquele olhar. — Helena… que bom que você voltou — Luís disse, nervoso. — A gente precisa conversar. Ele pigarreou, apontando pra mulher. — É… essa é… ela é minha prima. A mulher se adiantou. — É, você entendeu tudo errado, Helena. Helena soltou uma risada curta, incrédula. — Aham. — Cruzou os braços. — Primo e prima transam agora, né? Não sabia não. Não sabia que isso tava liberado. — Não é isso… você entendeu errado — Luís insistiu. Helena deu um passo à frente, o olhar firme. — Eu entendi errado o quê, exatamente? — apontou. — O fato de você também estar usando meu pijama novo? A mulher deu de ombros. — Eu não tinha roupa pra vestir, ué. Helena respirou fundo, sentindo a raiva virar algo mais frio. — Onde está meu carro, Luís? — Seu irmão levou mais cedo — ele respondeu rápido. — Você não tava aqui… achei que você tinha ido buscar. Ele deu um passo em direção a ela. — Você vai ficar, né? A gente conversa… Antes que ele se aproximasse mais, Klaus segurou a mão de Helena com firmeza. O gesto foi simples. Definitivo. — Vamos — ele disse, calmo, mas com um tom que não permitia discussão. Helena sentiu o chão voltar sob os pés. Sem olhar pra trás, eles passaram direto para o quarto. O quarto. Helena abriu o armário e puxou as malas grandes. Jogou sobre a cama. Começou a arrancar as roupas dos cabides, sem dobrar, sem cuidado algum. Jalecos, vestidos, calças, tudo indo pra dentro das malas como se estivesse arrancando pedaços de uma vida que não queria mais. Pegou outra mala para as sandálias. Jogou perfumes, hidratantes, tudo. Klaus ajudava em silêncio. Fechava zíperes. Segurava malas. Não perguntava nada. Ela abriu o cofre que ficava escondido no armário. Vazio. Ela ficou alguns segundos olhando, como se o cérebro demorasse a entender. — Tinha dinheiro aqui… — disse, quase sem voz. — Tinha cinquenta mil. Klaus sentiu o peito apertar. — Quer chamar a polícia? Ela fechou o cofre devagar e balançou a cabeça. — Não. — respirou fundo. — A gente deixa pra lá. Não vale a pena mais. Eu só… eu só preciso sair daqui. Quando saíram do quarto com as malas, Luís tentou se aproximar de novo. — Helena, espera… pelo amor de Deus… Ele estendeu a mão para tocar no braço dela. Klaus deu um passo à frente imediatamente. O olhar dele era frio. Protetor. Definitivo. — Não encosta nela — disse, firme. — Nunca mais. Luís recuou. Helena parou por um segundo. Olhou para ele uma última vez. — Você nunca me enganou — disse, com uma calma que machucava mais do que grito. — Eu é que escolhi não ver. E saiu. No elevador, quando as portas se fecharam, o corpo dela finalmente cedeu. Helena encostou a testa no peito de Klaus. Não chorou. Estava vazia. — Acabou… — murmurou. Ele passou o braço pelos ombros dela. — Acabou. E você saiu inteira. Na garagem, o celular dela vibrou. Mensagem do irmão: Peguei seu carro. Tá comigo. Tá seguro. Helena fechou os olhos. — Pelo menos isso… Klaus abriu a porta do carro pra ela. — Você não vai pra hotel nenhum — disse, com a voz firme, sem espaço pra discussão. — Você vai ficar na minha casa. No quarto de hóspedes. Ela ergueu os olhos, cansada, vulnerável… mas segura. — Tá… O carro saiu da garagem. E aquele apartamento ficou para trás, junto com tudo o que nunca foi amor. O celular de Helena começou a vibrar insistentemente quando o carro já estava em movimento. Ela olhou a tela e respirou fundo antes de atender. — Fala… A voz do irmão veio carregada de raiva contida. — Ele ainda tá lá. — disse, direto. — Com a menina. Como se nada tivesse acontecido. Helena fechou os olhos por um instante. — Ele ainda teve a coragem de dizer que ela é prima dele — respondeu, com um riso amargo. — Mesmo depois de eu ter visto tudo nitidamente. Do outro lado da linha, houve um silêncio curto. Dava pra ouvir a respiração pesada dele. — Helena… eu vou acabar com esse filho da p**a. — a voz dele tremeu. — Ele roubou dinheiro do cofre. Cinquenta mil reais. Isso é crime. Ele vai pagar cada centavo. Eu juro. Ela apoiou a cabeça no banco, exausta. — Não. — disse, firme. — Eu tenho um plano melhor. — Melhor do que polícia? — ele retrucou, incrédulo. — Melhor. — respondeu com calma. — Eu vou amanhã na empresa do financeiro. Vou passar aquele apartamento pro nome dele. Houve um silêncio absoluto do outro lado. — O quê?! — Eu não quero mais aquele apartamento. — continuou, segura. — Vou transferir tudo pro nome dele. — Helena, você tá falando sério? — ele perguntou, tentando entender. — Aquele financiamento é pesado demais. — Eu sei exatamente o que eu tô fazendo. — a voz dela não vacilou. — A prestação tá prestes a vencer. Dez mil por mês. Soma água, luz e condomínio… dá quase quinze mil todo mês. Ela respirou fundo antes de completar: — E eu não vou pagar. O irmão engoliu em seco. — Ele não tem como bancar isso… — Não tem. — ela confirmou. — Nunca teve. E nunca quis ter. Se ele acha que vai ficar com aquele apartamento de boa, não vai. A dívida vai começar a correr no nome dele. Não no meu. — E quando vencer… — o irmão completou, entendendo onde ela queria chegar. — Ele vai ser expulso. — disse Helena, sem ódio, só verdade. — E mesmo que venda todos os móveis, tudo que eu comprei… não vai conseguir se manter lá. Aquela casa não foi feita pra alguém que vive às custas dos outros. Do outro lado da linha, a raiva foi dando lugar a algo diferente. — Você… pensou em tudo — ele disse, mais baixo. — Eu passei dois anos pagando por tudo sozinha. — respondeu. — Agora ele vai aprender o peso de uma conta que nunca foi dele. Klaus, dirigindo, ouviu apenas parte da conversa. Mas bastou o tom da voz dela pra entender: aquilo não era impulso. Era libertação. — Eu tô orgulhoso de você — o irmão disse. — De verdade. Eu vou te ajudar no que precisar. — Eu sei. — Helena sorriu de leve. — Mas agora… eu só quero dormir. Amanhã eu resolvo o resto. Quando desligou, ela ficou em silêncio por alguns segundos. Klaus olhou pra ela rapidamente. — Você tem certeza disso? — perguntou, com cuidado. Ela assentiu. — Pela primeira vez… absoluta. Ele não disse nada. Apenas estendeu a mão e apertou a dela de leve, respeitando o espaço, reconhecendo a força. E, naquele momento, Helena entendeu algo importante: Não era vingança. Era justiça emocional. Era devolver um peso que nunca deveria ter sido só dela. E, dessa vez, ela não estava errada.
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