Matteo Moretti
Eu acordo antes do despertador, não porque dormi bem — eu raramente durmo profundamente quando estou fechando um negócio importante —, mas porque minha mente já está funcionando como uma máquina programada para antecipar riscos.
O Rio amanhece diferente da Itália. Aqui a luz invade o quarto sem pedir licença. O céu é claro demais. O calor chega cedo demais. É como se a cidade tivesse urgência em viver. Eu não tenho urgência. Eu tenho estratégia.
Levanto, tomo banho rápido, visto um terno leve o suficiente para o clima brasileiro, mas estruturado o bastante para lembrar qualquer pessoa na sala de reuniões que eu não estou ali para brincar de empreendedor tropical.
Desço as escadas revisando mentalmente os pontos da reunião das nove. Ao chegar à sala de jantar, encontro a mesa posta com precisão quase cirúrgica. Café fresco. Frutas organizadas. Jornais dobrados na medida exata.
Eficiência.
Gosto disso.
Sofia está na cozinha, organizando algo na bancada. Ela não corre quando percebe minha presença. Não se apressa de forma exagerada. Apenas se vira, limpa as mãos em um pano discreto e me encara.
— Bom dia, senhor Moretti.
A voz dela é estável.
Eu me sento.
— Bom dia.
Ela se aproxima para servir café. O perfume dela é suave, não é doce demais e não é marcante demais. É… equilibrado. Eu não deveria notar isso, mas noto.
— Sua reunião foi confirmada para as nove — ela diz. — O motorista já está a caminho.
— Ótimo.
Pego o jornal local e passo os olhos rapidamente pelas manchetes sobre economia, política, especulações empresariais e vejo uma nota pequena que menciona a chegada da Moretti ao Rio de Janeiro.
— A imprensa é rápida — comento.
— No Rio, tudo corre rápido quando envolve dinheiro — ela responde.
Olho para ela por cima do jornal.
Ela não está errada.
Termino o café e me levanto.
— Não gosto de atrasos — aviso.
— Nem eu — ela diz, simples.
Há algo nessa mulher que me desarma de forma sutil, não é submissão ou desafio explícito, é uma firmeza silenciosa, e eu não estou acostumado a isso.
⚡
A reunião da manhã é produtiva, mas tensa. Alguns empresários locais tentam testar limites falando de tradição, de identidade brasileira e de orgulho empresarial, mas eu sempre soube que orgulho não paga dívidas. Quando menciono os números reais da empresa rival, a sala fica em silêncio porque eles sabem que estou certo.
Volto para a mansão perto do meio-dia, já planejando os próximos movimentos.
Ao entrar, percebo um clima diferente.
Uma funcionária da equipe terceirizada de limpeza está parada perto da escada, claramente nervosa. Ela segura um pano nas mãos como se fosse um escudo.
— O que aconteceu? — pergunto, seco.
Ela abre a boca, mas não responde.
Sofia aparece no corredor quase imediatamente.
— Senhor Moretti, podemos conversar um momento?
Eu arqueio uma sobrancelha.
— Agora?
— Sim.
Há firmeza na voz dela, e algo mais, talvez proteção.
Eu faço um gesto para que a funcionária se retire. Ela praticamente corre para fora do meu campo de visão.
Caminho até o escritório improvisado no térreo e fecho a porta atrás de nós.
— Explique.
Sofia cruza os braços na altura da cintura, postura ereta.
— A funcionária que o senhor repreendeu mais cedo...
— Eu não repreendi. Eu corrigi um erro.
— O tom foi desnecessariamente duro.
Silêncio.
Eu a encaro por um segundo, esperando que ela perceba o absurdo da situação.
— Está questionando a maneira como eu conduzo minha equipe?
— Estou questionando a forma como o senhor falou com alguém que trabalha aqui — ela responde, sem hesitar.
Ninguém me confronta!
Diretores ou investidores não me confrontam, e funcionários definitivamente não me confrontam, e, ainda assim, ali está ela, uma governanta temporária me dizendo que meu tom foi duro demais.
Eu sinto a irritação natural e automática subir primeiro.
— Se a funcionária comete um erro, eu aponto o erro — digo. — É assim que se mantém o padrão.
— Existe diferença entre manter padrão e humilhar alguém.
A palavra humilhar paira no ar, porque essa nunca foi a minha intenção.
Eu dou um passo à frente.
— Eu não humilho ninguém.
Ela sustenta meu olhar.
— Ela saiu daqui tremendo, senhor Moretti.
Algo dentro de mim reage à frase, não é culpa, porque eu não trabalho com culpa.
É… incômodo.
— Se ela não suporta pressão, não deveria estar aqui — respondo.
— Pressão é diferente de desrespeito.
O silêncio que se instala é pesado.
Eu poderia encerrar a conversa ali e lembrar a ela qual é o lugar dela naquela casa, mas eu não faço isso, porque quero entender e saber até onde ela vai com essa ousadia.
— Você sempre enfrenta seus superiores assim? — pergunto.
— Quando acho necessário, sim — ela fala sem tremor na voz ou um pedido de desculpas.
Meu maxilar se tensiona.
— Você está aqui para administrar a casa, não para avaliar minha conduta.
— Eu administro pessoas também — ela rebate. — E pessoas não são planilhas.
A frase me atinge de um jeito inesperado.
"Pessoas não são planilhas."
Eu passo a mão pelo queixo, tentando manter o controle da situação.
— No mundo real, resultados importam mais do que sentimentos.
— No mundo real, pessoas produzem resultados — ela responde. — E pessoas quebradas produzem menos.
Eu deveria estar irritado e encerrar aquilo com uma frase fria e definitiva, mas não estou, estou me sentindo... Provocado.
Ela não está gritando e não está sendo dramática, apenas está argumentando com lógica e convicção, e isso chamou a minha atenção.
— Você não sabe como eu conduzo meus negócios — digo, mais baixo.
— Sei como conduziu uma funcionária hoje.
O ar parece ficar mais quente entre nós.
Eu me aproximo mais um passo.
Ela não recua.
Nunca recua.
— Está me julgando? — pergunto.
— Estou defendendo alguém que não tem poder para se defender.
Há algo na forma como ela diz isso que me desarma. Ela se importa com alguém, e isso é raro. Eu cresci em um ambiente onde fraqueza era punida, onde chorar era sinônimo de perder espaço e onde meu pai dizia que líderes não pedem desculpas, eles impõem, mas ali, diante dela, pela primeira vez em muito tempo, eu me questiono.
Meu tom foi excessivo?
A funcionária realmente saiu tremendo?
Eu lembro da expressão dela, e sim, ela parecia assustada.
Eu fecho os olhos por um segundo.
Isso não deveria importar, mas importa, porque Sofia fez importar.
— Eu exijo excelência — digo, mais contido.
— E pode continuar exigindo — ela responde. — Só não precisa esmagar ninguém no processo.
O silêncio se instala novamente.
Eu observo cada detalhe do rosto dela, não há arrogância ou tentativa de me diminuir, há apenas… verdade, e isso é desconcertante.
— Você fala como se me conhecesse — digo.
— Não conheço — ela responde. — Mas sei reconhecer quando alguém está acostumado demais a não ser questionado.
A frase acerta em cheio.
Eu quase sorrio.
Quase.
— E você gosta de questionar? — pergunto.
— Gosto de justiça.
A palavra justiça soa quase ingênua no mundo corporativo, mas nela não soa frágil, soa forte.
Eu solto o ar devagar.
— A funcionária continuará trabalhando aqui — digo. — E não será mais repreendida daquela forma.
Os olhos dela suavizam por um segundo, era uma vitória silenciosa.
— Obrigada — ela diz.
Não há triunfo na voz, apenas alívio.
Eu me afasto um pouco, criando espaço entre nós.
— Mas não confunda isso com fraqueza — acrescento. — Eu continuo exigindo alto desempenho.
— Eu sei — ela responde.
Claro que sabe, porque ela me observa como se estivesse sempre um passo à frente.
— Pode voltar ao trabalho, Sofia.
Ela assente, mas antes de sair, para na porta.
— Senhor Moretti.
— O quê?
— Liderança também é sobre escolher quem você quer ser quando ninguém te obriga a mudar.
Ela sai antes que eu responda, e eu fico parado no escritório por alguns segundos.
Quem eu quero ser?
Eu sempre soube a resposta. Eu quero ser um herdeiro forte, o presidente implacável e o homem que não se dobra, mas, pela primeira vez, alguém não me enfrentou com medo ou interesse, ela me enfrentou com princípios, e isso mexe comigo mais do que deveria.
Eu caminho até a janela e observo o jardim da casa. Vejo Sofia lá fora, conversando com a funcionária de mais cedo, ela toca levemente o ombro da mulher, fala algo que a faz respirar melhor. Ela protege, cuida e defende, eu deveria achar isso irrelevante, mas em vez disso, sinto algo diferente, uma energia inquieta sob a pele, não é raiva ou desejo, é provocação, porque ela me desafia sem elevar a voz, sem dramatizar, sem pedir permissão, e eu não não consigo decidir se isso me irrita… ou me fascina. Eu sempre acreditei que confronto era uma ameaça à autoridade, mas com ela, o confronto parece… vivo, isso me estimula e desperta algo que eu mantive adormecido por anos.
Eu passo a mão pelo cabelo, frustrado comigo mesmo.
Ela é uma funcionária temporária, nada além disso, mas quando me enfrentou, quando sustentou meu olhar e defendeu alguém mais vulnerável… Eu não senti vontade de esmagá-la com poder, senti vontade de entender, de testar e de ver até onde ela vai.
Por que me sinto provocado em vez de irritado?