Ele não vai destruir a minha família

1418 Palavras
Sofia Vasconcelos Eu sempre soube que a Moretti estava rondando, o que eu não sabia era que o predador já tinha entrado na sala de estar da minha própria história. A confirmação veio numa tarde abafada, dessas em que o Rio parece respirar dentro da sua pele. Eu estava organizando o escritório do térreo — aquele que Matteo usa para videoconferências e reuniões mais reservadas — quando ouvi meu sobrenome ecoar do outro lado da porta. Vasconcelos, não é um sobrenome comum, e não é um som que eu confunda. Meu corpo inteiro ficou imóvel por um segundo. A mão ainda segurava uma pasta, mas meus dedos perderam a força. Respirei fundo antes de me aproximar da porta entreaberta, não para ouvir por curiosidade, para ouvir por direito. — A Vasconcelos & Filhos está vulnerável — Matteo dizia, a voz firme, controlada. — Dívidas acumuladas. Estrutura ultrapassada. Se entrarmos agora, adquirimos com margem excelente e absorvemos o que ainda tem valor de mercado. Margem excelente e valor de mercado? É assim que ele enxerga o que restou da empresa que meu avô construiu com as próprias mãos? Eu encostei discretamente na parede ao lado da porta, mantendo a respiração silenciosa. — O sobrenome ainda tem peso no Rio de Janeiro — alguém do outro lado da linha comentou. — Peso emocional não paga passivo — Matteo respondeu, sem hesitar. — Eu não negocio com nostalgia. Eu fechei os olhos por um segundo. Para ele, é apenas uma empresa fragilizada. Para mim, é a última peça de identidade que sobrou depois que meu pai morreu tentando manter algo que o mercado já não respeitava como antes. Eu me afastei da porta antes que ele percebesse qualquer presença. Caminhei até a cozinha com passos calculados, mas por dentro eu estava em ebulição. Eu sabia que a Moretti estava interessada e que havia sondagens, mas ouvir da boca dele — ouvir o desprezo técnico, a frieza matemática — foi diferente. Ele não quer parceria, ele quer absorver e apagar qualquer vestígio da minha família. Minhas mãos tremiam quando apoiei os dedos na bancada de mármore. Forcei a respiração a desacelerar. — Você sabia que isso poderia acontecer, Sofia — murmurei. Eu sabia, mas saber teoricamente é diferente de escutar o homem que divide o mesmo teto que você falar sobre a sua história como se fosse apenas uma oportunidade de desconto. A porta do escritório se abriu alguns minutos depois. Eu já estava reorganizando alguns documentos na mesa da sala como se nada tivesse acontecido. Ele surgiu no corredor com aquele ar de quem já decidiu o destino de alguém. — A reunião da noite foi adiantada — ele disse. — Preciso que o jantar seja servido às dezenove. Eu assenti. — Será feito. Ele me observou por um segundo a mais. — Está tudo bem? A pergunta me pegou desprevenida. Eu ergui os olhos para ele, e percebi que o mesmo não parecia preocupado, parecia atento, como se tivesse percebido uma mudança mínima no meu comportamento. — Está — respondi, firme. Ele inclinou levemente a cabeça, como se não estivesse totalmente convencido. — Ótimo. Ele passou por mim e subiu as escadas. Eu esperei até ouvir a porta do quarto fechar para deixar o ar escapar com força dos meus pulmões. A confirmação veio mais tarde. Depois que ele saiu para a reunião, eu retornei ao escritório para organizar alguns papéis que haviam ficado sobre a mesa, não era invasão, porque era parte da função manter tudo em ordem. Mas quando meus olhos bateram no nome impresso em negrito na primeira página do relatório aberto, o mundo pareceu encolher. VASCONCELOS & FILHOS – ANÁLISE DE AQUISIÇÃO. Eu senti como se alguém tivesse pressionado meu peito por dentro. Havia gráficos. Projeções. Avaliações de ativos. Estratégias de absorção gradual. E ali, em letras frias e objetivas, estava a previsão de quanto tempo levaria para o nome Vasconcelos desaparecer completamente após a fusão. Eu me sentei devagar na cadeira diante da mesa. Lembrei do meu avô me levando à sede da empresa quando eu era criança. O cheiro de madeira antiga no escritório dele. O orgulho nos olhos do meu pai ao falar dos contratos fechados nos anos noventa. Nós já fomos referência. Agora somos estatística. Eu passei os dedos sobre o papel como se pudesse sentir as mãos deles ali. — Não — murmurei para mim mesma. "Não assim." "Não dessa forma." Eu sempre soube que precisava agir, mas agora não era mais uma possibilidade distante, era uma contagem regressiva. Fechei a pasta exatamente como estava e a deixei no mesmo lugar. Nenhuma marca de que alguém a tocou. Voltei para a cozinha antes que ele retornasse. Quando Matteo entrou na casa mais tarde, o cheiro do jantar já preenchia o ambiente. Eu estava de costas, mexendo uma panela, quando senti a presença dele. — O jantar está pronto? — ele perguntou. — Sim. Minha voz saiu estável demais para alguém que tinha acabado de ver o próprio legado ameaçado. Ele se sentou à mesa e começou a falar sobre a reunião. Resultados positivos. Investidores interessados. Avanços estratégicos. Eu escutava cada palavra com uma consciência nova. Ele não falava apenas de números. Falava do meu sobrenome sem saber. — A empresa local está em situação delicada — ele comentou casualmente, cortando um pedaço da comida. — Será melhor para todos quando estiver sob gestão mais competente. "Gestão mais competente." Eu senti algo apertar no meu estômago. — Às vezes tradição também tem valor — eu disse, antes de conseguir me conter. Ele levantou os olhos. — Valor emocional. — Valor histórico — corrigi. — História não impede falência. Ele disse aquilo com a convicção de quem acredita profundamente na própria lógica, e talvez ele esteja certo. Talvez tenhamos falhado em acompanhar o mercado, mas falhar não significa merecer ser apagado. — Algumas empresas precisam de tempo — eu continuei, medindo cada palavra. — Nem tudo se resolve com aquisição. Ele me observava agora com mais atenção. — Você parece pessoalmente investida nesse assunto. Meu coração acelerou. "Cuidado, Sofia." — Eu apenas acredito que nem sempre absorver é a melhor solução. Ele se inclinou levemente para trás na cadeira. — E qual seria? — Reestruturação com preservação de identidade. Silêncio. Ele me analisava como se estivesse avaliando algo além da frase. — Você entende de negócios? — ele perguntou. Mais do que você imagina. — Eu leio bastante — respondi. Ele soltou um meio sorriso. — Leitura não substitui experiência. "Não, Matteo. Mas viver dentro de uma empresa desde a infância substitui." Eu segurei o olhar dele por um segundo mais longo do que deveria. — Às vezes quem está de fora não vê o que pode ser salvo — eu disse. Ele ficou em silêncio. O clima entre nós mudou de novo. Não era mais apenas tensão. Era algo mais profundo. Conflito invisível. Ele voltou a comer, mas eu sabia que havia registrado minhas palavras. E eu sabia também que precisava tomar uma decisão. Não posso continuar apenas observando e esperando que ele tenha uma súbita mudança de coração. Ele não negocia com nostalgia, mas talvez negocie com inteligência. Se eu quiser salvar o que restou da Vasconcelos & Filhos, preciso estar mais perto das decisões, entender cada movimento dele, antecipar cada estratégia, e, se necessário, interferir. Quando ele terminou o jantar e subiu novamente, eu fiquei sozinha na sala. A casa parecia maior naquela noite. Mais silenciosa e ameaçadora. Eu caminhei até a varanda e encarei o céu escuro do Rio. As luzes da cidade piscavam ao longe. Vida acontecendo. Pessoas lutando por espaço. Eu não sou apenas a governanta temporária dessa casa. Eu sou a herdeira de um nome que ainda carrega história. E Matteo Moretti pode até acreditar que veio aqui para conquistar território, mas ele entrou no meu, e eu não vou assistir de braços cruzados enquanto ele transforma meu legado em margem de lucro. Eu apertei o corrimão da varanda com força. Ele quer o que restou do nosso nome e quer decidir o futuro da empresa da minha família como se fosse apenas mais uma estratégia de expansão, mas ele não conhece a raiz, o peso e o que significa carregar um sobrenome que já foi sinônimo de respeito nessa cidade. Se ele acha que será fácil, está enganado, e se ele acredita que ninguém vai reagir, está ainda mais enganado. Eu não vou permitir que ele destrua a minha família e apague a minha história.
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