FRANCINE
Na segunda pela manhã, levantei mais cedo que o habitual. Eu não podia mentir e dizer que estava tranquila porque isso era uma inverdade. Nunca me senti daquela maneira olhando o celular a cada cinco minutos e ansiando por uma maldita ligação que não iria acontecer. O que eu estava pensando? Que ele iria ligar e me chamar para jantar persistindo na idéia de ainda ser meu amigo? Definitivamente isso não acontece na vida real.
Estava no banheiro enrolando a toalha em volta do corpo quando meu celular tocoi; o fato de tomar banho com a porta aberta ajuda a ouvir claramente. A possibilidade de ser Diego fez o meu coração acelerar instantemente. Caminhei lentamente até a cozinha e o vi em cima da pequena ilha. Ponderei em ir até ele e quando fui e finalmente o peguei, suspirei frustada ao ver que se tratava de dona Marta, minha mãe.
Já fazia algumas semanas que não conversávamos e eu estava fugindo, confesso. Falar com a minha mãe era um martírio, quando não estaba reclamando da sua vida estava reclamando da minha, porém não adiantava dizer que já sai de casa e que ela não tem o direito de descontar suas frustrações em mim que entrara por um ouvido e saira pelo outro, pareciq pouco quando ela ainda tocava no nome de Thiago e me culpava por não ter cuidado do meu relacionamento, já que eu poderia está casada e com uma vida melhor porque ele era bastante conhecido na pequena cidade onde eu morava, por ter condições financeiras sendo o único filho do dono de uma rede de vidraçaria.
Ela não aprovava o fato de eu ser professora e morar sozinha, não aprovava as minhas escolhas e menos ainda o meu corpo. Visitar a minha mãe já não era mais satisfatório como quando me mudei para São Paulo e a visitava constantemente mesmo ouvindo seus julgamentos e tendo que ver a desgraçada da minha prima com Thiago. Mas eu ia, suportava tudo isso pela minha mãe, porém com o tempo eu fui descobrindo que ela não merecia, então fui me afastando aos poucos e cuidando da minha tia que me acolheu e quem realmente parecia se importar.
Era ela que me acordava todos os dias para ir a faculdade, aliás, foi ela que pagou minha faculdade e eu não posso ser menos grata. Tia Berenice xingou o Thiago quando ficou sabendo do ocorrido e puxava a minha orelha quando entrava no quarto e me via deitada chorando.
Infelizmente ela havia falecido à um ano, porém eu seria eternamente grata.
Ela foi um anjo na minha vida assim como eu fui na dela, acredito eu. Vivia sozinha e não tinha filhos, muito menos marido, então fazíamos companhia uma a outra e foi assim até o dia da sua morte.
Atendi o celular a contragosto.
— Até que enfim atendeu. Tem celular pra que já que demora para atender? — Perguntou resmungando como de costume.
— O que a senhora quer mãe? — quis saber, suspirando.
— O que eu quero?! — Gritou — Queria uma filha menos inútil. Uma que se importasse com a mãe que tem. Não sei porque eu ainda me dou o trabalho de ligar Francine.
— Mãe, me desculpa mas eu ando bastante ocupada, você sabe que vida de professor não é fácil. — fechei os olhos e coçei a testa.
— Você que escolheu então sofra bastante as consequências. — Desejou — Olha, eu liguei pra avisar que estou precisando de dinheiro, já tem alguns dias que não tem nada na dispensa.
Falou e eu já sabia que se tratava disso, era sempre assim; reclamava do que sou mas era devido ao meu trabalho que ela tinha o que comer.
— E o Fábio mãe? Ele não está trabalhando? — Perguntei já entrando no quarto, estava pra lá de atrasada.
— Tudo é seu irmão? Ele está aqui cuidando de mim já que não posso nem levantar da cama devido a artrose. Ele sim cuida de mim. — Enfatizou e eu senti meus olhos arderem. Eu podia está acostumada mas a cada vez era como se fosse a primeira e ainda doía o fato dela não me considerar, não me amar com amava o meu irmão.
— Vou depositar o dinheiro hoje, — Disse firme, e ela ficou quieta — Preciso desligar, tchau.
Joguei o celular em cima da cama e peguei a primeira roupa que vi pela frente para vestir. Amarrei o cabelo em um coque baixo e pus meus óculos.
Eu não ia me abater por isso, eu tentei ser forte com os acontecimentos durante anos e iria continuar tentando.
Cheguei ao colégio um pouco apressada quando o porteiro me parou.
— Professora, deixaram isso aqui para a senhora. — Estendeu um cartão dourado e eu peguei colocando-o dentro a da bolsa.
— Obrigado seu José.
Agradeci e me encaminhei para a sala dos professores.
Eu não estava feliz e muito menos com humor e isso se sucedeu durante os próximos três dias. Depositei o dinheiro para a minha mãe e não atendi quando a mesma ligou outra vez. Estava tão sobrecarregada que não me dei conta de nada até virar a esquina da minha rua e ver uma certo homem parado em frente, escorado no capô do carro e mechendo no celular. Pensei em dá meia volta mas já era tarde. Ele tinha me visto.
— Como você descobriu a minha casa? — Perguntei assim que me aproximei, estava segurando a alça da bolsa como se minha vida dependesse daquilo para se manter a salva.
— Boa tarde para você também Francine. — Zombou — Eu resolvi chegar um pouco mais cedo para o nosso jantar. — Continuou, ignorando minha pergunta.
— Que jantar? — Questionei sem entender.
— Eu pedi para te entregarem um cartão. Iria mandar flores mas achei que chamaria bastante atenção no colégio. — Falou. Porque ele falava tudo com naturalidade com se fosse a coisa mais normal do mundo?
— Eu estive bastante cheia esses dias que não olhei o bendito cartão. — Falei, lembrando, pegando-o dentro da bolsa. Li em voz alta depois de abri-lo com seu olhar atento em mim — Futura flor do meu jardim, quero que aceite o meu convite para jantarmos quinta feira e não aceito não como resposta. Te pego em casa anjo, até lá. — Assim que terminei de ler meu rosto esquentou e um rubor me atingiu da maneira como ele me chamou — Porque não mandou mensagem? Afinal você tem o meu número.
— Você não me ligou e eu não quis incomodá-la, se for para ligar ou mandar mensagem quero que seja a primeira a fazer entende? — Se aproximou segurando meu queixo e levantando minha cabeça — Até porque um cartão é romântico, e soa diferente nos dias de hoje, gosto de ser diferente. — Terminou de falar e se afastou quando me deixou inebriada por demais com seu perfume forte e amadeirado.
— Eu não posso sair para jantar assim. — Falei vendo seu semblante de desapontamento — Eu não tenho roupa adequada para sair ao lado do grande Diego. — Salientei e ele bufou
E eu não teria coragem de usar minhas calças surradas para sair com esse homem. Era demais até para mim.
— Não sou ninguém importante. E, quero que esqueça que sou dono da boate, quero que me veja, quero que enxergue o Diego que quer ser seu amigo. — Disse retirando a jaqueta, me dando o vislumbre dos seus músculos na blusa extremamente colada no corpo.
— Bom Diego, sinto te decepcionar mas não vai dar para jantarmos. — Disse dando as costas para poder entrar porque de repente olhar para ele estava sendo difícil
.
Quando me virei o mesmo estava abrindo a porta do carro com um semblante diferente. Eu diria até decepcionado.
Respirei fundo, eu podia me arrepender do que iria fazer mas eu não quis pensar. De toda maneira ele não ousaria me fazer m*l, afinal, era um homem bastante conhecido. Me apaguei isso quando o chamei.
— Eu não posso sair mas não significa que não podemos jantar aqui. — Disse e ele me olhou — Bom, obviamente temos que ir no mercado comprar algo que falta...
Ele não me deixou terminar.
— É sério? — Questionou e o tamanho do seu sorriso me faz sorrir também.
— Bom, eu tenho facas, um spray de pimenta... — Inumerei nos dedos — Um soco inglês, e além de tudo você não vai querer manchar a sua imagem. — Seu sorriso morrei e ele me olhou como se eu fosse louca.
— Eu nunca faria m*l a alguém. — Me aproximei e abrir a porta entrando de uma vez, ele veio atrás, fechou-a..
— Gostei desse lugar. — Murmurou
olhando ao redor, sentando-se como se fosse o dono da casa, colocando os pés na mesinha de centro que continha alguns porta retratos meu de quando mais jovem.
— Eu... Vou trocar de roupa para irmos no mercado. — Gaguejei um pouco incomodada por saber que só tem nós dois dentro de casa. Era uma sensação totalmente estranha.
Entrei no quarto e tranqueia porta, o pior e que nem consigui trocar de roupa porque estava com a sensação de estar sendo observada.
Pus uma calça de moletom e uma blusa branca, de repente nenhuma das minhas roupas eram dignas dele.
Sai do quarto e o encontrei do mesmo jeito.
— Vamos? — chamei-o pegando dinheiro e o meu celular.
Ele se pôs de pé.
— Você realmente tem um soco inglês? — Indagou curioso e inacreditado, eu apenas ri, deixando a resposta no ar quando saímos.