FRANCINE
Ao adentrarmos no mercado, todos os olhares se viraram para nós. Sabia que tinham conhecido Diego, e tinha consciência que a era ele a chamar atenção ali. Entretanto, uma minoria se voltava para mim com uns olhares estranhos, descia pelo meu corpo fazendo careta de nojo e arrogância. Me encolhi com vergonha e quis voltar no mesmo instante. Poxa, eu estava ao lado de um homão, lindo, rico e conhecido. De súbito a inferioridade se instalou em mim, me encolhi.
Diego ao perceber minha mudança, passou o braço pelo meus ombros, me aconchegando mais a ele. Sem se preocupar com o que os outros estavam naquele exato momento, pensando.
— Já pensou no que quer comer essa noite? — Perguntou. Sussurrando no meu ouvido e eu quase derreti indo ao chão. Tanto pela ambiguidade da frase, como pelo que ela causou em mim; sensação totalmente nova.
Confesso que o coração acelerou e todos os pelos do meu corpo se eriçaram de imediato.
Suspirei.
— Não... — Limpei a garganta — Quer dizer, não. Ainda não pensei, e você? — Finalmente o olhei, vendo-o que estava se divertindo com o meu embaraço.
— Eu? — Pareceu pensar — Queria algo com bastante carne sabe?
— Humm. — Murmuei interessada.
Ele continuou:
— Porque sou um homem que precisa comer bem.
— O que você sugere? — quis saber. Eu amo carne, mas não acredito que a noite seja uma boa hora para comê-la em excesso.
— O que eu sugiro? — Perguntou em um tom de descrença.
— Eu não tenho frescura, como qualquer coisa, mas suponho que essa hora não seja apropriada para comer cerne. — Falei, ele ficou me encarando por alguns segundos, fui obrigada a olhar para o outro lado tamanha timidez. — O que foi? — Questionei baixo.
— Você. — Apontou direto.
— O que tem eu? — Me pus em estado de alerta, será que agora se deu conta do meu corpo e aparência e resolveu falar? Engulo seco, porém, o que ele diz a seguir me surpreende.
— É linda, tímida e um pouco inocente. — Sorriu
Não diria que era inocente. Um pouco alheia sim, inocente, não.
— Isso é r**m? — Indaguei, mas não me achava nenhum pouco linda; meus lábios são grandes demais, tenho as bochechas enormes e não vamos falar no meu corpo; sou gorda. Só Deus e eu sabemos o quanto é r**m comprar uma roupa que caiba em mim.
— Não, anjo — Segurou minhas mãos e levou aos lábios — Te conheci a poucos dias e te acho a mulher mais adorável que já vi.
Confessou com uma sinceridade absurda, que me deixou sem graça, mas confessei que gostei de ser elogiada; Eu tenho essa necessidade.
— Vamos... — Puxei minhas mãos das suas e segui na frente. Ele pegou carrinho de compras, me acompanhando.
— Você fica com o jantar e eu faço a sobremesa. — Disse — Acredito que não sou boa em cozinhar. — Pego um leite condensado e coloco no carrinho.
— Aceito cozinhar, hoje. — Enfatizou — E eu não acredito que não saiba cozinhar. — Parou ao meu lado, pegou um creme de leite, milho, ervilha... — Suspirei desorientada, porque, para ele fazer isso tem que encostar em mim, já que eu permaneço parada feito uma estátua devido ao seu cheiro inebriante.
— Vamos? — Abri os olhos, nem reparei que os tinha fechados, e o segui ainda tonta.
Diego pareceu se divertir quando um um grupo de idosas pararam para vê-lo, cheguei a ficar abismada de como elas não disfarçaram ao simular sentirem calor. Uma até comentou sobre o suposto tamanho do negócio dele e eu apressei os passos para não ouvir essa barbaridade.
— Você viu aquilo? — Questionei ainda horrorizada ao me aproximar dele, o mesmo se encontrando parado vendo algo na seção de doces.
— O quê? — Se virou com uma barra de chocolate em mãos, fechei os olhos para não cair na tentação de olhar para baixo. — Está tudo bem?
— Uhum. — Corei de vergonha por quase gemer.
Aquela noite iria ser longa e eu não sabia se estava preparada.
***
Ao sairmos do mercado, uma chuva torrencial estava desabando no céu. Corremos como duas crianças para colocarmos as sacolas no porta mala ao som de risadas.
Eu tinha a sensação de conhecê-lo a muito tempo, e não só á dois dias. Diego era divertido e engraçado. Foquei o olhar na sua blusa e em como estava colada ao seu corpo grande, me peguei com vontade de levanta-la e tirá-la, só para ter a sensação de como seria tocar sua pele.
Balançei a cabeça para dissipar essas loucuras e entrei no carro soltando o cabelo molhado. De toda e qualquer maneira, um homem como Diego nunca olharia para mim com desejo, não era bonita ou sexy, meu corpo não me agradava e não me achava boa em nada, a não ser na sala de aula. Por um instante lembrei de Mariana, eu queria ser como ela, linda, autêntica e confiante. Queria saber ousar como ela, mas nem coragem eu tenho de usar uma roupa acima do joelho, por que acredito que com as que uso, sou mais comparada com uma tiazinha do que uma mulher sexy.
— Estou toda molhada. — Resmunguei sacudindo o cabelo quando ele se acomodou no banco. Diego grunhiu chamando minha atenção. Suas mãos apertaram o volante com bastante força quando ele proferiu baixinho:
— Você não pode sair falando isso. — repreendeu.
— Hã? Porque não? — Questionei confusa.
Seu suspiro quando balançoi a cabeça e dei partida no carro foi a minha resposta.
O caminho foi feito no mais absoluto silêncio e eu quis perguntar se tinha feito algo errado. Ele é tão brincalhão e conversador que me senti estranha durante aquele momento de silêncio. Ao parar em frente a minha casa não esperei ele descer, e mesmo que a chuva tivesse diminuído consideravelmente, ainda assim, não gosto de ter a roupa grudada no corpo.
— Está tudo bem? — Perguntei quando ele se pôs ao meu lado para abrir o porta malas.
— Estou bem, porque a pergunta? — Franziu a testa.
— Por nada. — mordi o lábio — Bom, vamos entrar logo antes que engrosse outra vez.
Ele respiroiu fundo antes de concordar e me seguir, após pegar as sacolas.
***
— Eu não tenho nenhuma roupa para você. — avisei mirando suas roupas molhadas. — Moro sozinha, então obviamente não vai ter uma roupa masculina.
— Isso estranhamente me enche de alívio. — Resmungou de onde estava.
— Falou algo? — balançou a cabeça — Como eu estava dizendo, tenho alguns roupões...
— Está tudo bem Francine. Não se preocupe. — Me lançou um olhar tranquilizador.
— Hm... Então eu vou... — Apontei tanto sem jeito — me trocar.
— A casa é sua. — disse zombeteiro.
— De fato.
Respondi, movendo meus pés indo em direção ao quarto, assim que entrei tranquei a porta rapidamente e apoiei as costas respirando fundo.
Tinha um homem de praticamente um metro e oitenta, n***o, com a barba por fazer; deixando seu rosto ainda mais másculo e lindo, não posso esquecer dos músculos — De todos aqueles músculos, ocupando minha minúscula cozinha.
Ao entrar no banheiro, não abandonei a sensação de está sendo observada, tive vergonha ao olhar minha roupa íntima; uma calçola bege de vovó e sutiã da mesma cor. Na verdade não tinha necessidade de comprar roupas ousadas, não havia a quem impressionar, só me sentiria ainda mais ridícula por vestir algo tão... Ousado.
Depois de vestir um vestido amarelo e pentear o cabelo, calçei as sandálias, abri a porta do quarto e um cheiro maravilhoso de comida invadiu meus sentidos.
Ao chegar na cozinha, me deparei com Diego em frente ao fogão, sem camisa, e totalmente suado; a pele n***a brilhando com a luz refletida na mesma.
— Precisando de ajuda? — Minha voz soou baixo, suspirei.
Ele se virou, um sorriso lindo adornando seus lábios.
— Por enquanto não. — Piscou — Estou fazendo um torta de frango com bastante queijo. Gosta?
— Hmm... Sim. — Me sentei no banquinho.
Ele me olhou outra vez, foi até a pia, pegou o frango e voltou para mexer a panela.
Era esquisito tê-lo na minha casa. Poxa, nenhum homem nunca pisou os pés. Eu nunca fiquei com outra pessoa depois do i****a que me traiu. Então ter Diego lá me fez repensar em toda a minha vida. Desde o início do namoro, o abandono na igreja e a minha vida em São Paulo; recomeçando tudo.
— Em que está pensando? — Sobressaltei na cadeira. Ele estando a minha frente, com uma colher mirando a minha boca — Experimenta — Eu o fiz.
— Hmm... Muito bom. — Com o polegar, limpei o resquício que ficou no canto da boca depois de experimentar o frango.
— Obrigado. — Agradeceu, voltando a pia.
Enquanto ele estava preparando tudo, achei melhor ficar um pouco distante, então fui para a sala.
Abri a janela e respirei fundo. Eu queria pergunta-lhe o porquê de toda essa insistência em mim. Me convidando para jantar, vindo até minha casa, querendo ser meu amigo... Eu realmente não intendia. Não acho que eu mereçia qualquer coisa mesmo, ainda mais vindo dele.
“Você ganhou na loteria Francine, se perder um cara como Thiago, ficará sozinha...”
“Você não sabe fazer nada direito, por isso fica aí procurando aceitação, quer saber a verdade? Você nunca irá tê-la”
Essa era sempre a minha mãe que falava, ela não cansava de jogar na minha cara o quanto eu não iria ser alguém na vida, não iria crescer ...
Que era para ter segurado o Thiago, ele era rico e bonito, pelo menos não iria morrer de fome. Eram essas suas palavras.
E quando você cresce ouvindo certas coisas, é difícil pensar o contrário. Eu não tive ninguém para dizer que aquilo não era verdade, que eu era capaz.
Suspiro olhando para a parede.
Eu odeio não se capaz!
— Odiar é uma palavra forte, não? — Me assustei com Diego encostado na parede. — Não sei o que você já passou nessa vida, mas nunca diga para si mesmo que não é capaz.
Não sou nem capaz de segurar a própria língua.
— Certo. — Murmurei.
— Quando eu tinha dezessete anos meu pai morreu. — Ele disse— Toda a sua herança foi dívida entre mim e a minha irmã mais nova, Denise. Éramos menores de idade, porém tudo foi sendo admistrado por um advogado amigo da família. Quando fiz dezoito anos toda a minha parte foi dado a mim, centavo por centavo. — Sorriu — Eu já tinha consciência de que queria ser um grande empresário. Em uma noite qualquer eu conheci uma garota; dezenove anos, linda, tímida e muitos outros adjetivos. Fiquei admirado, então começamos a nos relacionar, fiquei tão focado nisso que comecei a ir m*l na faculdade, gastava com futilidades apenas para agradá-la.
Estávamos comemorando cinco meses de namoro, aluguei um chalé e fomos, nessa noite fiquei bêbado e acabei assinando um documento. — Fixa seu olhar no meu — Sem saber, naquela noite, eu estava entregando todo a meu dinheiro a ela. No outro dia pela manhã acordei sozinho naquele lugar e nunca mais ouvir falar nada dela.
Caramba.
— Nossa, eu sinto muito. — E eu realmente sintia. É uma história e tanto.
— Não sinta. — Disse carinhoso — Eu tive que recomeçar do zero, minha irmã quis me ajudar, porém não aceitei, foi culpa minha e eu iria arrumar tudo. Trabalhei muito; servente, garçom, entregador e muitas outras coisas. No fim ainda tive que pegar como um empréstimo dinheiro de Denise. Me formei em administração, abri a primeira boate, no incio não foi tão fácil, mas eu não desisti, não me coloquei para baixo e hoje eu posso dizer que tenho tudo, ou melhor, quase tudo que quero.
— Não imagino o quanto lutou. Eu no seu lugar teria desistido e me entregado ao fracasso. — fui verdadeira.
— Exatamente, eu tinha essa opção, ou então levantar e seguir em frente. Então escolhi seguir. — Ele caminhou até mim e se agachou em minha frente, ficando cara a cara.
— E a mulher? Você não foi atrás? — Questionei desviando o olhar.
— Até fui. Mas não encontrei, ela soube se esconder realmente bem. Não sei nem se seu nome era de fato aquele. — mutmurou.
Ele deu a volta por cima. Bom para ele, fico feliz de verdade por ele.