Lobo
O mundo encolhe. Fecha. Vira um beco sem saída, as paredes feitas de concreto e arame farpado, e eu tô no meio, sem ter pra onde correr. As palavras do Tito ainda tão ecoando na minha cabeça, cada uma uma facada.
— Preciso que você leve o Evandro. O Centauro quer matar ele, e eu não posso deixar isso acontecer.
Ele falou isso, e nos olhos dele... p***a, nos olhos dele eu vi uma coisa que eu nunca imaginei que existia: humanidade. Cuidado. Empatia. O monstro tem um coração, e ele bate pelo menino que ele roubou de mim. A ironia é tão c***l que quase me faz rir. Ou chorar. Não sei.
— Mas... por quê? — a pergunta sai de mim, um fio de voz, enquanto meus pensamentos viram um redemoinho dentro do crânio. — Por que o Centauro quer matar o menino?
Tito se afasta, as costas tensas. Ele acende um baseado com as mãos tremendo, tragando fundo como se o fumo fosse acalmar os demônios dele.
— Isso não importa — ele solta a fumaça, a voz saindo rouca. — Só preciso que você cuide do Evandro. Pelo menos até eu conseguir acabar com o Centauro e estar seguro pra ele voltar. Eu vou te pagar muito bem.
O coração acelera. É a minha chance. Ele tá me dando o Miguel de bandeja. Se eu conseguir puxar o fio, chegar no assunto Joana... talvez, só talvez, ele solte essa informação também. Aí eu saio daqui com os dois. Com a minha família completa.
— Mas eu preciso saber, chefe — insisto, tentando manter a voz controlada, de segurança profissional preocupado. — Como é que eu vou proteger ele direito sem saber os riscos? Sem saber o que eu tô enfrentando?
Ele vira pra mim de repente, os olhos injetados, uma mistura de maconha e desespero.
— Olha aqui, Lobo — ele fala, a voz saindo baixa, mas cheia de uma ameaça visceral. — Eu tenho sido bem legal com você. Não insiste nesse assunto. Você vai me ajudar, ou eu te mato! Fui claro?
O gelo corre nas minhas veias. A máscara do chefe voltou. A humanidade sumiu. É isso ou a morte. Eu engulo seco, a garganta apertada, e afirmo com a cabeça. Não tenho escolha.
— Agora eu vou resolver umas coisas no QG e volto com a grana e uns celulares seguros — ele diz, já se afastando. — Vocês partem em duas horas.
Ele some pela porta dos fundos, e eu fico parado no meio do quintal, o corpo inteiro tremendo. O que eu faço? O que eu faço?
Eu vou ter que ir embora. Com o Miguel. E vou ter que deixar a Soraia pra trás. Grávida do meu filho. Na mão de um homem que tá prestes a entrar em guerra e que, muito provavelmente, vai morrer. E quando ele morrer, o que vai ser dela? E do nosso bebê? E a Joana? A missão de encontrar ela... falhou. Tudo falhou.
Subo pro meu quarto, as pernas bambas. Fecho a porta e desabo. Não é um choro de homem. É um choro de menino. De menino assustado, derrotado. As lágrimas quentes escorrem, os soluços sacodem meu corpo todo.
— A missão falhou — sussurro, a voz um quebranto entre os dentes. — A missão falhou.
Tudo por que? Porque eu me apaixonei? Porque eu criei laço? Porque eu não fui o soldado de ferro que eu deveria ter sido? A Joana tá em algum lugar, e eu tô fugindo. Deixando ela pra trás. Abandonando a Soraia. É uma dor tão grande, tão pesada, que parece que vai me partir no meio.
A porta do quarto se abre. É a Soraia. Ela deve ter ouvido. Ela me vê no chão, destruído, e o rosto dela se desfaz. Ela fecha a porta e vem até mim, se ajoelhando, envolvendo meus ombros com os braços.
— O que foi? O que aconteceu? — a voz dela é um sussurro cheio de medo.
Eu levanto o rosto, olho pra ela. Os olhos lindos, cheios de uma luz que eu não mereço.
— O Tito disse que a gente tem que partir. Em duas horas. Eu e o Miguel — falo, as palavras saindo como pedras.
Eu vejo o entendimento bater nela. A cor some do rosto. Ela sabe o que isso significa. Que ela não vai. Que ela vai ficar. O desespero dela é um espelho do meu.
— Não... — ela balbucia, os olhos enchendo d’água.
— Eu não tenho escolha — digo, a voz falhando.
Ela me puxa pelo cabelo e crava a boca na minha. Não foi um beijo de despedida, daqueles molhados de lágrima. Não. Era um beijo de quem tá com fome, de quem quer devorar. A língua dela invadiu minha boca como se quisesse arrancar minha alma. Era desespero puro, uma sede do c*****o de ficar marcado, de guardar na pele a memória um do outro.
Sem nem desgrudar a boca, as mãos dela foram pro meu peito e arrancaram a minha camisa. Os botões voaram pelo quarto, fazendo um barulho de plástico batendo no chão.
— f**a-se essa merda. — ela rosnou no meu ouvido, com a voz rouca e sexy.
Minhas mãos responderam na mesma moeda, agarrando aquele vestido fino e rasgando a borda dele com um som seco. Não teve pedido, nem delicadeza. Só a urgência do momento, a certeza de que era a última vez.
Empurrei ela contra a parede, e o impacto fez a moldura do quadro pendurado tremer. A minha boca largou a dela e desceu pelo pescoço, mordiscando, chupando, deixando marca. Desci mais, prendi o mamilo duro dela entre os dentes e ela gritou, um gemido alto e cheio de necessidade.
— Me fode. — ela ordenou, ofegante, as unhas já enterradas nas minhas costas como garras. — Me fode até eu não aguentar mais.
Entrei nela de uma vez, tudo, num só movimento bruto. Ela gemeu alto, um som rouco que parecia sair bem de dentro.
— c*****o! Assim! — ela gritou, os quadris já encontrando o meu ritmo, selvagem.
Cada metida era um soco no mundo, era raiva, era a frustração de tudo que a gente não podia ter. Era amor e ódio misturados na mesma p***a. O suor já escorria, a pele colava, e o cheiro dos dois era um só.
Caímos na cama, e ela veio por cima, cavalgando com uma fúria desesperada, os olhos fechados, a cabeça jogada pra trás.
— Quero sentir você por uma semana. — ela gemeu, os s***s balançando no meu rosto.
Eu virei ela de bruços, levantei aquele quadril e entrei de novo, por trás, mais fundo ainda. A mão na sua nuca, puxando o cabelo.
— Vai guardar bem então, vai lembrar de quem é que te comeu assim pela última vez.
Ela gemia sem parar, um "sim, p***a, assim" que era uma música de dor e prazer. O mundo tinha sumido. Só existia o calor do corpo dela, o barulho da pele batendo na pele, o cheiro do sexo e do suor, e o gosto salgado das lágrimas — não sei se eram minhas ou dela — na nossa boca. Era o nosso último porto seguro antes do fim do mundo.
Quando a gente chegou no limite, foi quase junto. Um tremor que começou nas pernas dela e explodiu dentro de mim. Eu disse o nome dela, um rosnado abafado no pescoço suado, enquanto ela gemia ofegante, o corpo todo contraindo, apertando meu p*u. Gozamos como se tivéssemos arrancando a alma um do outro.
Ficamos deitados depois, destruídos, os corpos grudados, ofegantes, o ar pesado com o cheiro do que a gente tinha feito. Nem precisava falar. Aquele silêncio já dizia tudo: tinha sido um adeus do c*****o.
E é ali, no silêncio pesado que vem depois, com o coração ainda batendo forte, que a verdade escapa. Não dá mais pra segurar.
— Eu te amo, Soraia.
As palavras saem baixas, mas claras. Um segredo confessado no fim do mundo.
Ela não diz nada. Só aperta a mão na minha, com uma força que diz tudo. O sim, o eu também, o por que agora? O não me esqueça.
É nesse momento que a gente ouve. O ronco do carro do Tito chegando. Ele voltou. Com o dinheiro. Com os celulares. Com o nosso fim.
A gente se olha, um último, longo olhar. Dois condenados se despedindo antes da execução. Dois amantes se separando no portão do inferno. E eu sei, no fundo da minha alma, que eu vou carregar o gosto dela, o cheiro dela, o amor por ela, pra todo o sempre.
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