Um Pedido

932 Palavras
Lobo Desde que o Tito voltou todo fechado o ar tá estranho na casa, ele não foi agressivo, tá dormindo em outro quarto e m*l troca uma palavra com ninguém a não ser o Miguel. Desde depois do almoço o Tito tá no quintal, reunido com uns três vapô. A voz dele é baixa, mas o tom é urgente, cortante. Eles estão planejando alguma coisa, se preparando pra um ataque ou se fechando pra uma defesa. Não dá pra saber. O clima é de guerra. Jacaré entra na cozinha onde eu tô, com a desculpa de pegar um café. Ele enche a xícara e fica do meu lado, olhando pela janela pro grupo lá fora. — Tá feia a coisa, hein, Lobo? — ele comenta, num tom mais baixo do que o normal. — Tá sempre feio — respondo, tentando soar desinteressado, mas minha antena tá ligada no talo. — É, mas dessa vez tá pior — ele suspira, tomando um gole. — O Centauro tá puto da vida. O Tito enganou ele numa parada grande, há um tempo. Agora o bicho tá atrás do sangue dele. O coração dispara dentro do meu peito, mas eu mantenho a cara de paisagem. "Enganou ele numa parada." As peças começam a se encaixar na minha cabeça, formando uma imagem que me enche de um frio na espinha. Aquela conversa no baile, o "não mato criança". O Miguel. A tal mulher do Centauro que veio grávida de fora... que só pode ser a Joana. Porra. Tudo faz sentido. O Tito não só sequestrou a Joana e o Miguel. Ele enganou o Centauro deixando o Miguel vivo. Roubou ele do chefão. Ele botou fogo no parque e agora o incêndio tá chegando aqui. Mas por quê o Centauro queria meu filho morto? Droga, preciso de respostas. Jacaré me olha de lado, sério. — Quando o Centauro quer alguém, ele pega. E o Tito sabe que não tem como correr. Sabe que é questão de tempo. Ele termina o café e sai, me deixando com a bomba na cabeça. O Centauro quer o Tito. E se ele quer o Tito, ele vai querer tudo que é do Tito. Incluindo a Soraia e o Miguel. Não posso deixar isso acontecer. Depois que os vapô vão embora, o Tito fica no quintal sozinho, olhando pro nada. É a minha chance. Preciso de respostas. Preciso saber se a Joana tá viva. E se ela tá com o Centauro. Me aproximo dele, tentando parecer o mais natural possível. — E aí, chefe. Tudo em ordem? — pergunto, encostando na cerca. Ele vira o rosto, os olhos ainda com aquele cansaço profundo. — O que foi, Lobo? — É... eu tava pensando aqui. O que aconteceu entre você e o tal Centauro? — falo, escolhendo as palavras com cuidado. — Olha, eu não entendo só de segurança, não. Entendo de estratégia também. Só quero ajudar, se for o caso. Ele me olha fixamente, e de novo, aquele olhar estranho, tentando me decifrar. Ele abre a boca, fecha, abre de novo. Nenhum som sai. É como se as palavras tivessem ficado presas na garganta dele, travadas pelo medo ou por algo pior. Ele se levanta de repente, sem dizer nada, e vai até o bar improvisado que ele tem na varanda. Pega uma garrafa de whisky, enche um copo até a borda e toma um gole longo, como se estivesse tentando afogar um fantasma. — Esse assunto não é pra você — a voz dele sai rouca, carregada da bebida e da emoção. Ele pausa, olhando pro fundo do copo. — Mas... Ele faz outra pausa, mais longa dessa vez. Dá pra ver os pensamentos correndo atrás dos olhos dele, uma batalha interna. Ele parece frustrado, irritado, ansioso. Um homem acuado. — Lobo — ele finalmente fala, olhando pra mim, a voz mais baixa, quase um segredo. — Eu preciso que você suma. Que vá embora do morro, do Rio, o mais rápido possível. De preferência hoje mesmo. Um suor frio percorre minha espinha toda. p***a. Ele descobriu. Descobriu quem eu sou. Sabe que eu tô atrás da Joana. Sabe do Miguel. Sabe da Soraia. O disfarce foi por água abaixo. É o fim. Instintivamente, meu olhar escapa pra janela do quarto da Soraia, num movimento rápido, quase imperceptível. Mas foi o suficiente. O Tito vê. A expressão dele muda na hora. A frustração vira uma coisa mais aguda, mais pessoal. Ele fecha a cara, os maxilares se contraindo. Ele passa a mão no cabelo curto, um gesto de pura irritação. — Por quê? — pergunto, tentando me recompor, mas a voz sai um pouco trêmula. — Por que eu tenho que ir embora? Ele não responde de imediato. Começa a andar de um lado pro outro no quintal, um leão enjaulado. Ele tá tomando coragem pra alguma coisa. Algo grande. — É um favor, Lobo — ele para na minha frente, o olhar intenso, quase suplicante. Um chefe não suplica. Mas ele tá. — Preciso que me faça esse favor. Eu te mando dinheiro. Muito. Eu faço o que você pedir. Mas eu preciso desse favor. Ele para, a respiração pesada. O ar entre a gente tá carregado, elétrico. O que será que ele vai pedir? Que eu mate alguém? Que eu mate o Centauro, para que o mesmo não o mate? — Me diz, qual o serviço chefe? — Pergunto com medo da resposta. Ele abre a boca pra falar, e o mundo parece diminuir o ritmo, esperando a sentença final. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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