Lobo
Desde que o Tito voltou todo fechado o ar tá estranho na casa, ele não foi agressivo, tá dormindo em outro quarto e m*l troca uma palavra com ninguém a não ser o Miguel.
Desde depois do almoço o Tito tá no quintal, reunido com uns três vapô. A voz dele é baixa, mas o tom é urgente, cortante. Eles estão planejando alguma coisa, se preparando pra um ataque ou se fechando pra uma defesa.
Não dá pra saber.
O clima é de guerra.
Jacaré entra na cozinha onde eu tô, com a desculpa de pegar um café. Ele enche a xícara e fica do meu lado, olhando pela janela pro grupo lá fora.
— Tá feia a coisa, hein, Lobo? — ele comenta, num tom mais baixo do que o normal.
— Tá sempre feio — respondo, tentando soar desinteressado, mas minha antena tá ligada no talo.
— É, mas dessa vez tá pior — ele suspira, tomando um gole. — O Centauro tá puto da vida. O Tito enganou ele numa parada grande, há um tempo. Agora o bicho tá atrás do sangue dele.
O coração dispara dentro do meu peito, mas eu mantenho a cara de paisagem.
"Enganou ele numa parada."
As peças começam a se encaixar na minha cabeça, formando uma imagem que me enche de um frio na espinha. Aquela conversa no baile, o "não mato criança". O Miguel. A tal mulher do Centauro que veio grávida de fora... que só pode ser a Joana.
Porra.
Tudo faz sentido.
O Tito não só sequestrou a Joana e o Miguel. Ele enganou o Centauro deixando o Miguel vivo. Roubou ele do chefão. Ele botou fogo no parque e agora o incêndio tá chegando aqui.
Mas por quê o Centauro queria meu filho morto? Droga, preciso de respostas.
Jacaré me olha de lado, sério.
— Quando o Centauro quer alguém, ele pega. E o Tito sabe que não tem como correr. Sabe que é questão de tempo.
Ele termina o café e sai, me deixando com a bomba na cabeça. O Centauro quer o Tito. E se ele quer o Tito, ele vai querer tudo que é do Tito. Incluindo a Soraia e o Miguel. Não posso deixar isso acontecer.
Depois que os vapô vão embora, o Tito fica no quintal sozinho, olhando pro nada. É a minha chance. Preciso de respostas. Preciso saber se a Joana tá viva. E se ela tá com o Centauro.
Me aproximo dele, tentando parecer o mais natural possível.
— E aí, chefe. Tudo em ordem? — pergunto, encostando na cerca.
Ele vira o rosto, os olhos ainda com aquele cansaço profundo.
— O que foi, Lobo?
— É... eu tava pensando aqui. O que aconteceu entre você e o tal Centauro? — falo, escolhendo as palavras com cuidado. — Olha, eu não entendo só de segurança, não. Entendo de estratégia também. Só quero ajudar, se for o caso.
Ele me olha fixamente, e de novo, aquele olhar estranho, tentando me decifrar. Ele abre a boca, fecha, abre de novo. Nenhum som sai. É como se as palavras tivessem ficado presas na garganta dele, travadas pelo medo ou por algo pior.
Ele se levanta de repente, sem dizer nada, e vai até o bar improvisado que ele tem na varanda. Pega uma garrafa de whisky, enche um copo até a borda e toma um gole longo, como se estivesse tentando afogar um fantasma.
— Esse assunto não é pra você — a voz dele sai rouca, carregada da bebida e da emoção. Ele pausa, olhando pro fundo do copo. — Mas...
Ele faz outra pausa, mais longa dessa vez. Dá pra ver os pensamentos correndo atrás dos olhos dele, uma batalha interna.
Ele parece frustrado, irritado, ansioso.
Um homem acuado.
— Lobo — ele finalmente fala, olhando pra mim, a voz mais baixa, quase um segredo. — Eu preciso que você suma. Que vá embora do morro, do Rio, o mais rápido possível. De preferência hoje mesmo.
Um suor frio percorre minha espinha toda. p***a. Ele descobriu. Descobriu quem eu sou. Sabe que eu tô atrás da Joana. Sabe do Miguel. Sabe da Soraia. O disfarce foi por água abaixo. É o fim. Instintivamente, meu olhar escapa pra janela do quarto da Soraia, num movimento rápido, quase imperceptível.
Mas foi o suficiente.
O Tito vê.
A expressão dele muda na hora.
A frustração vira uma coisa mais aguda, mais pessoal. Ele fecha a cara, os maxilares se contraindo. Ele passa a mão no cabelo curto, um gesto de pura irritação.
— Por quê? — pergunto, tentando me recompor, mas a voz sai um pouco trêmula. — Por que eu tenho que ir embora?
Ele não responde de imediato. Começa a andar de um lado pro outro no quintal, um leão enjaulado. Ele tá tomando coragem pra alguma coisa.
Algo grande.
— É um favor, Lobo — ele para na minha frente, o olhar intenso, quase suplicante. Um chefe não suplica. Mas ele tá. — Preciso que me faça esse favor. Eu te mando dinheiro. Muito. Eu faço o que você pedir. Mas eu preciso desse favor.
Ele para, a respiração pesada. O ar entre a gente tá carregado, elétrico. O que será que ele vai pedir? Que eu mate alguém? Que eu mate o Centauro, para que o mesmo não o mate?
— Me diz, qual o serviço chefe? — Pergunto com medo da resposta.
Ele abre a boca pra falar, e o mundo parece diminuir o ritmo, esperando a sentença final.
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