Soraia
A gente volta pra casa e o mundo parece ter virado de ponta-cabeça, mas por dentro, tudo tá a mesma merda. As mesmas paredes, o mesmo cheiro, a mesma sombra do Tito pairando sobre tudo. Só que agora tem um segredo gigante morando aqui dentro com a gente. Um segredo que mexe, que cresce, que um dia vai gritar que existe.
A revelação pro Lobo... foi um choque, mas um choque bom. Daqueles que te sacode, mas te deixa vivo. Ver aquele homem durão se ajoelhando, chorando, beijando minha barriga como se fosse a coisa mais sagrada do mundo... p***a, isso me deu uma volta por dentro que não tem explicação. É um alívio do c*****o saber que o bebê é dele.
É do homem que eu amo.
Não tenho mais dúvidas.
É nosso.
Mas o alívio dura uns dois segundos. Porque aí o pânico chega, avassalador, e senta em cima do peito com tudo. A gente tá na toca do leão. E o leão é o marido estéril que mente que é pai do moleque que não é dele, que ele sequestrou do Lobo e da Joana e que agora, sem saber, tá abrigando no ventre da mulher dele o filho do próprio segurança. Deu maior inimigo.
Como é que a gente esconde uma gravidez do Tito?
A pergunta não sai da minha cabeça.
É um loop. Eu olho no espelho e já me imagino com a barriga gigante, redonda, impossível de disfarçar.
Tito não é burro.
Ele é um animal selvagem, mas é esperto. Ele vai notar. É só uma questão de tempo.
O Lobo prometeu.
Disse que vai me tirar daqui.
Disse que vai proteger a gente. E eu acredito nele. Nos olhos dele, naquela determinação toda, eu acredito. Mas ele também tem outra missão, né? A Joana. A mulher dele de verdade. E agora, comigo grávida, o relógio contra a gente tá correndo muito, muito mais rápido.
Eu começo a planejar, num desespero quieto. Roupas largas. Vou ter que achar umas blusas largas, daquelas que escondem tudo. E quando não der mais? Inventar uma doença? Dizer que tô inchada por causa de um remédio? Tito não vai acreditar. Ele vai querer levar no médico dele, no médico dele, e aí o circo todo vai pegar fogo.
O Lobo tenta me acalmar.
Nos raros minutos que a gente consegue trocar um olhar longe dos outros, ele faz aquele sinal com a cabeça, um aceno quase imperceptível.
— Tá tudo bem.
Mas não tá.
Ele também tá com a corda no pescoço. Ele precisa encontrar a Joana, e rápido, antes que minha barriga cresça e estrague tudo. Antes que o Tito descubra e mate a gente todos.
A gente não fala muito.
Não podemos.
Mas os olhos falam.
Quando eu tô na sala e ele passa, nosso olhar se encontra e é uma conversa inteira.
— Tá enjoada? — os olhos dele perguntam.
— Tô, mas tô segurando. — os meus respondem. — Tem que encontrar ela logo. — meus olhos suplicam.
— Tô tentando, juro. — os dele prometem.
É um jogo perigoso.
Cada ida ao banheiro é uma missão.
Cada vez que o Tito me toca, eu fico dura, com medo que ele sinta alguma coisa diferente. Ele me abraça por trás às vezes, e eu seguro a respiração, rezando pra ele não perceber que meus s***s tão mais sensíveis, que meu corpo tá mudando, por mais mínimo que seja.
O Miguel... meu Deus, o Miguel. Ele me olha com aqueles olhinhos esperto. Será que ele sente? Será que ele percebe que tem alguma coisa diferente? Eu não posso contar pra ele. Ele é só uma criança. Ele já carrega um segredo pesado demais. Não posso botar outro nas costas dele.
A noite é a pior parte. Deitada na cama, do lado do Tito, eu fico imóvel, fingindo que tô dormindo. Minha mão vai até a barriga, e eu sinto... nada ainda.
É cedo demais.
Mas eu sei que tem algo lá.
Uma sementinha do Lobo, crescendo no esconderijo mais perigoso do mundo. E aí o pânico vem de novo, me sufoca. Se o Tito descobrir, ele não vai só me matar. Ele vai arrancar essa criança de dentro de mim com as próprias mãos. E vai matar o Lobo. E quem sabe o que ele faria com o Miguel.
O Lobo prometeu que a gente vai sair daqui. Mas quando? Como? A gente não tem um plano ainda. Só tem um desespero em comum e um bebê a caminho acelerando tudo.
A gravidez era pra ser uma alegria, né? Um negócio de comemorar, de fazer festa, de escolher nome. Aqui, é um segredo sujo, um peso que eu tenho que carregar escondido, uma bomba-relógio dentro do meu útero.
Eu olho pro teto, sentindo o ronco do Tito do meu lado, e sinto uma solidão tão grande que dói.
Só queria poder gritar.
Gritar que tô grávida, que é do homem que eu amo, que a gente vai ser uma família. Mas o meu grito tem que ficar preso aqui dentro, até engasgar.
O relógio tá correndo. Contra a gente. E cada tique-taque é um segundo a menos que a gente tem pra encontrar a Joana, pra dar um jeito de fugir, pra garantir que esse bebê vai nascer longe daqui, em segurança, nos braços do pai.
O peso do segredo é tão pesado que às vezes eu acho que vou afundar. Mas aí eu lembro do olho do Lobo, daquela luz que acendeu quando ele descobriu. E eu me seguro. Por ele. Por nós. Por essa família maluca e impossível que a gente tá tentando construir no meio do inferno.
ADICIONE NA BIBLIOTECA
COMENTE
VOTE NO BILHETE LUNAR
INSTA: @crisfer_autora