Kate não estava convencida de nada do que havia escutado. Parte dela sempre se culparia por ter os colocado naquela situação. E era essa parte que jamais a perdoaria. Porém, ainda havia muito trabalho a ser feito e ficar do lado de fora da agência chorando, com tantas pessoas vendo, não era uma boa ideia.
Aos poucos, ela foi limpando o rosto e respirando fundo.
— Escuta, eu preciso ir. O delegado está me esperando.
— Tudo bem, eu vou finalizar algumas coisas e vou depois.
Ela se levantou, e Andrew também, pegando na sua mão direita novamente.
— Por favor, me desculpe pelo que falei lá dentro. Não quis desmerecer seu trabalho ou parecer que essa não foi a melhor coisa que me aconteceu. E muito menos, fazer você se sentir desse jeito.
— Vai doer por muito tempo, Andrew, e não posso controlar o que vai ser de gatilho ou não. Por isso preciso aproveitar um tempo fora disso tudo, longe daqui, pra que eu possa recuperar alguma coisa de mim.
Andrew passou a mão no rosto dela, devagar, delicadamente. Kate fechou os olhos por um segundo.
— Eu quero estar com você em todos os momentos, nos bons e nos ruins. E farei tudo o que puder pra que seja feliz, mesmo que por poucos dias.
— Obrigada. Melhor você ir, o Bryan odeia esperar.
— É claro. Nos vemos amanhã.
Ele segurou a cabeça dela e deixou um beijo terno, em sua testa. Depois se afastou, andando até o carro do delegado.
Kate soltou um suspiro profundo, quase tirado de dentro da alma.
Havia muita coisa m*l resolvida dentro dela e que não fazia ideia de como mudar ou resolver. Mas até que soubesse a resposta para os seus problemas, a única coisa que lhe restava, era mergulhar no trabalho. E com tantos relatórios pra entregar e homens para interrogar, o que não faltava pra ela era o que fazer.
Andrew entrou no carro do delegado e permaneceu em silêncio. Bryan estava com a barba grande coçando para perguntar alguma coisa, mas não queria parecer intrometido. Porém, conforme foi se aproximando da casa de Kayla, a curiosidade chegou em seu topo.
— Como a Kate ficou?
— O quê?
Andrew estava absorto nos pensamentos, enquanto olhava pela janela. O delegado então repetiu.
— Depois da conversa, como ela ficou?
— Ah, sim. Ela não está tão bem quanto poderia, eu acho, mas Kate é forte, vai superar. Ela só precisa de umas férias.
Bryan tinha certeza que ela precisava, porém não estava tão certo de que Kate iria superar facilmente. Ela havia lidado com tudo muito bem nas últimas semanas, mas ele tinha certeza que o mundo real traria a ela de volta toda a dor, o medo, a angústia e a saudade, talvez em formas piores do que da primeira vez.
— Eu concordo. E somente por isso deixei você ir. Não pense que foi algum tipo de cortesia. O que aquela mulher passou, não é pra qualquer um.
Andrew cruzou os braços e assentiu, olhando novamente a paisagem.
— Tem razão. Mas ela sempre foi uma sobrevivente. Passará por mais essa.
— Eu espero. Agora que não está mais concentrada na missão, no desejo de justiça, ela vai desmoronar com a realidade se abatendo sobre ela. Aos poucos, devagar, ela vai perceber que perdeu tudo o que tinha de mais importante na vida. A única coisa, talvez, e isso pode matá-la.
Andrew olhou para Bryan, que estava com uma cara de preocupação evidente, o que acendeu um alerta no ex-mafioso.
— Acha que ela seria capaz de se matar?
— Não sei dizer. Mas pessoas com dor costumam não pensar muito. Isso quando não pensam até demais.
Andrew ficou perdido, sem saber pra onde olhar ou o que fazer.
Como ele conseguiria dormir sabendo que Kate poderia tentar alguma coisa contra a própria vida? Ela ainda estava com um trauma profundo enraizado dentro dela e, como não tinha tido tempo suficiente para aproveitar do luto, talvez todos os sentimentos reprimidos viessem à tona com ainda mais força.
— O que pretende fazer, delegado?
— Sinceramente, Andrew, não há muito. Vou pedir pra que Jude a vigie, mas você ficará com ela vários dias, então será sua responsabilidade cuidar dela. Eu sei que é muita pressão, mas se gosta mesmo dela, vai saber o que fazer.
— E se eu não souber? Se alguma coisa acontecer? Eu jamais me perdoaria.
Bryan parou o carro na frente da casa de Kayla e respirou fundo. Nem mesmo ele tinha ideia do que deveria fazer naquele momento, mas não podia deixar que Andrew ficasse em pânico ou mais assustado. Kate era esperta, saberia que algo não estava muito certo.
— Vou mandar alguém vigiar vocês de perto, sem que ela saiba. Alguém muito bom, é claro. Mas ouça Andrew, não deve pensar que as ações de Kate serão culpa sua. Você fez tudo o que pode pra trazer justiça pra ela. O que peço agora, é que a distraia, faça ela sorrir e esquecer da dor, nem que seja por alguns instantes. Faça ela lembrar que ainda precisa viver, porque apesar de tudo, ela ainda está viva e não pode desperdiçar a chance que nem todo mundo têm.
— Obrigado delegado. Eu sei que a Kate é muito importante pra agência e...
— Não apenas isso, meu rapaz. Ela é importante pra mim e também pra toda aquela agência. Tenho aquela garota como uma filha que nunca tive.
O tom sério de Bryan indicava a Andrew que o homem não estava brincando ou dando uma de bom chefe. Ele realmente devia considerá-la bastante, e confiar que ela faria o que era necessário para concluir o caso.
Aquilo era uma coisa que ainda o perturbava, mas nada que algumas conversas não pudessem resolver.
O problema maior para Andrew, era se ele conseguiria manter aquele segredo tão bem guardado sem destruir Kate ou a si mesmo. Porém, ele não tinha muitas opções. Se manter firme era fundamental para que as coisas saíssem minimamente bem.
— Eu dedicarei cada segundo da minha vida a fazer Kate feliz, isso o senhor pode ter certeza.
— Ótimo, agora vá. Preciso descansar, amanhã temos mais algumas perguntas pra você.
Andrew apertou a mão do delegado e desceu do veículo. Ele respirou fundo, e a porta se abriu.
— Meu menino.
— Oi, mama.
Ele andou na direção de Kayla e a abraçou, ainda na porta.
Bryan ficou observando, torcendo para que Andrew fosse a pessoa certa que tornaria os dias da vida de Kate mais divertidos e leves. Ela, mais do que qualquer pessoa que ele conhecia, merecia ter um pouco de paz e felicidade.
Andrew entrou na casa de Kayla, e foi recebido com mais um abraço, dessa vez o da mulher com quem quase se casou.
— Andy, como você está?
— Ah, eu estou bem. Agora estou bem.
— Pedimos pizza pra você. Senta aí e nos conta como foi.
Andrew pegou uma fatia da pizza e sentou no sofá, porém ele não conseguiu comer. Sua mente ainda estava projetando sobre os últimos acontecimentos e, principalmente, sobre como estava se sentindo em relação a Kate.
— Vocês estão sozinhas?
— A Anna está no quarto de hóspedes. Ela disse que ficaria em reunião via internet, resolvendo alguns assuntos com o chefe, já que vai precisar ficar mais uns dias aqui.
Respondeu Kayla, pegando a xícara de chá.
Karen sentou em uma poltrona ao lado do sofá, com um copo de leite na mão.
— Ótimo, eu preciso dizer uma coisa. Vocês sabem o que Ralph fez... O que eu permiti que ele fizesse.
— Meu menino, não tinha como saber. Eu sei que não lhe dei apoio na época, mas...
— Mama, escuta. Eu podia ter feito mais, eu sei disso. O Ralph sempre foi temperamental, impulsivo, irracional, eu nunca devia ter pedido a ajuda dele. Mas o que eu quero dizer, é que eu menti pra Kate. Ela atirou nele assim que ele confessou que estava dirigindo o carro, e ela perguntou se eu sabia, eu disse que não.
Karen deixou o copo na mesinha de centro e se levantou, indignada.
— Merda, Andy! Por que não contou a verdade?
— Não podia, Karen! Ela me odiaria e nunca mais iria querer nada comigo. O Ralph está morto. As únicas que sabem do que aconteceu são vocês e eu peço, em nome de todo o amor que tem por mim, que não digam, nunca, absolutamente nada sobre isso a ninguém, principalmente a Kate.
— Está pedindo pra que a gente mantenha seu segredo sujo conosco?
Indagou Karen, cruzando os braços, com a testa encolhida.
— Eu sei que não tenho esse direito, mas eu a amo e não posso perdê-la. Por favor, me prometam que jamais vão dizer alguma coisa.
— Se quiséssemos fazer isso, Andrew, teríamos feito há muito tempo. Mas vou lhe contar uma coisa, não acho certo estar mentindo pra ela. Você mais do que ninguém sabe, pode esconder a verdade na mais profunda escuridão, uma hora, ela encontrará a luz.
Discursou Kayla, se levantando e indo pra cozinha.
Karen bufou e voltou a se sentar.
Não tinha planos de contar nada pra ninguém. Na verdade, ela até tinha esquecido, por um instante, o que havia acontecido naquele dia. Mas seria difícil voltar a olhar para Kate sabendo da verdade e vendo que Andrew não tinha coragem e nem pretensão de revelar a ela os fatos verdadeiros. Acima de qualquer outro, ela merecia saber o que realmente havia acontecido no dia em que perdeu tudo.
Andrew não sabia se poderia conviver com aquele segredo o atormentando, mas ele precisava tentar, pelo amor que sentia por ela.
— Karen, eu sei que não gosta de mentiras, mas eu estou apaixonado de verdade e...
— Oh, Andy, me desculpe, mas você não a ama.
— Como pode dizer isso? Depois de tudo?
Indagou, incrédulo.
— Exatamente. Se a amasse, jamais mentiria pra ela.
— Estou protegendo ela!
Esbravejou, tentando convencer a si mesmo de sua própria fala.
— Não Andrew, você está si protegendo. Sabe que no minuto em que ela souber que você queria separá-la do Lucas e chamou o braço direito do seu pai para te ajudar, e que além de estar no carro, você ainda negou saber de qualquer coisa, ela ficará com muita raiva de você.
Andrew tinha enxergado uma raiva potente nos olhos de Kate, enquanto estava no hospital, falando sobre o ocorrido. Ele lembrava de ver em seu rosto, o mais tenebroso ódio, atrelado a algum tipo de arrependimento. Na época, ele não poderia entender porque ela se sentiria tão culpada, mas depois da revelação, estava claro, que como agente, ela não suportava a ideia de não ter conseguido protegê-los.
Ele respirou fundo e cruzou os braços. Tinha cometido erros, mas não era o único.
— Provavelmente está certa, mas ela também mentiu. Nos enganou todo esse tempo. Eu posso esquecer isso, mas não aceito ser condenado como o único culpado.
Karen balançou a cabeça e deu um meio sorriso, como se não acreditasse no que tinha escutado.
Ele estava certo, Kate havia mentido, mas se não fosse por ela, ambos estariam vivendo o inferno na terra e, independente disso, ela merecia a verdade. Todos merecem.
— A diferença, Andrew, é que ela fez tudo isso pra salvar as pessoas. Quantas mulheres Bernardo mantinha naquele cativeiro? 100? 200? Quantas outras foram libertadas conforme os locais de esconderijo eram revelados? E nós, Andrew? O que seria de nós, sem a Kate? Provavelmente casados, infelizes e atormentados pelo resto da vida, até que um de nós fugisse ou se matasse. Ela estava fazendo o trabalho dela, ajudando e protegendo as pessoas. E com isso, ela salvou nossas vidas da mais profunda escuridão.
Andrew se levantou, passou a mão no cabelo e respirou fundo. Não tinha escolha. Se fizesse aquilo, tudo o que construíram iria por água abaixo. E ele não pretendia perder o amor da sua vida por ter cometido alguns erros. Não quando acreditava que poderia fazê-la feliz.
Ele se virou para Karen e a encarou, tentando não falar muito alto pra que Anna escutasse. Pessoas demais já sabiam daquele segredo.
— O que você queria que eu fizesse, Karen? Que contasse a verdade? O que isso iria mudar? Não posso trazê-los de volta! Nada do que eu fizer, vai mudar o que aconteceu. Então por que não tentar fazê-la feliz? Dar a ela o que merece?
— Faça o que quiser, Andrew, mas quando as consequências baterem a sua porta, não haja como se não soubesse da existência delas.
Karen se levantou e saiu da sala.
Andrew soltou um suspiro longo e sentou no sofá. Karen não diria nada, não precisava ficar preocupado com isso, mas se questionava se era capaz de manter aquele segredo sem que acabasse consumido pela dor e o arrependimento. Talvez, com sorte, ele viveria bem mesmo com aquelas questões o perturbando.
— Está tudo bem aqui?
Anna apareceu, olhando para Andrew. Ele estava de cabeça baixa, resgumando e tentando manter a coisa do arrependimento fora da mente.
— Ah, oi agente. Está sim.
Ele ergueu a cabeça e olhou pra ela, forçando um sorriso.
— A Karen passou por mim quase cuspindo fogo.
— Estávamos apenas conversando sobre algumas pendências, nada demais. E então, como foi com seu chefe?
Ele cruzou os braços, tentando arrastar a conversa pra outro rumo.
— Ele não gostou de ter sua melhor agente fora tanto tempo, mas o Bryan foi muito convincente no e-mail que mandou pra ele. Além de ter alguns conhecidos por lá.
Andrew deu um sorrisinho de lado, arqueando as sobrancelhas.
— Melhor agente? Quanta prepotência.
— Auto confiança, eu prefiro.
Respondeu, dando de ombros.
Andrew levantou e a encarou por breves segundos. Apesar da notável diferença, Anna e Kate eram semelhantes em alguns aspectos. Ambas excelentes agentes, confiantes, corajosas e belíssimas.
— E o que faz de melhor no seu trabalho, agente? Mente pras pessoas? Engana elas como se pudesse fazer disso a sua vida? Ou só seduz alguém?
Anna semicerrou os olhos e então começou a entender o que estava acontecendo e, provavelmente, o motivo da irritação de Karen.
— Eu entendo sua frustração, mas precisa superar isso. O nosso trabalho mantém pessoas como o seu pai fora das ruas e pessoas como você e Karen seguras. Vítimas de um homem inescrupuloso e controlador.
Andrew sabia que ela estava certa e não tinha o direito de jogar nela uma responsabilidade que não tinha. Ele abaixou o olhar e lamentou.
— Não é justo, o que estou fazendo. Me desculpe.
— Você está escondendo alguma coisa da Kate, não é? Sua tensão não é apenas por causa de uma discussão com a Karen, além de estar com sinais de arrependimento e vergonha.
Anna tinha dado uma boa olhada em Andrew e quase podia sentir a atmosfera que o medo trazia consigo. Claramente Andrew não estava contando absolutamente tudo que devia e, àquela altura, ele só podia estar mentindo pra uma pessoa. A única que o deixaria tão tenso e na defensiva.
Ele ergueu os olhos pra ela, com uma onda de culpa o invadindo e um medo irracional o fazendo tremer.
— Por que eu faria isso? E quem disse que estou escondendo algo?
— Medo de perdê-la. É completamente normal que isso aconteça. Olha, é comum que as pessoas fiquem com raiva do fato da agente Williams ter mentido e tudo mais, porém uma pessoa sensata, entende que isso foi necessário. O seu pai tinha um p**a esquema que nem mesmo com uma escuta foram capazes de identificar seus crimes.
— Eu sei, mas...
— Além disso, olha o que ela passou pra fazer isso acontecer. Ela perdeu a única família que tinha. O noivo e o padrinho, depois de ter sido abandonada duas vezes na infância. E como se não bastasse, ela foi espancada, torturada e violentada por um "teste", que na verdade foi mais uma tentativa de assassinato, tudo para se manter na p***a da missão. Me desculpe Andrew, mas se todo o esforço, a perca que ela teve e os sacrifícios que precisou fazer, não forem suficientes pra suprir sua raiva por ela ter mentido, claramente há algo de errado com você.
Mais uma vez, ele teve que ouvir verdades das quais não gostava.
Andrew estava sentindo que precisava fazer algumas mudanças em sua vida, se quisesse mesmo dar continuidade a ela ao lado de Kate.
Anna começou a caminhar em direção a porta. Ao colocar a mão na maçaneta, ela parou e olhou pra ele, que não tinha saído do lugar, com a mente fervilhando.
— Ah, uma última coisa. Seja o que for que esteja escondendo, é melhor contar. Não importa o quanto ache que um segredo está seguro, a verdade sempre aparece.
— E se eu for o único a saber?
— Quase nunca é. Mas mesmo que seja, não adianta. Já vi segredos serem, literalmente, desenterrados. Se eu fosse você, não passaria nem mais um minuto escondendo nada.
Ela saiu, e ele ficou paralisado. Andrew não conseguia parar de pensar no que poderia acontecer. Na possibilidade de Kate descobrir de diversas formas. E ele estava convicto de que nenhuma poderia existir.
Karen e Kayla não iriam traí-lo. Ele não conseguia considerar a hipótese disso acontecer. Então, o que poderia dar errado?