Andrew saiu correndo, pois Lucas já estava no elevador com Jude ao seu lado e Kate em seus braços.
Ele ainda precisou esperar o elevador retornar, na torcida para alcançá-los no saguão a tempo. Suas pernas não paravam de balançar enquanto ele via os números subindo. Começou a passar a mão pelo rosto frequentemente, buscando alguma ideia sobre o que faria quando Kate acordasse.
Lucas e Jude passaram rapidamente pela entrada do prédio, quando ouviram um grito de espera. Somente a agente do FBI se virou pra trás.
— O que está fazendo, Andrew?
Ela o afastou com a mão, enquanto Lucas chegava ao carro parado em frente ao prédio. Jude havia ordenado que um veículo estivesse esperando os dois na entrada do prédio assim que chegassem, pois era uma emergência.
— Quero acompanhar vocês.
— É melhor ficar. A Kate não quer te ver. E nem o Lucas é obrigado a suportar sua presença depois do que fez.
— Jude, temos que ir.
Lucas gritou, enquanto o homem que havia trazido o carro abria a porta traseira. Lucas entrou com Kate em seu colo, tomando o máximo de cuidado possível.
— Fica aqui ou vai pra sua mãe. Mas não aparece atrás da gente. Ou lhe dou voz de prisão por desacato.
— Tecnicamente, já estou preso.
— Tenho certeza que não deseja voltar pra cela suja e imunda pra ver como é estar realmente preso, senhor Cardenas. Agora eu preciso ir.
Jude correu até o carro e entrou pela porta do carona, mandando o homem ir o mais rápido que pudesse.
Andrew pôs as mãos na cintura e balançou a cabeça, inconformado. Ele sentou na calçada do prédio, sem saber o que fazer. Não queria confrontar Jude, sabendo que ela não brincava em serviço. Mas não podia ficar sem notícias de Kate. Foi então que ele resolveu seguir a sugestão de Jude.
Levantou e pegou um táxi até a casa de Kayla.
Kayla e Anna estavam conversando animadas, quando Andrew entrou eufórico.
— Cadê a Karen?
— Oi, voltou cedo. Tá tudo bem?
Kayla perguntou, notando-o afoito.
Ele balançou a cabeça em negação, cruzando os braços.
— Não, não está nada bem. Cadê a Karen?
— Está no quarto. Ela está conversando com uns colegas, pensando em voltar a atuar na área de psicologia. As vezes eu até esqueço que ela fez faculdade.
Kayla deu uma pequena risada, olhando para a jovem Anna. Tudo sempre fora tão focado em Bernardo e sobre o que ele queria e o que a Máfia precisava, que a própria identidade dos indivíduos parecia se perder dentro daquela organização. Era impressionante o tipo de lavagem celebral que faziam neles.
Impaciente, Andrew gritou o nome de Karen e foi andando em direção ao quarto dela, mas Kayla se levantou.
— Ei, a deixe em paz. Karen precisa de tempo pra tomar essa decisão e...
— Desculpe, mas é muito importante.
Andrew bateu na porta de Karen, que tirou os fones de ouvido ao escutar uma batida forte em sua porta.
Ela se levantou, pedindo licença aos colegas que estavam conversando em uma chamada de vídeo, e foi até a porta.
— Andrew? O que você quer?
— Preciso que me faça um favor enorme.
— Que tipo de favor?
Kayla parou atrás de Andrew, indignada por ele ter interrompido Karen daquela forma e passado por cima da sua autoridade. Alguma coisa de muito grave devia estar acontecendo para justificar tal comportamento, ainda que ela não achasse totalmente aceitável independente dos motivos que ele tivesse.
— Eu sugiro que você remarque com seus amigos, pois a conversa não vai ser fácil e muito menos rápida.
Karen deu um pequeno sorriso e encostou o corpo no batente da porta, cruzando os braços.
— Andrew, não posso atender seus caprichos quando você quer. Sabe que a vida não gira em torno de você, não é?
— O Lucas está vivo.
Aquela frase provocou um arrepio por todo o torso de Karen, que endireitou o corpo, chegando a rigidez extrema.
Ela olhou pra ele e cobriu a boca com a mão, inicialmente sem saber o que fazer ou como reagir. Apenas o choque e a surpresa lhe dominavam.
— Mas... O quê? Como? Mas como isso é possível?
— Eu também não entendi ainda, mas o vi com meus próprios olhos e, o pior, é que ele me reconheceu. Me acusou na delegacia e a coisa toda foi horrível. Agora a Kate está indo pro hospital depois de discutimos e ela passar m*l.
— Meu Deus, coitada da Kate. Não tem um minuto de sossego.
— É, tem razão. E a Jude não deixou eu acompanhar eles até o hospital, nem sei pra qual foram.
— Não devia ter esperado outra coisa da agente. A amiga dela está abalada por sua causa, sofreu por sua causa e ainda vai sofrer muito ao remoer essa história. Sinceramente, não sei como a Kate não enfiou uma bala no meio da sua testa.
Anna comentou, surgindo com as mãos na cintura, no meio do corredor que dava acesso aos quartos.
Ela estava conversando com Kayla na sala, que a deixou sozinha para tentar impedir Andrew de atrapalhar sua filha. Foi então que em poucos passos, ela foi se aproximando e ouviu a conversa de Andrew com Karen. Havia raiva em sua voz, ao ter conhecimento do segredo que ele guardava. Mas também tinha pena e angústia, tanto por Kate quanto por Andrew.
Andrew queria sentir raiva das falas dela, da intromissão e do excelente faro pras mentiras, mas a verdade é que ela nem sabia de nada e ao mesmo tempo sabia tudo. Certamente ele não pretendia tentar esconder um segredo daquela mulher.
— Você estava certa. Sobre tudo. E também está sobre a Kate. Ela apontou a arma pra mim. Com muita raiva, obviamente, mas acho que o estresse e a angústia me deixaram vivo, porque ela passou m*l antes de puxar o gatilho.
— Ela não ia te matar, Andy. Só estava com muita raiva.
Tentou amenizar Karen, incerta sobre sua fala. Acreditava que Kate não seria capaz de tal crime, mesmo sob tanto estresse e raiva. Mas ela não a conhecia tão bem, não podia afirmar nada. No entanto, em seu lugar, duvidava muito que Andrew saísse inteiro daquela história.
— Você sabe o que ela fez com o Ralph. Acha mesmo que se pudesse não faria o mesmo comigo, Karen?
Anna resolveu interpelar novamente e deu alguns poucos passos a frente.
— Eu conheço a Kate há anos. Não acho que ela faria, mas não porque você não merece. E sim porque muitas pessoas dependem dela. Gente que nem sabe ainda, vai ter a ajuda dela um dia. A sua sorte, senhor Cardenas, é que Kate Williams é boa demais pra esse mundo. E ainda tem bastante coisa a oferecer. Além disso, se ela apontou a arma e não atirou, é porque não vale a pena. Pra sua sorte. No lugar dela não tinha deixado você dizer nem uma palavra em sua defesa.
A raiva de Anna foi ficando mais clara a cada frase que ela concluía. Sempre que lembrava o quanto Kate havia sofrido em sua vida e, mesmo com tantos traumas, ela buscou forças e decidiu ajudar as pessoas, servi-las, de certo modo. E aquela era a retribuição que ganhava. Naquele instante, começou a ficar mais difícil permanecer ali.
— Obrigado pela sua sinceridade.
Agradeceu Andrew, sendo totalmente sincero em suas palavras.
Ninguém disse mais nada. Não tinha o que ser dito. O silêncio parecia a coisa mais confortável a se agarrar.
Até por isso, Anna saiu do corredor no mais absoluto silêncio, sem nem mesmo anunciar. Ela precisava ficar longe de Andrew naquele momento.
— Karen... Liga pra Jude, preciso ter notícias dela, por favor.
Pediu Andrew, quebrando o silêncio alguns minutos depois.
Com o corpo encostado na parede e os braços cruzados, ele estava tentando não ficar louco com a falta de informações.
Karen respirou fundo e pegou o telefone. Esperava que Jude pudesse lhe dar alguma resposta e não resolvesse lhe castigar por compactuar com aquele segredo sórdido.
Ela mordeu o lábio inferior, enquanto aguardava. Jude demorou um pouco pra atender.
— Alô?
— Oi, tudo bem?
As coisas entre elas estavam estranhas depois do fim da missão, mas ela não queria pensar muito nisso.
— Oi Karen. Imagino que o Andrew já tenha lhe contado.
— Sim, ele me falou. Como ela está?
— Vai ficar bem. Foi apenas uma crise por conta do estresse. Você pode imaginar o que é passar por aquela dor toda de novo.
— Sim, é claro. Eu estarei aqui, se precisar. Pode ligar a qualquer hora.
— Me responde uma pergunta com sinceridade. Você sabia?
Karen olhou para Andrew, como quem não poderia imaginar onde tinha se metido. Era óbvio que Kate também ficaria chateada ao descobrir sobre ela e a mãe, mas Andrew era o responsável, ele tinha que contar e elas não podiam se intrometer. Ou podiam?
— Sabia do que?
Indagou, se fazendo de desentendida. Não queria ter de responder aquela pergunta. Preferia que Jude esquecesse completamente a questão.
— Do que o Andrew fez. Vocês são bem próximos, quase irmãos. Imagino que ele tenha te contado.
— Olha...
— Por favor, não minta pra mim. Sabia ou não?
Ela respirou fundo, fechou os olhos por um segundo e encostou a cabeça no batente da porta, se arrependendo da resposta que daria.
— Sim, eu sabia. Ele me contou assim que aconteceu. Estava angustiado e...
— Tenha um bom dia, Karen.
Ela desligou, sem deixar que Karen se explicasse. Não que houvesse muita coisa a dizer.
— Ah, merda.
— E então?
Ele deu alguns passos em direção a Karen, ansioso.
— Ela está bem, foi apenas uma crise por conta do estresse todo. E provavelmente vai piorar, quando ela descobrir que mamãe e eu também sabíamos.
Andrew soltou um suspiro de alívio, ao mesmo tempo que entendia que as coisas ficariam cada vez mais complicadas a partir daquele momento. E não apenas pra ele, tinha certeza disso. Só não podia imaginar o caos em que sua vida se tornaria.
— É, a coisa está bem feia. Mas não posso me dar ao luxo de ser a vítima. Mesmo que eu tenha feito o que pude pra evitar as atitudes do Ralph, no fundo eu sabia que ele poderia chegar ao extremo por mim. Ao envolver ele na ideia, eu aceitei esse risco.
— Mas ela também aceitou o risco de que deixar eles participarem da missão poderia complicar a vida deles, pra dizer o mínimo. Não é culpa dela, mas tenho certeza que todos sabiam o que poderia acontecer.
De forma alguma queria jogar a responsabilidade para Kate e tirar a de Andrew. Aquela ideia havia sido insana, uma medida descontrolada e que demonstrava apenas uma falha no caráter de Andrew, envolver Ralph, braço direito do seu pai, o homem que lhe deu afeto, mas que também ensinou a estripar, matar e esconder corpos. Não dava pra esperar uma ajuda limpa e organizada vinda de uma pessoa como ele. No entanto, riscos existiam a partir do momento em que Kate se tornou uma policial e decidiu introduzi-los na sua vida profissional, sem que tivesse uma proteção adequada.
— É, mas não desse jeito, Karen. Não desse jeito.