Enquanto Andrew e Lucas mantinham uma briga sem sentido, com ofensas exageradas e com os nervos à flor da pele, prestes a atingir um nível físico, Kate não conseguia respirar, ao mesmo tempo que uma raiva desproporcional tomava conta dela.
Jude tentava acalmar os ânimos entre os dois homens, mas ela começou a notar que Kate não estava nada bem. Ela se aproximou da colega, mas era tarde demais.
A agente estava sendo bombardeada por lembranças. Da primeira vez que foi salva pelo padrinho. De quando conseguiram tomar um bom prato de sopa graças a um evento de caridade de uma ONG. De quando Nick conseguiu um trabalho, após ter tido a ajuda de alguns bons homens que o alimentaram, o ajudaram com as questões de higiene e buscaram por uma oportunidade para ele. A felicidade daquele homem, que viveu tanto tempo nas ruas, era a coisa mais genuína que ela viu em alguém durante toda sua vida. A forma como ele a protegia. Como estava com ela em momentos difíceis, em investigações perigosas. Como cuidava dela, mesmo ela dizendo que não precisava.
Tudo aquilo que ela estava reprimindo fazia semanas, surgiu e a nocateou com um golpe poderoso na sua cabeça e uma punhalada em seu coração.
Além de todas aquelas coisas que foram tiradas dela, ainda tinha seu noivo. O homem da sua vida, com quem ela planejava casar. Alguém que sabia irritá-la e agradá-la ao mesmo tempo. Um homem que cuidava dela mesmo com toda sua independência. Ele a aceitava como ela era. Com os defeitos, os problemas do passado e do futuro. Com sua ambição no trabalho e sua árdua sede de justiça, o que não era um problema, mas muitas vezes a colocava em perigo. E quando isso pôs a vida dele em risco, ele aceitou as ameaças existentes, sabendo da importância que seria pra ela e, no final, para os dois.
Todas aquelas coisas e muito mais. Era tudo que Andrew havia tirado dela. O futuro de um homem maravilhoso, gentil e verdadeiro. O presente com o amor da sua vida. A chance de ter sua família ao seu lado, de uma única vez, Andrew Cardenas matou.
Em um ato movido pela dor, Kate levantou e puxou a arma que estava na parte de trás da sua cintura, apontando diretamente para Andrew.
— Ei, calma!
Pediu Bryan, levantando as mãos.
Lucas deu um passo pra trás, sem reação.
Jude também recuou, ficando ao lado do delegado.
Andrew apenas a encarou, sem dizer absolutamente nada. Não estava em choque ou com medo. Em seu olhar só tinha culpa, arrependimento e dor. E se aquele fosse o seu fim, era mais do que merecido, depois de tudo que fez.
— Kate, não faz isso, por mais que ele tenha destruído nossas vidas, não vale a pena matá-lo. Isso não vai trazer o Nick de volta.
Ela olhou pra ele, enfurecida, com tanta raiva que Lucas m*l pode reconhecer ali a mulher por quem tinha se apaixonado. Ainda que, no fundo, ele sempre tivesse consciência daquele potencial explosivo da noiva.
— É o que ele merece, Lucas. O que todos os Cardenas merecem, é a morte.
— Eu entendo seu sofrimento, mas...
Kate deu um sorriso irônico, cheio de angústia e amargura.
— Não, querido. Você não entende. Ninguém jamais vai entender. Eu não devia, nunca, em hipótese alguma, ter deixado vocês participar do meu trabalho. Mas nunca passou pela minha cabeça... Que ele poderia mandar matar vocês.
Andrew balançou a cabeça, sabendo que precisava deixar tudo as claras. Principalmente se Kate pretendia acabar com ele ali mesmo.
— Não foi isso o que aconteceu.
— Não? Então me diga, Andrew! Que p***a eu fiz pra perder minha única família? O que eles fizeram pra ter uma morte tão precoce?
— Eu estava obcecado. Apaixonado por você e precisava te ter. Depois daquele primeiro beijo eu tive certeza que precisava ficar com você. O Ralph mandou uma mulher, pra seduzir o Lucas. Mas o senhor perfeito não quis, recusou a mulher e foi então que ela contou sobre o que você fez para me salvar naquela boate. Mas Lucas não quis nada com ela do mesmo jeito.
Lucas lembrava daquela mulher. A conversa nunca tinha sido muito clara em sua mente, mas havia flashs dela passando por sua cabeça. A tentativa de sedução e a conversa sobre Kate fazer um boquete em um desconhecido. Essa era uma das poucas memórias aleatórias que ele tinha.
— Eu devia ter imaginado que era uma armadilha. Talvez se eu tivesse fingido que havia caído...
— Não, Lucas. Não se torture. Só eu poderia ter evitado isso. Eu e esse i****a do c*****o.
Kate segurou a arma com mais firmeza, depois de imaginar como deve ter sido difícil para o noivo ser testado daquela forma e descobrir daquele jeito, o que ela teve de fazer. Ela se lembrava bem que ele não queria saber, então ela não tinha contado. Mas ninguém devia ter dito nada. Só ela tinha esse direito.
— Eu posso terminar?
— Se vão ser essas suas últimas palavras.
Disse Kate, ao destravar a arma.
Bryan e Jude se olharam, ambos preocupados com o que precisariam fazer para impedir que um banho de sangue acontecesse. No fundo, os dois torciam para Kate recuperar o bom senso e não atirar. Seria catástrofico se algum deles tivesse de apontar a arma pra melhor agente do departamento.
O gesto não deixou Andrew assustado, m*l o fez se mexer, na verdade. Ele não poderia imaginar morte mais justa do que pela mulher que ele mais fez sofrer na terra.
— Então que seja. Acontece Kate, que Ralph teve a ideia de seguir o Lucas e provocar um pequeno acidente. Nada demais. Apenas pra te afastar dele e fazê-la se apaixonar por mim. Eu não sabia que o Nick estaria no carro. Assim que eu cheguei, eles tinham acabado de sair. Então vi o Ralph lá e nós começamos a segui-los. De repente, o Ralph queria jogá-los pra fora do penhasco. Eu disse que não, que a ideia era muito arriscada. Mas ele disse que eu não devia ter pedido do jeito que fiz, e nem deveria ter pedido a ajuda dele se não quisesse uma abordagem mais agressiva.
Kate ainda não conseguia entender, como Andrew havia ido pra cama com ela, enquanto guardava aquele segredo. Se é que ela devia confiar na palavra dele, afinal, Ralph estava morto. Ela tinha atirado nele vezes o suficiente para garantir que não voltaria dos mortos nem mesmo em uma próxima reencarnação.
— Por que não me contou isso antes? Você viu meu sofrimento, toda minha dor...
— Eu queria, mas não podia. Jamais ia ter você se fizesse isso. Olha, eu queria que as coisas fossem diferentes, se você não tivesse nessa missão justamente pra entrar na minha família, pra me seduzir e...
— A culpa é minha, então. Obrigada, Andrew. Isso tornou as coisas mais fáceis para mim.
Kate botou o dedo no gatilho, pronta pra atirar.
Bryan abaixou a mão e, lentamente, foi buscando destravar seu coldre, com o intuito de pegar sua arma. Jude ainda não tinha se mexido. Não por medo, mas angustiada com a imagem do sofrimento que Kate enfrentaria a seguir, independente da escolha que fizesse.
– Não! Não é isso. É que... eu não sou do tipo de homem que corre atrás de mulher. Geralmente elas me querem tanto quanto eu as quero, entende? Não devia ter sido dessa forma, mas foi. E eu te peço desculpas por ter sido tão negligente e ter mentido pra você. Não importa o que queira fazer, eu te amo.
Kate deu uma gargalhada alta, como se não pudesse acreditar no que tinha escutado. Quando ela parou, o ódio começou a escorrer pelo seu rosto através das lágrimas.
— Você me destruiu, Andrew. Eu sei que tenho minha parcela de culpa por ter envolvido minha família nisso. Eu aceito essa culpa e vou carregá-la pelo resto... da minha vida. Mas o que vocês... fizeram... nunca terá perdão.
— Eu não tenho nada mais que possa dizer. Não existe palavras, eu acho, que possa expressar meu arrependimento.
— Sinceramente, se... o Lucas não tivesse... voltado, você jamais teria me...
— Kate!
Jude gritou, ignorando completamente o medo e pegando a arma da mão da colega, que deu um passo pra trás e sentou novamente na cadeira.
A agente não conseguia respirar. As lágrimas desciam frenéticas e seu peito arfava. Suas mãos começaram a tremer muito e ela m*l sustentou o peso da arma.
Bryan relaxou, agradecendo por não precisar puxar sua arma ali e tomar nenhuma medida extrema. Claro que ele não pretendia matá-la, mas alguma coisa teria que ser feita para impedir um desastre na vida de Kate.
Andrew apenas fechou os olhos e respirou fundo, aliviado por não ter mais uma arma na mira da sua cabeça, mas logo em seguida iniciou a preocupação por Kate, que não parecia estar nada bem. Sua fala começou a sair entre cortada como se ela não conseguisse falar e respirar ao mesmo tempo.
Lucas deu alguns passos e se agachou ao lado dela.
— Kate, eu estou aqui.
— Não... eu perdi... perdi tudo.
Ela arfava, enquanto suava e chorava e soluçava. Tudo parecia confuso, doloroso e angustiante demais pra jovem Kate. Mesmo sentada na cadeira, suas pernas permaneciam frágeis e cada segundo parecia mais difícil respirar.
Lucas segurou sua mão e quase a soltou de imediato, pois estava muito mais quente do que o normal.
— Jude, ela está febril.
A agente do FBI encostou a mão no pescoço de Kate, constatando em poucos segundos que sua temperatura estava muito elevada.
— Melhor levarmos ela ao médico. Ela não está falando direito e respira muito m*l.
— Eu vou levar ela até o carro.
Andrew se pronunciou, dando alguns passos a frente.
Naquele momento, Kate estava recostada, fraca, parecendo uma criança completamente indefesa. Mas assim que Andrew se aproximou pra pegá-la, ela ergueu o corpo e pegou a arma de novo na mão de Jude.
— Se encostar em mim... eu meto uma bala... na sua cabeça.
Ela conseguiu dizer apenas isso, antes de se encostar de novo e desmaiar.
O desespero se abateu sobre Andrew, mas ele precisava respeitar a vontade dela. Sabia que, naquele momento, pouco importava se estavam ou não casados, Kate queria vê-lo bem longe dela, de preferência morto e enterrado.
Lucas então pegou a arma e a deixou em cima da mesa, antes de segurar Kate pelas pernas e erguer seu tronco, carregando-a. Jude ajudou, passando o braço da amiga pelo pescoço dele e abrindo a passagem.
— Melhor guardar isso.
Bryan falou consigo mesmo, pondo a arma em uma das gavetas da sua mesa.
Andrew viu Kate passar nos braços de Lucas, em direção ao elevador. Ele abaixou a cabeça e soltou um suspiro baixo. Havia estragado tudo, novamente. E dessa vez, poderia ser em definitivo, com a única pessoa que desejava intensamente passar o resto da sua vida.
— Delegado? Sobre minha condição de prisão domiciliar...
— Pode ir, se quiser, senhor Cardenas. Ainda tem alguns dias pra aproveitar. Mas se tentar fugir, coloco a Kate para te caçar até no inferno. Basta que ela se recupere desse choque todo.
— Eu entendi. Obrigado. Não farei mais nada que possa... decepcioná-la.
Bryan ajeitou as cadeiras que ficavam de frente pra ele. Onde minutos atrás, sua agente havia desmaiado. Ele respirou fundo ao ouvir Andrew e, antes que ele atravessasse a porta da sua sala, ele se pronunciou, mesmo que ninguém tenha solicitado.
— Quer uma opinião? Não importa o que você faça. Nada mais importa. Ela te odeia com todas as forças que tem. Isso é o bastante pra você temê-la, não pensar que ainda pode recuperar alguma coisa. Você não tem mais a capacidade de decepcionar a Kate, porque ela só espera o pior vindo de você, senhor Cardenas.
— Então quer dizer que não importa mais se eu esteja matando ou salvando alguém, é isso?
Indagou Andrew, de testa enrugada. Obviamente como chefe dela devia saber mais sobre do que ele, como recém casado. No entanto, esperava que o delegado pudesse estar extremamente errado sobre Kate.
Bryan sentou em sua cadeira e pôs os cotovelos na mesa, encarando Andrew.
— Pra Kate, não importa mais. Talvez, algum dia você consiga um pouco da compaixão dela, se você fizer por merecer. Mas é isso e nada mais. Isso, claro, se eu a conheço bem.
— Eu espero que não, delegado.