Capítulo 14: Mentira tem perna curta

1850 Palavras
Em algum momento ela conseguiu diminuir o choro e sentou no chão, ao lado dele, para olhá-lo. Assim como tinha que respirar, Kate necessitava de olhar nos olhos de Lucas, enquanto tentava entender o que tinha acontecido. — Eu... Como? O que aconteceu? Ela começou a enxugar o rosto, conseguindo parar o choro. Ainda era uma tarefa difícil, mas eles precisavam conversar sobre muitas coisas. Ela m*l conseguia acreditar que teria todas aquelas conversas. Por mais que algumas fossem muito difíceis de ter, era bom demais precisar fazer aquilo. — Eu não sei como. Só sei que um senhor me resgatou daquelas pedras. Ele estava perto, praticamente viu o acidente acontecer. Aquele homem me salvou e me levou para uma cidade mais longe. Cuidou de mim, dos meus ferimentos. — Por que não te deixou em um hospital? Kate não queria atribuir culpa ou responsabilidade a alguém sobre todos aqueles meses afastados e toda a situação vivida, todo seu sofrimento e angústia, mas havia formas de evitar, já que Lucas estava vivo. — Os primeiros cuidados começaram logo no barco dele. Esses foram cruciais. Depois ele disse que não confia em médicos e achou que seria melhor ficar com ele. Não posso julgá-lo ou criticá-lo pela suas escolhas, querendo ou não, ele salvou a minha vida. — Mas poderia ter deixado você em algum lugar. Ou procurado a polícia, qualquer um que pudesse. Ou você poderia ter voltado antes. — Acontece que eu não lembro de muita coisa. — Como assim? Kate fungou e sentou completamente ao lado dele, com uma postura quase ereta e de testa enrugada, enquanto olhava para Lucas. Ela simplesmente não conseguia e nem queria desviar os olhos dele por nem um segundo. — Eu levei alguns dias pra lembrar meu nome, Kate, mas por semanas essa foi a única coisa que eu sabia. E não tem quase nada de tempo que eu lembrei de você. Quando vi aquela sua entrevista na TV, depois do caso. Eu reconheci sua voz, seu jeito bravo quando fica irritada, como parece que quer pular no pescoço das pessoas. Lembrei um pouco sobre o que estava fazendo. E há alguns dias, lembrei do rosto de quem estava no carro que provocou o acidente. Kate conseguiu dar um sorriso quando ele falou da forma como ela ficou na TV. Mas logo sua face se transformou em sombra de novo quando ele mencionou o culpado por toda aquela tragédia. Ou pelo menos, quem ela achava que era o único responsável. — O Ralph? — Não lembro o nome dele, mas tinha dois homens no carro. — O quê? O Ralph praticamente confessou que fez aquilo. Kate levantou. Ela ainda estava meio tonta, tremendo e com uma ansiedade estranha, mas tinha um misto de surpresa e felicidade emanando dela que jamais poderia imaginar sentir daquela forma de novo. Lucas também levantou e a ajudou a ficar de pé. Ela parecia meio embriagada, com o rosto avermelhado e a mente confusa, mas estava apenas tentando entender tudo o que aconteceu e ficar são ao mesmo tempo. — Eu não sei, mas lembro perfeitamente que tinha dois homens. Enfim, eu lembro também de tentar salvar o homem do meu lado, mas eu não consegui... — O Nick. Ela pronunciou o nome dele, como se não falasse há anos. Ainda era uma ferida com casca aberta, e as vezes ela esquecia que estava desprotegida. — Quem era ele? Kate puxou uma cadeira da mesa de Bryan e sentou, depois de respirar fundo. Lucas sentiu que devia ser alguém importante, pela forma como ela ficou cabisbaixa. — Meu padrinho. O homem que cuidou de mim desde a adolescência. Ele foi um pai que nunca tive. E um pouco mais, eu diria. Durante anos, o Nick foi meu pai, minha mãe, meu tio, primo. Ele era a minha única família. Lucas sentou na cadeira ao lado e segurou as mãos de Kate, lamentando não ter conseguido salvá-lo e muito menos se lembrar dele. Apenas tinha a imagem dele de cabeça pra baixo, ensanguentado, ferido. Ele não se sentia bem por ter somente aquela imagem do homem que foi tão importante pra vida de Kate, mas não tinha controle sobre aquilo. — Ah, Kate, eu sinto muito. Eu tentei mesmo salvá-lo, mas... — Está tudo bem, eu sei que tentou. Te conheço, Lucas. Não importa se você não lembra de tudo, eu sei quem você é. E meu Deus, fico tão feliz que esteja vivo. Me senti tão m*l por tudo. — Por que? — Olha, temos muitas coisas pra conversar, mas eu estava na missão dos Cardenas e eu não devia ter deixado vocês participarem. Nunca que isso foi uma boa ideia. Ela balançou a cabeça em negação, começando a pensar sobre o que a mãe do Lucas disse pra ela certa vez. — Mas a culpa não foi sua. — Não é bem assim. Sua mãe estava certa, eu não sou uma boa mulher pra você. Kate levantou, limpando totalmente o rosto. Novas lágrimas queriam sair, mas ela precisava resistir. Não podia fraquejar. Não se queria parecer forte. — Do que está falando, Kate? — Ah, eu preciso te contar uma coisa. Muitas coisas, na verdade. Só que tem uma muito importante. — Então fala. – Olha, eu... A porta se abriu abruptamente. Jude e Bryan tentaram evitar. Ambos estavam sentados no sofá, mas quando viram, Andrew já tinha entrado com tudo. Ele parou na porta e viu Lucas ali, em pé, bem vivo. Seu coração deu uma batida forte e o medo começou a assolá-lo de modo avassalador. — Kate? L-Lucas? Kate avistou o marido, que tinha chegado em uma péssima hora. Ela ainda precisava atualizar Lucas da novidade, e, sinceramente, não sabia como ele iria reagir e nem o que faria se ele perguntasse se iria se separar de Andrew, agora que ele tinha voltado. Esperava sinceramente que ele não fizesse, pois não sabia qual seria sua resposta. Mesmo que, no fundo, seus sentimentos estivessem bem claros em ambas as situações. — Andrew, por favor, nos deixe a sós. Temos muito que conversar ainda e... — Foi você! Lucas apontou o dedo pra ele, o acusando e indo em direção a Andrew. — Eu o que? Do que está falando? Como você está vivo? Andrew tentou se fazer de desentendido, mas começava a entender porque deveria ter escutado aquela voz que dizia que as coisas começariam a dar muito errado. — Não graças a você, é claro, seu desgraçado! Lucas avançou, mas Kate se pôs na frente dele, pondo as mãos em seu peito. — Lucas! O que está acontecendo? — Esse desgraçado estava no carro que me atingiu. Kate olhou para trás, com as sobrancelhas juntas e a testa enrugada. Ela m*l pôde acreditar no que seus ouvidos tinham captado. Kate encarou seu ex-noivo novamente, balançando a cabeça. — Lucas, você deve está confundindo o Andrew, ele tem um físico comum e... — Por que está defendendo ele? — Eu não estou, é que... — Provavelmente porque sou o marido dela. Soltou Andrew, com um sorriso enorme no rosto, como se estivesse se gabando de ter um troféu que Lucas nunca teria. — O quê? Então realmente se casaram? Mesmo com a minha suposta morte? — Lucas, eu ia te contar agora, mas é complicado, foi pela missão e... — Ah, Kate, o que fizemos ontem não foi pela missão. Nossa lua de mel em Miami e a noite de amor não teve nada a ver com isso. Pronunciou, em tom de provocação. Parecia um menino mimado que quando não conseguia o que queria, dava um jeito de irritar as pessoas ou chamar a atenção com intuito de causar algum tipo de inveja. Tudo isso porque sabia que a volta de Lucas significava uma mudança radical na sua relação com Kate, que ele nem sabia se continuaria existindo. — Você quer calar a p***a da boca? Mandou Kate, irritada com a intromissão de Andrew daquele jeito e com seu comportamento imaturo. — Então... está apaixonada por ele? Pelo homem que matou o seu padrinho? — Olha, rapaz, você deve está me confundindo com alguém e... — Tem certeza, Andrew? Não é essa a p***a do seu nome? Eu posso ter perdido a memória, mas lembro perfeitamente do seu olhar frio e c***l, que foi a última coisa que vi antes do seu motorista acertar o meu carro. Aposto que com ordem sua! — Não foi bem assim que aconteceu! Disparou Andrew, fazendo Kate se virar pra ele por completo, com sangue nos olhos. — Então é verdade, Andrew? Você estava realmente lá? Você mentiu pra mim? Matou o Nick e quase fez o mesmo com o Lucas? — Por favor, Kate, me escuta, eu não queria isso, ok? Eu mandei o Ralph parar! Ela se apoiou na mesa de Bryan. Suas pernas enfraqueceram novamente com o choque. Sua testa permanecia enrugada, enquanto ela tentava assimilar aquela notícia. — Eu não acredito no que estou ouvindo. Não pode ser real... Eu... eu me deitei com você. — Não, não faz isso. Eu amo você... Ela ergueu a cabeça, com lágrimas umedecendo seu rosto. — Você tirou tudo de mim. O meu noivo, meu padrinho, minha família inteira! E quer vir dizer que me ama? — Eu estava cego, apaixonado por você, tinha que te ter de algum jeito, mas as coisas sairam do controle, por favor, precisa acreditar em mim, não era pra ter sido daquele jeito! — Acreditar em você? Acha que merece alguma credibilidade? Que devo confiar em você depois de tudo que fez e ainda ter mentido pra mim? Andrew estava tremendo. A Anna estava certa. Odiava o quão razão ela tinha quando o avisou sobre esconder algo de tamanha importância, mesmo sem nem saber do que se tratava. Ele sentia que tudo que havia feito nas últimas semanas, nos meses passados, estava escorrendo por entre seus dedos naquele momento. E não havia nada que ele pudesse fazer para mudar aquilo. — Eu juro que ia te contar. Só estava esperando o momento certo! – Ah, é mesmo? E quando seria? Quando a i****a aqui estivesse caidinha por você? Andrew não queria admitir, mas era exatamente aquilo. E ouvindo aquelas palavras em voz alta é que ele percebia o quão i****a, egoísta e manipulador tinha sido. — Bom, e-eu não usaria essas palavras, mas sim, ia contar quando estivesse apaixonada por mim. Admitiu, envergonhado, com a cabeça cabisbaixa. Kate sentou na cadeira, sem conseguir digerir toda aquela história. — Meu Deus, como fui burra. — Eu devia te encher de porrada. Proferiu Lucas, fechando a mão. Andrew não esboçou nenhuma reação. Por mais que fosse difícil admitir, ele merecia. — Mantenham a calma, senhores. Isso aqui ainda é uma delegacia. Bryan deu um passo a frente, adentrando sua própria sala, a fim de intervir qualquer agressão que pudesse acontecer. A tensão era nítida a partir do momento em que Andrew entrou na sala, sem nem mesmo dizer nada, tudo mudou. Mas nem mesmo o delegado poderia prever o que aconteceria a seguir.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR