Capítulo 6: Noite estrelada

1435 Palavras
Uma hora depois, Andrew e Kate estavam sentados lado a lado, no voo para Miami. Ela tinha passado em casa e feito sua mala rapidamente. Não ficaria muito tempo, e também pretendia sair para comprar roupas novas. Estava precisando, além de que seria uma ótima distração. Foi um voo de praticamente três horas em silêncio. Não havia muito o que dizer naquele momento que pudesse deixar Kate menos angustiada ou Andrew menos arrependido, então não disseram nada além de perguntas triviais sobre o local que ficariam e como chegariam lá. Andrew tinha ido a Miami pelo menos duas ou três vezes no ano anterior, então era mais experiente do que Kate para andar na cidade. Eles chegaram no aeroporto e pegaram um táxi até o hotel reservado. A brisa quase não os alcançava. Algumas noites podiam ser tão quentes quanto os dias ensolarados, e aquela parecia ser uma. — Eu vou tomar um banho de piscina quando chegar, você quer vir? Ele indagou, na esperança de quebrar aquele silêncio constrangedor que os rodeava. — Piscina à noite? — Está um pouco quente. Além disso, é bom pra refrescar a mente e dar a ela o aviso de que estamos, de fato, de férias. Kate deu um curto sorriso, concordando com um meneio de cabeça. — Por mim tudo bem, então. Andrew esperava que pudesse ter alguma facilidade em pelo menos levá-la aos lugares, com objetivo de distraí-la de qualquer problema que estivesse passando em sua cabeça. O que, com certeza, devia estar acontecendo naquele instante, enquanto ela encarava a janela do táxi. Nenhum dos dois podiam imaginar, mas olhavam para o mesmo céu escurecido, repleto de estrelas pequenas e brilhantes, que apesar de não demonstrar todo seu poder e sua força, estava lá, fazendo sua presença, em meio a milhares de outras estrelas. Lucas encarava o céu como se pudesse ver alguma coisa nele, mas nada acontecia. Sua memória ainda não tinha se recuperado completamente, mas desde que ele tinha identificado o rosto de sua noiva na televisão, tudo começou a vir à tona como uma avalanche. Kate tinha se infiltrado em uma máfia para conseguir provas contra eles. E talvez fosse necessário se envolver amorosamente com algum m****o do alto escalão e, ao que ele se lembrava, Andrew havia entrado em seu caminho e aberto a Kate as portas para entrar em sua organização. Porém, até onde ele se lembrava, ela não tinha dado grandes avanços. Pelo menos, não até o dia do acidente. Depois de muito forçar, ele se recordou da última conversa que tiveram, onde ela revelou, sem querer, que Andrew e ela tinham se beijado. Bom, ele estava completamente ciente daquela possibilidade e, mais do que qualquer um, torcia pra que Kate atingisse seus objetivos naquela missão, mesmo que ele não gostasse nenhum pouco de como faria aquilo. Há mais de seis anos, quando ambos se conheceram, Kate deixou claro a importância da sua carreira e do seu trabalho. No fim de tudo aquilo, ela salvaria milhares de vidas. Como confirmou à repórter, no fim da coletiva. A ação de Katharina Williams tinha permitido que pessoas em cativeiro pelo país inteiro, fossem encontradas e libertadas. Escravas sexuais, mulheres vendidas como objetos, homens e mulheres que eram forçados a realizar algum tipo de trabalho para o Don. Além, é claro, de prender dezenas de criminosos responsáveis por centenas de crimes. E que, se não fossem parados, cometeriam muito mais. Apesar do tom acusador da entrevista, a reportagem trazia Kate como uma grande heroína, ao lado de Jude Walters, que contribuiu ativamente na missão. E Lucas não poderia estar mais orgulhoso. Certamente aquela tinha sido a coisa mais difícil que Kate havia feito. Continuar depois da morte de Nicholas e de sua suposta morte. Ele havia lido em algum lugar, que seu corpo não fora encontrado, obviamente, mas que consideravam as condições inviáveis para sua sobrevivência. Até mesmo ele, às vezes, não achava possível ainda estar vivo, de pé, sem nenhuma sequela. Lucas não era religioso e nem chegado a acreditar em milagres. Mas naquele instante, ele era o próprio milagre em pessoa, vivo para contar uma história que mais ninguém seria capaz de contar. Por qual motivo? Ele ainda não fazia ideia. Não sabia e jamais entenderia porque ele sobreviveu e o outro homem não, porém, não podia negar a existência de que ter sobrevivido não tinha nada a ver com sorte. Ele acreditava que era mais uma mistura de força de vontade com o propósito que Deus tinha planejado para ele. — Acha que ela ainda sofre? Indagou um homem, parando ao lado dele. Lucas continuou olhando para o céu. Estava tão lindo aquela noite. Sua vida parecia ter retomado as cores normais, depois que se lembrou de quem era e o que tinha deixado para trás. Pelo menos, uma parte disso. — Se eu a conheço, agora é que ela vai sofrer mais. Kate é muito forte, conseguiu terminar a missão mesmo com a morte do padrinho e a minha. Eu não sei como ela conseguiu, mas agora a ficha dela vai realmente cair. — Você fala com tanta convicção. Como pode ter tanta certeza disso? Ele olhou para o homem, com as mãos no bolso da calça. A sua confirmação vinha de um reconhecimento que ele podia fazer de qualquer lugar. — Depois que a reconheci, pude ver a dor em seus olhos. Ela está lá, só que não são todos que podem ver. Ela está sofrendo, Walter. — Então precisa voltar. Imagina a felicidade dela quando vê-lo. Lucas deu um suspiro profundo e cruzou os braços, olhando para o céu outra vez. Estava com uma pequena dúvida sobre o que deveria ser feito. Seu coração implorava pra que ele não ficasse mais nenhum instante ali, porém, ele estava tentando manter a cabeça mais limpa pra ter certeza do que deveria fazer. — Fico me perguntando se devo mesmo. Eu sei que ela está m*l, mas eu não consegui salvá-lo. Aquela culpa, a maldita culpa, ainda o corroía. Durante muito tempo, uma das poucas lembranças que ele tinha em sua mente, era dos segundos no olhar de desespero do homem, ao perceber que não seria salvo. Foram extremamente curtos, mas não se apagava da mente de Lucas. Tudo havia sumido, desaparecido completamente, menos aqueles segundos. — Você tentou. Isso é o que importa. E o melhor, saiu vivo de lá. Ainda que quase morto. Está respirando agora, Lucas. Se passar mais um dia aqui, estará prolongando o sofrimento dela de modo desnecessário. Antes você não lembrava quem era e quem tinha deixado para trás. Agora que tem essas informações, está na hora de retomar sua vida. Ele respirou fundo, com a brisa balançando levemente seu cabelo. — Muito obrigado. Primeiro por salvar a minha vida, depois por me deixar ficar. Eu jamais serei capaz de agradecê-lo o suficiente. Ele se virou para o homem baixinho de cabelos grisalhos e voz suave, estendendo o braço. Walter apertou sua mão, com um leve sorriso no rosto. — Seja feliz e estará me agradecendo. Era exatamente o que Lucas pretendia fazer. Mais tarde naquela noite, a entrevista da agente Williams tinha reprisado mais uma vez no jornal local, e um casal muito problemático e insensível, assistiam à reportagem, quando, como um estalar de dedos, a memória de Lisa Rivers lhe deu um sinal forte sobre o rosto na TV. — Howard! Acorde homem, é ela! — O quê? Quem? Howard Williams estava roncando no sofá, com a baba escorrendo pelo canto esquerdo da boca, quando escutou a mulher gritar. — Nossa filha adotiva, homem! Olha ela na TV! — Que diabos está falando, Lisa? — A Katharina! A pestinha que deixamos no parque quando era criança... Olha ela dando entrevista! Eu reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar. O homem se inclinou para frente e encolheu os olhos, para enxergar a face avermelhada de Kate em sua TV. Por um instante ele não soube o que dizer, então resmungou, dando pouca importância ao assunto: — Ordinária sortuda. Pelo visto está muito bem, trabalhando pro governo. — Bota bem nisso! Será que deveríamos... — Não, deixa essa história pra lá. Ele meneou a cabeça, voltando a se ajeitar em sua poltrona. — Mas ele iria gostar de saber. E talvez pudesse nos... — Lisa, esquece essa história. Estou cansado, me deixe dormir. Lisa até gostaria, mas sua mente não parava de ferver com ideias de como se aproveitar daquela situação. Primeiro ela iria atrás de alguém que estava tão interessado em Katharina quanto aquele mafioso deveria ter estado antes, ou até um pouco mais.
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