Capítulo 5: Nada será como antes

2067 Palavras
A mente de Lucas não estava muito clara. Sempre houve um borrão. Uma escuridão tão profunda que ele m*l era capaz de distinguir qualquer coisa. Fosse um rosto, uma voz ou um toque. No entanto, na noite em que Kate completou a missão mais importante de sua vida, ele acordou com o peito ardendo, em agonia, suando e tremendo, com a lembrança de um olhar frio e c***l, como a última coisa a ver antes de bater severamente com a cabeça. Naquela noite, ele precisou levantar, molhar o rosto e se encarar no espelho, mais uma vez, buscando alguma coisa; fosse uma identidade; uma pessoa; um homem. Desde que tinha perdido a memória, Lucas não sabia quem era, o que fazia, quem tinha deixado para trás. As marcas em seu corpo, assim como as feridas da alma, indicavam que ele estivera perto demais da morte e por muito pouco não se queimara. Porém, ele resistiu e sobreviveu, graças a ajuda de um bom homem. Mas desde então, tudo o que ele tinha, havia ficado para trás, assim como sua memória, que não conseguia pensar no que tinha deixado. Durante um tempo, Lucas tentou recuperar alguma coisa. Qualquer outra memória que pudesse dizer quem ele era, de onde vinha, o que fazia e porque quase havia morrido em o que parecia ter sido um acidente de carro. Desde que tinha se lembrado do rosto daquele homem, Lucas não parava de pensar nos acontecimentos que quase o levaram à morte, mas nada vinha a sua mente. Ele estava prestes a aquietar aquela história, quando, em uma tarde chuvosa e fria, ele ouviu uma voz delicada, forte e impetuosa, falando na TV. Lucas estava saindo do banheiro, na hora que escutou o som familiar. Ele se aproximou da sala e parou atrás do sofá, olhando para a jovem de cabelo castanho e olhos verdes, que falava atentamente na TV. Ela parecia ter dificuldade em se manter serena. Na outra cadeira, uma mulher mais alta, de pele escura e olhos pouco amigáveis, que parecia dar-lhe certo apoio, pela maneira como estava posta ao seu lado. Ele começou a ouvir quando o repórter perguntou sobre o que tinha acontecido com um homem chamado Ralph Gomez. Parado no meio da sala, Lucas encarava aquela tela, com o coração batendo rápido. Alguma coisa nele pulsava e gritava em seu ouvido que, aquela mulher na TV, não era uma desconhecida. — Uma última pergunta agente, tem alguma chance do senhor Cardenas saber onde está o corpo do seu noivo? O homem pequeno e calvo indagou, fazendo Kate precisar parar pra respirar fundo. Ela não tinha pensado naquela possibilidade, mas se tivesse alguma chance do Bernardo saber de algo, ela o torturaria, se necessário, para obter a resposta. — Não sabemos se Bernardo ou Andrew têm esse conhecimento, mas ninguém mais do que eu gostaria de encontrar o corpo do Lucas, pra que ao menos pudéssemos dar a ele um enterro digno do homem que era. Kate se levantou, então a mulher que fez a primeira pergunta também ergueu o corpo e o microfone, ao perguntar. — A senhora ainda o ama, não é? Kate olhou para ela, como se não pudesse acreditar no que tinha escutado. Como alguém podia se formar em jornalismo para fazer aquele tipo de pergunta? — Como ousa questionar meus sentimentos? Mas é óbvio que ainda amo Lucas Wayne. Ele era... e sempre será o amor da minha vida. — Mas... — Chega! Ela não vai responder a mais nenhuma pergunta. Tenham um excelente dia. Interrompeu Jude, tirando Kate do palco, visivelmente abalada. Foi então, que a cabeça de Lucas começou a martelar. Flashs surgiram como raios em um dia de tempestade. Aqueles olhos, aquela voz, aquele tom... Ele a conhecia. Podia sentir dentro dele, da mesma forma que sabia que seu coração batia e que o ar entrava em seus pulmões. As luzes ficaram mais fortes, mais reais e mais rápidas. Como um vento passando pelas árvores, ele era capaz de ver aquele rosto dezenas de vezes em sua mente, como se ele dependesse de sua existência para que tudo fizesse sentido. O que, de certa forma, não estava totalmente errado. — Lucas? Está tudo bem? O homem que havia ligado a TV questionou, notando que claramente algo não estava certo. Lucas se abaixou, atrás do sofá, ainda com uma onda forte tomando conta de sua mente, até que, em algum momento, tudo ficou claro como o dia. Ele estava ajoelhado, com as mãos na cabeça. E então, levantou e olhou para a TV, onde as duas mulheres saiam para os bastidores. Em um sussurro quase inaudível, ele pronunciou: — Kate? Naquele instante, Kate se encontrava na sala do delegado, tomando uma forte xícara de chá. — Eu sinto muito pelas perguntas idiotas, mas sabíamos que aconteceria. — Você não tem culpa, Riggs. Na verdade, preciso lhe agradecer. Foi muito difícil não levantar para dar um soco na cara daqueles idiotas insensíveis. Blake deu um leve sorriso, sabendo que tinha feito um bom trabalho e que, mais um vez, estava no lugar certo, na hora certa. Olhando para a agente, ela garantiu. — Não são todos assim. — Bom, pelo menos acabou, não é chefe? — Sim, claro, quer dizer... — Bryan... Kate pronunciou o nome dele como se estivesse prestes a estrangulá-lo. Ele coçou a cabeça e cruzou os braços, encostando o corpo à mesa. Kate olhava pra ele, sentada na cadeira, com olhos furiosos e questionadores. — Tem alguns canais de TV interessados na sua história e... — Não! Não vou falar mais sobre isso. Ela se levantou, deixando a xícara de chá na mesa. — Tire suas férias, agente, depois conversamos, o que acha? — Acho que nenhum motivo seria bom o suficiente para me fazer passar por isso de novo. Com licença. Proferiu, antes de sair da sala. Jude balançou a cabeça para o delegado e saiu atrás dela. Ele fechou os olhos por um segundo, abaixando a cabeça. Aquele assunto era extremamente delicado e ele sabia. Obviamente não seria nada fácil convencê-la, mas ele estava sendo pressionado para que aquela história fizesse, do Departamento da Narcóticos, um grande e histórico marco do trabalho policial e, que, assim, mostraria não apenas o seu poder, mas também sua determinação e força. Isso deveria, aos olhos dos membros de alto escalão da polícia, deixar os criminosos com mais temor. Bryan discordava, achava que os faria mais cautelosos e espertos, no entanto, não podia discordar de seus superiores e achar que de fato ganharia aquela briga. Kate saiu em direção as salas de interrogatório, e acabou encontrando Andrew no caminho. Ele tivera que voltar para assinar alguns documentos, depois que terminou de ver a entrevista. Andrew não estava muito satisfeito, afinal ouvir sua esposa dizer em rede nacional que amava e sempre amaria outro homem, não era a coisa mais legal do mundo, nem de longe. Porém, ele sabia que não poderia ser diferente. Kate e Lucas estiveram noivos por anos e estavam muito perto de se casarem. Praticamente moravam juntos e se amavam intensamente, porém ele não tinha conseguido enxergar, pelo menos não a tempo. Tanto que, alguma coisa nele, estava começando a mudar sua opinião. Talvez precisasse, ele mesmo, revelar o segredo, como Anna o aconselhara. Mas antes de fazer isso, precisava conquistá-la, a ponto de que, mesmo com raiva dele, em algum momento, ela pudesse perdoá-lo pelo que tinha feito e o que não tinha dito. — Kate. Um parou de frente para o outro, como se estivessem se reconhecendo, inseguros sobre como ambos deviam se comportar depois de tudo que foi dito. — Andrew. Ela disse, antes de respirar fundo. Ele deu um passo a frente e segurou a mão dela. — Você está bem? — Vou ficar. Vamos embora daqui? — Claro. Andrew e Kate saíram juntos, lado a lado, sem se tocar. O quanto antes ela pudesse se afastar de toda aquela confusão midiatica e do desejo de Bryan em transformar aquela história na propaganda de poder e força do DEA, melhor seria para a agente, que estava cansada demais para lutar contra os pedidos do chefe, mas ainda tinha alguma disposição para "fugir" dele. Andrew e Kate pegaram um táxi até a casa de Kayla. — O que faremos? Ele indagou, olhando pra ela. — Miami, topa? — Lua de Mel em Miami? — Sim, não gostou? Ela perguntou, franzindo a testa. Andrew se aproximou, colocando a mão dele no rosto dela, com um sorriso quase angelical nos lábios. — Ao contrário, eu adorei. Andrew se inclinou para beijá-la, mas Kate virou o rosto, de leve. Ele parou por alguns segundos e depositou um beijo em sua bochecha. — Andrew... Ela começou, sentindo parte de si culpada por não conseguir entregar-se. Depois de tudo que haviam conversado recentemente, era como se a memória de Kate estivesse lhe punindo por ter permitido que tudo tivesse acontecido tão rápido, ainda que fosse necessário para cumprir a missão. — Está tudo bem. Vamos nos divertir fora dessa confusão, ok? Ela assentiu, sem dizer mais nada. Eles passaram na casa de Kayla. Enquanto Andrew arrumava uma mala, ela comprava as passagens pela Internet. — Antes de irmos, eu gostaria de me desculpar com vocês. Eu não queria ter enganado vocês, mas foi necessário pra que pudesse dar um fim à tirânia de Bernardo. Disse Kate, com as mãos no bolso da calça, olhando para Kayla e Karen. Mãe e filha se olharam. Aquele segredo de Andrew parou no ar, entre elas, tão sombrio, escuro e fatal, que ambos m*l conseguiram respirar por alguns segundos. Mas tinham feito uma promessa e, além disso, não devia ser elas a revelarem a verdade. Por mais que quisesse, não era o segredo delas pra que tivessem o direito de contar. Então só lhe restavam perdoá-la e torcer pra que, quando Kate descobrisse a verdade, ela também pudesse fazer o mesmo com elas. Kayla se levantou e segurou as mãos de Kate, tão firmes e macias quanto as suas. Ambas se olharam nos olhos, como se pudesse a ver mais do que compaixão. — Não tem que se desculpar. Nós entendemos que tudo foi necessário para mandar o miserável do meu ex-marido pra prisão. Você fez o certo, pelo bem de todos aqueles que libertou, inclusive nós. — Obrigada por entender e me perdoarem. Agradeceu ela, com os olhos enchendo de lágrimas. Karen se levantou e se juntou as duas, abraçando Kate de lado. — Você agora é da família Kate, se lembre disso. Eu sei que perdeu muita coisa, sacrificou tudo pra salvar milhares de vidas desconhecidas, mas agora você tem a nós, independente de qualquer coisa. — Não tenho como agradecer o carinho de vocês. — Não precisa, apenas se cuide, e cuide do meu filho. Respondeu Kayla, antes de puxá-la para um abraço carinhoso. Fazia muito tempo, muito tempo mesmo, que Kate não recebia um abraço como aquele. Na verdade, ela nem se lembrava se, um dia, sequer, recebeu algo do tipo. Kate viveu os primeiros anos ao lado de uma família de muito pouco afeto e, depois, passou anos buscando aquilo. Encontrou amor em Nicholas, mas nunca foi a mesma coisa de um relacionamento materno. Algo que provavelmente passaria o resto da vida sem saber o que era. Andrew apareceu na sala com uma mala em mãos e uma mochila. Ele avistou a cena de sua mãe de criação abraçada a mulher da sua vida. Aquilo parecia a coisa mais linda do mundo. — Lembre-se, a verdade sempre aparece. Sussurrou Anna, surgindo ao lado dele. Andrew se virou pra ela, com os olhos arregalados e o coração batendo forte. — Sabe o que você está parecendo? Um demônio sussurrando no meu ouvido. Poderia, por favor, me deixar em paz? Ela deu de ombros e olhou pra ele, inclinando um pouco a cabeça para cima, com um sorriso quase sórdido. — Só estou dizendo pra aproveitar, porque quando ela descobrir seu segredinho sujo, nada será como antes. Anna respondeu, calmamente, em um tom irônico, antes de se aproximar das meninas. Andrew as observou e engoliu em seco, temendo que ela estivesse certa. Mas não apenas isso, sentindo que ela estava. E que devia dizer a verdade a Kate o quanto antes, porém não podia fazer isso ainda, não antes de ter certeza que ela estava apaixonada por ele.
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