Depois de algumas horas, Kate exigiu que alguém a liberasse, pois ela não aguentava mais ficar naquele lugar, parada sem fazer nada. Obviamente médicos e enfermeiros relutaram, mas tiveram de ceder. Ela acabaria indo por conta própria de qualquer forma e havia deixado isso bem claro.
Jude ainda estava na sala de espera, quando ela apareceu caminhando devagar.
— O que está fazendo aqui?
— Briguei com os médicos pra me liberarem. Estou me sentindo bem.
— Kate, devia descansar pelo menos até amanhã.
— Tenho muita coisa pra fazer, Jude. E se não pretende me ajudar, não atrapalhe.
Jude balançou a cabeça e soltou um suspiro. Não podia fazer muita coisa quando se tratava da determinação e teimosia de Kate. A amiga ainda conseguia ser pior do que a agente do FBI.
— Teimosa como uma mula.
Kate olhou para as outras cadeiras da sala de espera e não viu ninguém alto, de corpo forte e musculoso, mesmo tendo emagrecido um pouco, e de olhos castanhos, por ali.
— Cadê o Lucas?
— Foi comprar café pra gente.
— Deu a ele as chaves da casa?
— Sim, mas ele disse que não quer ir sem você.
Na mesma hora, ele apareceu com dois copos de café com leite. Lucas enrugou a testa, claramente confuso.
— Kate? Não devia estar no seu quarto?
— Eu estou bem, já me liberaram.
— Ela discutiu com os médicos para estar aqui. Praticamente os obrigou a dar alta.
Fofocou Jude, não tendo medo do olhar penetrante e julgador que a agente do DEA lhe lançou logo em seguida.
— Você não devia...
Kate respirou fundo, antes de interrompê-lo.
— Olha, chega vocês dois. Estou cansada de gente me dizendo o que fazer ou o que sentir. Eu tenho muita coisa pra resolver da minha vida e ficar em uma cama de hospital não vai adiantar em nada.
Jude e Lucas se olharam, com um ar de preocupação presente, mas cientes de que podiam apenas acompanhar.
Apesar de não saber o que fazer com seus sentimentos e estar confuso sobre o futuro com Kate, um que ele deixou claro não ter naquele momento, no fundo sabia que ainda a amava e ainda a queria. E não podia deixar de se preocupar e muito menos de demonstrar isso. Ela precisava saber que as pessoas gostavam dela e se importavam a ponto de se meter na vida dela, com sua permissão, de certo modo. Talvez daquela forma ela evitasse um mau maior contra si mesma.
— O que você quer fazer primeiro?
— Andrew.
— Sem ameaças dessa vez, eu espero.
Alertou Jude, bebendo um gole do seu café.
— Não prometo nada.
— Estou falando sério, Katharina.
Ela enfatizou o nome de Kate para que a agente soubesse que estava ali por ela, mas que faria o que fosse necessário pelo bem do estado de um civil. E isso incluía atirar em quem precisasse, mesmo que ela concordasse com o atirador. Claro que era tudo hipotético, mas havia probabilidade daquilo acontecer tanto quanto qualquer outra coisa.
— Arg, tudo bem, não vou matá-lo. Eu vou em paz. Só preciso entender algumas coisas.
— Eu te levo. Ele tá na casa da Kayla.
Informou Jude, pegando sua bolsa e segurando Kate pela cintura, para apoiá-la. Precisar, não precisava, mas Kate não podia negar que estava adorando todo aquele carinho e atenção que recebia.
— Claro, onde mais estaria? As vezes acho que ele não sabe resolver seus problemas sem ajuda de um adulto de verdade.
Gostava muito de estar com Karen e Kayla, mas a verdade é que Andrew ainda tinha de amadurecer algumas coisas em sua mente. A primeira delas era não correr pra barra da saia da mãe quando um problema surgia.
— Falando em Kayla, eu preciso te contar uma coisa.
Jude parou de andar. Ambas estavam bem na entrada do hospital. A agente do FBI respirou fundo. Não sabia o que pensar sobre aquilo. Assim como não imaginava qual reação Kate poderia ter ao descobrir.
— Acho que me deixou ansiosa demais por hoje, não? Vá direto ao assunto.
— Karen também sabia. Ela disse que ele contou logo depois que aconteceu.
— Então ela também mentiu pra mim. Eu não acredito. Quem mais sabia? A Kayla também?
Kate nunca havia sido traída em seus relacionamentos, até aquele momento. O que Andrew fez foi imperdoável... E as pessoas em quem ela confiou literalmente a vida, estavam mais uma vez, demonstrando porque viver sem amor muitas vezes têm suas vantagens.
— Ninguém confirmou, mas acho difícil ela não saber.
— Bom, vou perguntar isso diretamente a ela.
Jude ajudou Kate e depois entrou no carro que havia usado do departamento. O agente que as levou havia sido dispensado. Lucas ficou logo atrás.
— Ei, escuta, eu sei que você quer muito conversar com o Andrew, mas será que podemos passar na minha mãe primeiro? Estou com saudades e ainda...
— Sim, é claro. Podemos ir na sua mãe. Ela vai ficar muito feliz.
Kate deu uma forçada no sorriso, antes de passar o endereço para Jude, que dirigiu até lá.
Obviamente que aquela convivência seria extremamente difícil pra ela, que estava muito feliz em vê-lo novamente. Ela o queria, de uma forma que seu autocontrole estava sendo muito bem exercitado. No entanto, sua relação com Andrew estava longe de estar resolvida, ainda que a única coisa que ela realmente quisesse dele era o divórcio.
Não tinha outro assunto mais pendente. E se ele achava que poderia manter o casamento de alguma forma depois do que tinha sido revelado, estava totalmente enganado. E ela esperava que ele tivesse o mínimo de bom senso e não tornasse as coisas mais difíceis pra ela, com a ideia de postergar a separação.
Jude dirigiu tranquilamente até a casa de Beatriz. Mesmo com a tensão evidente no carro, Kate decidiu ignorar, assim como estava fazendo com seus próprios sentimentos. Bloqueou tudo que estava lhe ferindo e decidiu seguir em frente. Era o melhor a fazer. Ainda que qualquer terapeuta fosse discordar.
Lucas desceu do carro completamente trêmulo, mais branco do que o normal e sem saber o que fazer primeiro.
Mesmo com o corpo meio fraco por conta da medicação, Kate resolveu tomar as rédeas da situação. Ela pegou uma arma reserva do porta-luvas do carro, escondeu na cintura e desceu.
— Lucas, eu vou na frente preparar o terreno. Não queremos ir novamente pro hospital com outro desmaio, ainda que você tenha me preparado bem, amiga.
— Isso me toca profundamente, Kate.
— Fiquem aqui. Eu volto pra buscar vocês.
Kate bateu na porta e entrou. Mesmo estando brigadas, ela ainda considerava ter i********e o suficiente para tal gesto. Obviamente ela se identificou de imediato, pra que não pensasse se tratar de uma invasão à domicílio.
Jude estava encostada no carro preto. Uma SUV. Lucas ao seu lado.
— Acha que um dia ela vai ficar realmente bem?
Ele indagou, olhando pra porta entreaberta. O vento do fim de tarde batendo mais forte no rosto e esfriando mais o corpo.
— Kate é capaz de qualquer coisa, desde que ela se permita. Então sim, acho que ela vai ficar bem. Provavelmente com muita terapia e um pouco de apoio e tempo, mas vai conseguir.
— Estou torcendo por isso.
Com muita cautela, Kate sentou no sofá de Beatriz, que estava com uma cara de poucos amigos, obviamente, mas ainda sim, não deixaria de recebê-la.
— O que quer aqui?
— Eu não sei como começar essa conversa.
— Kate, o que é? Estou ficando nervosa. Você quase nunca vem aqui.
— Primeiro, preciso que respire fundo e mantenha a calma. O que vou lhe contar agora, vai acabar com seu sofrimento.
Beatriz balançou a cabeça, incapaz de acreditar nas palavras da agente. Como ela ousava vir até sua casa e dizer que o que tinha pra falar, poderia acabar com seu sofrimento? Com sua dor? Ela jamais poderia entender o quanto seu peito sofria, mesmo tendo se passado meses após a morte de seu filho. Uma dor como aquela, não poderia ser descrita em simples palavras.
— Não diga bobagens menina, o único jeito de eu não sofrer mais seria...
Então o pensamento lhe passou pela cabeça. Rápido, como um bala. Mas não podia acreditar naquela faísca de esperança que começava a se acender tão rápido em seu coração, não ainda.
— Sim.
— Oh, não. Não está falando sério.
— Eu estou, dona Beatriz. Seu filho está vivo. O nosso Lucas não morreu.
Beatriz começou a tremer e seus olhos se encheram de lágrimas. Aquela última frase fez seu coração bater tão forte que ela m*l conseguiu respirar. Por um instante, parecia que iria de encontro aos céus antes que Kate pudesse dizer mais alguma coisa.
— Oh meu Deus!
— Respire fundo, está bem? Fique aqui, eu vou buscar ele.
— Ele está aqui? Oh Jesus, meu menino está aqui?
Kate quase que correu até o lado de fora, puxando Lucas pelo braço sem dizer uma palavra e o levando para dentro. Não queria correr o risco dele fugir com medo de fazer a mãe desmaiar ou algo semelhante. Jude apenas acompanhou atrás.
Lucas então passou pela porta, com a cabeça baixa e o corpo tremendo. Ele tinha que agradecer por Kate estar ali, porque seria muito difícil fazer aquilo sozinho. Estava muito nervoso e ansioso e com medo de alguma coisa dar muito errado.
No entanto, lá estava ele, sorrindo e chorando, provando que seus medos estavam equivocados.
Beatriz não conseguiu se mexer do sofá, ao ver o filho entrar na sala de estar. A barba estava muito maior do que de costume e os cabelos um pouco mais longos também, mas era seu menino, com o mesmo olhar doce e genuíno de que se lembrava.
— Oh, meu filho. Meu menino.
Lucas se ajoelhou perante sua mãe, com o rosto avermelhado de tanta lágrima que àquela altura já tinha descido. Ele segurou as mãos dela que tremiam tanto quanto as dele e beijou cada uma, abraçando a mãe logo em seguida.
Kate e Jude estavam um pouco atrás, acompanhando tudo emocionadas. Era lindo demais ver o reencontro de mãe e filho. Mesmo que ele passasse a maior parte do tempo com Kate e trabalhando, ele jamais deixou de cuidar de sua mãe. A ajudava sempre que podia, ia visitá-la e levava para passeios. Ambos eram muito unidos e amavam estar com o outro. A rotina muitas vezes dificultava uma convivência maior, mas Lucas se esforçava, pois ver aquele sorriso era uma de suas maiores preciosidades. E felizmente, foi uma das coisas que ele se lembrou depois de ver o rosto de Kate na TV.