Capítulo 19: A Fuga

1534 Palavras
Em um local um pouco distante e desconhecido, um homem aguardava que atendessem a ligação do outro lado da linha. — Oi Chefe. — Na próxima, atenda rápido. Está tudo pronto? — Sim, senhor. — Ótimo, ponha o plano em prática imediatamente. Quando sair daqui, quero as cabeças daqueles miseráveis servidos em bandejas de prata! Bernardo desligou, enquanto lambia o sangue de uma faca improvisada que ele havia acabado de arranjar, após seu colega de cela tentar matá-lo com aquele objeto. Aparentemente, seu companheiro tinha uma irmã que havia sido sequestrada a mando de Bernardo. Não que ele soubesse disso antes, afinal, ele não gravava os nomes das mulheres que queria. No entanto, parece que o irmão sabia exatamente quem ele era e o que tinha feito. Então, tentou se vingar. Acabou pagando com a própria vida por sua ousadia. Jude e Kate estavam do lado de fora da casa, enquanto mãe e filho tinham um momento a sós. Provavelmente havia muita coisa pra conversar. — Acha que ele vai ficar aqui agora? — Talvez. Se o fizer ficar mais confortável... Ela deu de ombros, tentando não demonstrar como aquilo a fazia se sentir. — Ele me falou da conversa de vocês. Como você está? Kate cruzou os braços ao encostar o corpo no carro. Ela respirou fundo, buscando entender seus próprios sentimentos que cada vez estavam mais confusos e embaralhados. – Eu não sei, Jude. As vezes sinto que estou anestesiada e não consigo sentir e reagir como deveria. Aí acabo acumulando isso e explodindo na hora errada, como mais cedo, quando quase matei o Andrew. — Sinceramente, ele merecia a bala na cabeça, mas não somos justiceiras. Cumprimos a lei, Kate, não a fazemos e nem a burlamos assim. Mas sobre o resto, acho que terapia ia te fazer bem. A Agente do DEA balançou a cabeça com veemência. Ela tinha inúmeras dúvidas, mas uma das únicas certezas em sua vida, é que não queria ter de compartilhar toda sua com dor com um completo desconhecido, que na sua mente, iria te julgar e dizer como ela deveria estar se sentindo. — Não me vem com essa ideia não. Eu não preciso de terapia. — Todo mundo precisa. Até quem não tem nenhum problema grave, deveria fazer. É autoconhecimento, sabia? Valorização da autoestima. Tem tanta coisa que... Do outro lado da rua, um pouco distante, Kate notou um carro estranho. Era parecido com o delas, preto e tinha vidros fumê. Ela encarou o veículo durante algum tempo, enquanto apenas escutava a voz de Jude sem diferenciar o que ela dizia. De repente, o vidro abaixou e um homem saiu pela janela com uma sub metralhadora em mãos. Kate puxou Jude para baixo rapidamente e se jogaram pra debaixo da lateral do carro. Lá dentro, Lucas, que ainda estava se recuperando das fortes emoções, escutou os tiros rápidos e próximo. Ele puxou sua mãe para o chão e ficou deitado com ela, enquanto aqueles breves segundos de terror não paravam. A todo instante, sua cabeça estava em Kate e Jude do lado de fora, na linha de frente daqueles disparos. O carro não parou, apenas havia diminuído sua velocidade. Quando o homem tirou o dedo do gatilho, Kate se levantou e deu vários tiros em direção ao veículo, que saiu cantando pneu. — Atenção, tiros disparados! Agente Federal solicitando reforço! Kate comunicou pelo walkie-talkie que ficava em sua cintura, com a central de emergência, que informou estar enviando uma viatura para o local imediatamente. — Ei, você está bem? Kate ajudou Jude a se levantar. Ela concordou com um aceno de cabeça e respirou fundo, com as mãos nas costas. Logo ambas entraram correndo, para saber se estava tudo bem. Com as armas em punho, elas foram andando devagar. Não sabia se alguém havia chegado a invadir o local, era melhor estarem previnidas. — Lucas? Beatriz? Estão bem? — Sim! Estamos aqui. Lucas gritou quando ouviu a voz de Kate, enquanto apoiava o braço na cintura de sua mãe para levantá-la. — O que aconteceu lá fora? Ele indagou, pondo Beatriz com cuidado sentada no sofá. — Ainda não sabemos. Efetuaram disparos em nossa direção. — Sorte que essa garota não dorme. Se não tivesse visto eles antes, podíamos estar mortas agora. — Não exagere, Jude. Kate costumava ser mais atenta, mas coisas demais estavam acontecendo pra ela se concentrar. Por sorte, o sermão de Jude sobre terapia era tediante o suficiente para deixá-la em alerta com os outros sentidos. — Viu? É disso que eu estava falando! — Sobre o que mamãe? — Essa garota não é boa pra você! Te fez sofrer com esse trabalho, te fez morrer com esse trabalho e agora que retornou, quase foi realmente morto de novo! Você não serve para meu menino! E eu espero que você já tenha enxergado isso, Lucas, ou nossa convivência será extremamente difícil. O baque das palavras de Beatriz soaram em Kate como pequenas facas entrando em seu peito e a sufocando. Mas como vinha fazendo com seus sentimentos nas últimas semanas, ela respirou fundo e reprimiu tudo dentro dela. De modo que, lá na frente alguém acabaria se machucando quando ela libertasse aquele sentimento. Obviamente que as pessoas não tinham culpa por ela não conseguir se controlar, mas a forma como Beatriz proferiu aquelas palavras, a feriu intensamente. — Mãe, não diga uma coisa dessas. A Kate ela... — Ela tem razão. E não se preocupe, quando isso acabar, vou deixá-los em paz. Agora com licença, vou ver se a polícia está chegando. Kate não disse mais nada e saiu em passos largos e firmes, provavelmente buscando entender o que havia acabado de acontecer, ao mesmo tempo em que segurava as lágrimas que queriam sair. Incrível como Lucas havia retornado e em menos de 24h ela estivesse questionando todos os seus sentimentos, seu relacionamento com ele e tudo que o envolvia. Além de muitas outras coisas, como sua carreira e sua escolha para marido. — Kate, espera. A minha mãe não quis dizer aquilo, só está assustada com tudo e... — Não tem que se justificar. Não temos mais nada, lembra? Além disso, ela está certa, eu sou um problema. — Eu não acho que... O telefone dela tocou. Kate atendeu rapidamente. Provavelmente alguém da central havia informado sobre o tiroteio. Ou isso ou vinha mais alguma notícia que talvez ela não gostasse. — Alô? Bryan? Que p***a está acontecendo? — Agente, tenho péssimas notícias. O tom de voz emanava preocupação e incerteza. Bryan estava questionando tudo relacionado ao seu trabalho também, mas de uma forma diferente. — Então as diga de uma vez. — Bernardo escapou da prisão. Aquela frase. Quatro palavras que separavam Kate do inferno na terra. Claro que ele havia sido responsável pelo atentado sofrido. Somente ele tinha interesse em vê-los mortos daquela forma. Mas ainda sim, ela havia torcido para não receber aquela ligação com a confirmação de suas suspeitas. As vezes Kate odiava estar certa. — Não é possível! Como? — Ainda não sabemos, mas ele está livre. — Significa que todos nós estamos em perigo. E que o ataque que acabamos de sofrer não é uma coincidência. — Exatamente. Ela passou a mão na cabeça, encostando o corpo no carro novamente, com o coração batendo forte. Sua mente começou a ferver em pensamentos. O que Bernardo pretendia com aquilo? Foi preso e futuramente seria condenado. Com o nível de provas obtido e o número de testemunhas, não tinha como ele escapar. Então o que era? Um acerto de contas? Vingança? Um ódio tão profundo pelo seu filho que o fez fugir da prisão para ordenar sua morte e de todos os envolvidos em sua prisão? Analisando todas as questões que passou em sua mente, ficou claro qual seria o próximo local de ataque. — Avise a Anna imediatamente. Eu estou indo pra casa de Kayla. — Por que? — Quem você acha que será o próximo alvo? Ou melhor dizendo, os próximos? Porque ele tem três alvos em um lugar só. É um prato cheio. Jude se juntou a eles do lado de fora, com as mãos na cintura. Seu corpo ainda doía um pouco por conta da queda repentina, mas ao ver a expressão de Kate, toda e qualquer dor existente sumiu, dando lugar a um nível de preocupação latente. — Ah, merda. Vou mandar agentes pra lá agora. Você e Jude... Kate interrompeu Bryan, imaginando qual seria sua sugestão. Mas ela não podia deixar Anna sozinha contra um provável exército. — Eu vou pra lá. Não posso deixar a minha amiga sozinha. — E o seu marido também. Comentou Lucas, não querendo ser insensível ao momento, mas aquele desespero dela tinha um bom motivo. Ele tinha olhos azuis e um sorriso cativante, além de longos e belos cabelos. Kate atravessou o olhar para Lucas, que recuou alguns passos, levemente envergonhado pelo comentário, mas ainda achando que estava certo. — Tudo bem, traga todos pra cá. Vamos pensar em alguma coisa quando estiverem seguros aqui. — É melhor que tenha um plano assim que chegarmos. Se eu conheço bem esse desgraçado, não estamos seguro nem mesmo no maior prédio da polícia federal.
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