Em alguma cidade próxima a froteira no estado de Mato Grosso do Sul...
Saio exausto do plantão!
São 8:00 horas da manhã e ainda pego um trânsito infinito até em casa.
Na esquina da minha rua, decido parar e comprar algo pro café da manhã. Laura também está de plantão, ela é médica pediatra e vai chegar cansada também.
Compro o que ela ama comer, doces e mais doces.
Nos últimos meses, estou fazendo o meu melhor pelo nosso casamento. Laura, está fazendo o seu pior. E ela tem sido boa nisso.
Estamos casados há cinco anos, mas nos últimos seis meses tem sido um tormento.
Ela m*l me olha nos olhos e quando olha, não encontro nada ali, nada mesmo.
Eu sinto que ela encontrou outra pessoa. Mas pensar nisso, fere meu orgulho. Ja pensei em mil e um motivos para o penhasco que se instalou entre a gente, mas bom, está claro que ainda assim, chego sempre no mesmo ponto.
Sinto que ela se apaixonou por outro homem.
A nossa convivência é rotineira. Se tento lhe beijar, no máximo ganho um selinho, quando ela não me vira o rosto. Quando lhe procuro durante a noite, ouço em sua respiração que ela está acordada, mas ela não se mexe, fica paralisada, e quando desisto, bom, ouço seu suspiro de alívio.
Minha raiva, tenho descontado em meus treinos diários na academia. Socando o saco de boxe, ou abusando do peso erguido.
Estou frustrado e ja cansado disso.
Laura foi a mulher por quem eu me apaixonei, vivemos momentos bons e felizes. Mais isso ficou no passado. Um passado que agora parece estar bem distante.
Muito distante de mim e a cada dia que passa, vejo que isso pra Laura, pouco importa.
Chego e vou direto para o banho, quando termino visto uma roupa confortável e vou começar a preparar o café da manhã.
Logo ouço Laura chegar, ouço sua risada, ela está ao telefone, conversando com alguém. Antes de entrar ela fala.
—Preciso desligar, já cheguei em casa e vou entrar. Beijos, fique bem.
Fecho minhas mãos em punho. Pego o celular e finjo estar distraido. O que não é difícil, já que ela nem me olha direito.
—Ah, oi Henrique.
—Bom dia Laura, tudo bem?
Me aproximo, mas ela se afastou.
—Vou tomar um banho e venho tomar café.
Respiro fundo.
—Tudo bem.
Ela sai e volta um tempo depois, e já estou com a mesa do café da manhã posta.
—Hum, que delícia. Tem sonho.
—Sim, comprei pra você.
Ela sorri sem jeito.
—Obrigada, é meu favorito.
—Eu sei.
O restante do café foi em um horroroso silêncio.
Depois, ela lavou a louça, eu recolhi a mesa e coloquei o lixo pra fora.
Já eram quase 10:00 horas quando a gente subiu pro quarto. Ela foi primeiro, e quando eu subi, ela já estava deitada lendo.
Vou ao banheiro, escovo os dentes e vou até a cama.
Me aproximo, colocando uma mão ao lado do seu corpo, me apoiando, chego mais perto para lhe dar um beijo. Roço meu nariz em seu rosto, ela prende a respiração, prossigo, deposito um beijo na ponta de seu nariz.
—Eu estou com saudades.
—Henrique... Eu...
—Laura... Você não ta com saudades?
—E... Eu...
Respiro fundo. Cansado disso.
—Laura... Já faz tanto tempo que eu nem consigo me lembrar.
—Eu... Sei...
—E por que... Por que não?
Me levanto, resignado.
—Me diga Laura. O que acontece, por que?
—Henrique...
—Henrique, Henrique, Henrique... Me diga algo além de meu nome! Caramba!
—Henrique.... Você está nervoso, precisa se acalmar...
—Me acalmar? A quanto tempo a gente não transa? Quanto tempo faz que você nem sequer me dá um beijo?
—Ei, fale baixo... Os vizinhos podem escutar.
—Eu não tô nem ai pra p***a de vizinho fofoqueiro. Eu quero uma resposta Laura. AGORA!
Grito a última palavra, fazendo ela pular na cama, por que a raiva me consumiu. Estou cansado! Exausto.
Ela fica em silêncio, lágrimas escorrendo por seus olhos. Ela abaixa a cabeça e fala, tão baixo que se eu não tivesse olhando, não saberia se ela falava mesmo.
—Desculpe Henrique... Eu não consigo...
—Não consegue? Não consegue o que?
—Henrique... Eu não gosto mais de você...
Solto uma gargalhada, irritada.
—Sério, eu nem tinha reparado...
–Não seja sarcástico.
—Sarcástico?
Ela se levanta irritada.
—Sarcástico. Exatamente isso.
—E como você quer que eu fale? Já que carinhoso, amoroso e educado não funcionam.
—Eu não gosto mais de você... Eu estou apaixonada por outro alguém...
Paraliso. Nem sei porquê, se eu já desconfiava disso.
—Eu quero o divórcio Henrique. Eu só não tinha coragem de pedir.
—Mas de falar com outro, usando nossa aliança você tinha.
—Não fale assim Henrique...
Vou até o armário, pego uma mochila, algumas mudas de roupa e saio.
—Onde você vai?
—Você não quer o divórcio? Tô deixando a p***a do caminho livre.
—Você não precisa sair hoje.
—Eu já devia ter saído a muito tempo. Espero que você seja feliz, adeus Laura.
—Henrique....
—Peça ao seu advogado para entrar em contato com o meu.
—Henrique.
—PARA DE FALAR MEU NOME! Laura. Pare.
Ela respira fundo.
—Venho buscar o resto de minhas coisas quando você sair pro plantão.
Viro e saio, entro no carro e dirijo. Sem rumo, apenas vou em frente, depois de algum tempo, encontro um hotel, pago minha estadia por uma semana e subo ao quarto.
Deito na cama do jeito que estou, estou sem forças...
Eu deveria ter tido coragem de fazer isso antes, deveria ter um pouco mais de coragem.
Envio uma mensagem ao meu advogado, informo minha decisão e peço para aguardar contato de Laura.
Durmo.
Eu durmo por 15 horas seguidas, quando acordo, estou com uma enxaqueca terrível.
Tomo um banho, peço um lanche no aplicativo e passo a noite assistindo séries.
Amanhã, irei começar a procurar um lugar para morar.