Na mesma cidade, três meses mais tarde...
Desço do ônibus com o pé direito, foi muito difícil chegar aqui, mais difícil ainda foi deixar minha família na Bahia.
Consegui aqui a oportunidade que tanto queria, não poderia jamais deixar essa chance passar, eu não me perdoaria. Aqui vou estudar direito, quero ser polícial, e quem sabe um dia delegada. Quero tirar minha família das dificuldades da Bahia.
Amo meu estado, minha cidade, mas lá a vida é mais difícil.
Pego um táxi, indico ao motorista onde quero ir e começamos nossa viagem...
Aluguei aqui uma pequena kitnet, também consegui um emprego em uma lanchonete, vou fazer minha entrevista hoje, mais tarde.
A kitnet que aluguei é toda mobiliada, pelas fotos estava tudo ótimo, só precisava de utensílios domésticos, minha mãe me ajudou nessa parte, me mandou algumas coisinhas que vão me ajudar nesse início, sem salário. O pouco de dinheiro que trouxe foram de alguns dias de trabalho que fiz. Mas esse é pro aluguel e para comida.
Minha faculdade, ganhei uma bolsa com 60% nos dois primeiros meses eu também consegui juntar o dinheiro pra pagar.
Chegamos ao local, procurando por seu Alceu, dono do lugar, as pessoas me indicam onde ele está e vou até lá.
—Seu Alceu, bom dia.
Ele estava conversando com uma senhora. Seu Alceu é exatamente como imaginei, que loucura. Um senhor de aproximadamente 50 anos, a barriga um pouco maior que o normal, com a camisa com mais botões abertos que fechados, calça jeans que arrastam debaixo dos pés, e nos pés, apenas um chinelo havaianas.
—Olá, minha querida, você é a Izzi?
Sorrio ao saber que ele ainda lembra meu nome.
—Isso mesmo seu Alceu. Tudo bem com o senhor? Queria saber onde fica minha kitnet.
—Claro, essa é a dona Isabel.
—Olá, dona Isabel, tudo bem?
—Olá querida. Bem vinda.
—Obrigada.
Seu Alceu me leva até onde fica minha kitnet, no terceiro andar do prédio, no segundo bloco. Como nas fotos, é tudo muito ajeitadinho.
—É isso, eu só preciso do primeiro mês de aluguel, o restante dos meses você tem até o dia 15 pra pagar, aqui está o contrato de aluguel.
Leio o contrato, onde consta valores e o que está incluso no aluguel. Televisor, geladeira, móveis, cama, armário e mais algumas coisas. Assino e fico com minha via.
—Fique a vontade Izzi não se preocupe, aqui todos são de família, mas se tiver algum problema, não exite em me avisar, certo?
—Certo, seu Alceu. Muito obrigada.
Ele sai e antes que eu faça qualquer outra coisa, sento em uma das cadeiras e ligo para minha mãe e meu pai.
Depois de conversarmos um pouquinho, vou até o quarto, tiro a roupa de cama que trouxe na mala, coloco na cama, começo a organizar um pouco cada coisinha. Vou para a entrevista só à tarde, mas não vou deixar pra arrumar as coisas só depois.
[....]
—Olá, Izzi. Venha por aqui. Dona Vera e o senhor Cláudio estão te esperando.
Uma simpática moça da lanchonete vem me encontrar e avisa. Sigo ela até onde fica o escritório e entro.
—Olá, como vai.
—Boa tarde.
—Olá dona Vera, sr Cláudio.
—Sente-se.
Me sento na cadeira indicada e eles começam a me explicar como tudo funciona.
—O horário ficou bom pra você?
—Ficou sim, eu vou estudar a noite, então nesse horário está ótimo.
—A gente também faz horas extras, mas você não é obrigada a fazer, caso queira, é duas horas por dia, conforme a lei.
—Entendi.
Eles me entregam a lista de documentos que preciso trazer e assino um de contrato de experiência. Dona Vera me entrega todas as peças do uniforme, que coloco na mochila; me mostra onde fica cada coisa e depois disso, vou embora. Irei começar na segunda, então tenho o fim de semana pra me organizar. Saindo dali, vou até a universidade.
Apresento meu documento e posso entrar pra conhecer onde vou estudar, consigo ver as salas e o campus, e fico encantada com tudo.
Após meu passeio por ali, paro no supermercado e compra algumas coisinhas, é tudo pertinho um do outro, o que também me anima, pois vou fazer esse percurso todos os dias e andando!
—Vou fortalecer as pernas!
Digo entre uma prateleira e outra. Compro tudo que preciso e volto para meu novo lar.
Faço um lanche rápido, um cafézinho e continuo minha organização. Acho que na hora das refeições é que vai dar mais saudades de casa, a comida de minha mãe e a confusão de toda família reunida.
Éramos em cinco, eu, minha mãe, meu pai, meus dois irmãos. Aqueles dois são terríveis, um com quinze anos, outro com treze, conseguem deixar qualquer um de cabelo em pé.
Sorrio ao lembrar disso, coloco a foto de todos na cabeceira da cama.
Tomo um banho e mentalizo o que vou começar a fazer antes de começar a trabalhar e estudar, quero conhecer um pouco a cidade e é isso que vou fazer. Depois focarei em meu trabalho, quero fazer um bom dinheirinho para conseguir ajudar meu pai e minha mãe e focar nos estudos. Vim pra essa cidade, por que aqui depois de algum tempo eu consigo trabalhar como estagiária na delegacia e ver como tudo funciona lá de pertinho. Aqui também teremos uma vez na semana aula penal com o próprio delegado da federal, o que também já me anima bastante, por isso vou me dedicar ao máximo, e fazer o melhor do melhor!
Com esse pensamento deito na cama e durmo, até o novo dia.