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1285 Palavras
Capítulo 13 Perigo narrando Saio do casebre e respiro fundo, sentindo o ar pesado do morro envolver meus pulmões. O cheiro de umidade e pó velho ainda estava presente, e cada passo meu fazia o chão de terra soltar pequenas nuvens de poeira. Pego o celular e ligo para Rd. Não demora muito para ele chegar, a moto dele rasgando o silêncio da tarde. — Acho que seu plano não deu certo — ele comenta, descendo da moto e me observando. — Roberto já descobriu que ela está com a gente. Eu frunzo a testa, apertando o celular com força. — E nós descobrimos onde Saul está — respondo, tentando manter a calma. — Isso é bom. Rd me encara com desconfiança. — Se for ver — ele fala, cruzando os braços — ele está com Saul o tempo todo. Eu só queria saber como ele conseguiu pegá-lo. — Eu também não entendo — confesso, andando de um lado para o outro. — Saul saiu daqui e nunca mais voltou… e agora está nas mãos desse filho da p**a. Rd balança a cabeça. — Sua convidada deve saber de algo — diz, com aquele tom que mistura preocupação e irritação. — Estou nas minhas dúvidas — respondo. — Ela está toda machucada. — Como assim? — pergunta ele, franzindo a testa. — Toda machucada — digo, gesticulando para reforçar. — Cortes, hematomas por todo corpo… apanhou feio dele. Rd respira fundo, olhando para mim. — Alguma coisa está acontecendo — ele fala, sério. — E duvido que ela não saiba de nada. É como quando a Malu estava com você… finge não saber, mas quando aperta, ela sabia de tudo. Eu me lembro de Malu, da forma como ela agia mesmo sob pressão, mesmo apanhando de mim, sempre sabendo mais do que deixava transparecer. — É — digo, lembrando-me — e é por isso que Rd não deixou ela fugir naquela vez. Mesmo ferida, sabia exatamente o que fazer. — Vamos resolver isso logo. Quero Roberto morto na minha frente. — Tá com sede de vingança — ele comenta, quase sorrindo. — Da mesma forma que ele está — respondo, atravessando a pequena clareira à frente do casebre. — Eu prometi que ninguém mais iria morrer por causa desses filhos da p**a. Todos vivos, exceto aquele verme. Rd apenas assente. Abro a porta do casebre com cuidado. Marcela levanta os olhos para nós. Seu rosto está vermelho, inchado, os olhos marejados, revelando que ela tinha chorado muito. Cada respiração dela sai pesada, entrecortada, tremendo. — Marcela, esse é RD, meu primo — apresento. — Rd, essa é a mulher do policial. Ela me observa com medo, retraída. Cada movimento meu parece amplificar seu pânico. — O que vocês querem comigo? — pergunta, a voz saindo trêmula, carregada de choro contido. Confesso que não queria vê-la assim. Tremendo, assustada, ferida. Sinto uma pontada estranha no peito. — Não queremos te fazer m*l — diz Rd, a voz firme, mas tentando soar calma. — Queremos que você nos conte a verdade. — Você casou com Roberto há cinco anos, veio do interior e deixou seu pai lá — digo, pegando o celular e mostrando imagens dele. Ela arregala os olhos, um choque visível em cada gesto. — Meu pai — murmura, a voz falhando, incrédula. — Olha, essa foto é de ontem — digo, mostrando para ela. — Meu pai está vivo! — ela exclama, os olhos brilhando, incrédula. Eu e Rd trocamos um olhar rápido, surpresos com a reação dela. — Ele pode morrer se você não contar tudo que sabe — digo, firme. — Cada detalhe importa. — Eu não sei muita coisa — ela responde, chorando. — Ele não me conta nada… — Laura? — Rd pergunta, olhando-a atentamente. — É amante dele — ela responde, soluçando. — E… e o que mais? — O que mais, Marcela? — insisto, mantendo o olhar fixo nela. — Eu não sei, eu não sei! — ela grita, nervosa, desesperada. — Ele é amante dele… depois que voltamos ao Brasil, ela apareceu pedindo ajuda dele para vingar a morte de Kaio. — Ela era amante de Kaio? Mulher dele? — Rd questiona, incrédulo. Marcela nos encara, com os olhos marejados. — Ela era filha dele — diz finalmente. Eu e Rd ficamos sem reação, absorvendo a informação. — Foi isso que ouvi uma vez em uma conversa deles, mas não sei mais nada. Roberto não me conta. Juro! A única coisa que sei é que eles querem vingança contra vocês por causa da morte do Kaio… e daí, não sei mais nada. Por favor, não me machuquem! — ela implora, sem parar de falar. Rd a interrompe, firme: — Cala boca! — diz, sacando a arma da cintura, e ela arregala os olhos, assustada. Saio andando para fora do casebre, Rd me acompanha. Fechamos a porta atrás de nós. — Ela está mentindo — ele murmura, analisando cada detalhe do corpo e expressão dela. — E por que Laura teria tanta obsessão em querer vingança? — pergunto, ainda inquieto, andando de um lado para o outro. — Imagina quando Jn descobrir que ela era filha de Kaio — Rd responde, passando a mão pelo rosto, pensativo. Eu paro, absorvendo a gravidade da informação. A adrenalina me consome, a raiva cresce dentro de mim, e sem pensar, atiro para o alto com a arma, fazendo ecoar pelo morro. — O que você vai fazer? — Rd pergunta, assustado. — Eu quero Saul — respondo, firme. — Quero ele vivo. — Vai ter que entregar ela — ele responde, sério. — Eu vou bolar um plano — digo, cruzando os braços. — Não vou entregá-la para ele. — Tu tá maluco? — ele pergunta, incrédulo. — Que merda você está pensando em fazer? — Vou dar um jeito de ter contato com Saul — digo, tentando parecer calmo, mas sentindo a tensão borbulhando em minhas veias. — E como você vai saber onde ele está? — ele questiona. — Lembra quando fiquei desaparecido por dias, depois que Kaio pegou a Malu naquela visita íntima de madrugada? — pergunto. Ele me encara, tentando entender. — O lugar onde Saul está… é o mesmo lugar que eu fiquei. Ele está no subsolo da delegacia. — E você acha que vamos entrar lá bem tranquilos? — Rd pergunta, assustado. — Você está ficando maluco. — Alguns dias e meu plano estará pronto, relaxa — respondo, confiante. — Perigo — ele fala, me olhando sério. — Relaxa, eu te aviso — digo, tentando acalmar a tensão. — Vou tentar tirar mais informações dela. — Quer informação dela? Tira ela dali e leva para sua casa — ele sugere. — Ela já confiou em você quando pediu para ir à casa dela. Use isso a seu favor. — Usar ela de novo? — pergunto, desconfiado. — Se Roberto machucou ela daquela forma — ele responde, encarando-me — é porque deve tratá-la assim sempre. Você acha que se você a tratar bem, com carinho, ela não vai confiar em você de novo? — Foi isso que você fez com Malu? — pergunto, lembrando-me do passado. Ele sorri de canto, misterioso. — Só cuida, Perigo, para não se apaixonar e pedir ela em casamento — ele comenta, dando um toque de humor sombrio. — E não esquece: no final de semana, a Joana é sua. Ela fala disso todos os dias. Ele sobe na moto e acelera morro abaixo, deixando apenas o cheiro de gasolina e o eco da moto atrás dele. Eu fico ali, pensando, planejando. O jogo está apenas começando, e a vingança contra Roberto será sangrenta. Mas desta vez, nada vai sair errado.
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