CAPITULO 13

1066 Palavras
Capítulo 13 Arthur Narrando A invasão tinha começado de vez, e os caras vinham pesados, com ódio, querendo destruir tudo e todos. Foram mais de cinco horas de um tiroteio infernal, balas zunindo por todo lado, fumaça, fogo, e eu no meio de tudo isso, com o coração apertado, tentando a todo custo saber onde estava a minha Estela, se ela estava segura, se tinha conseguido se esconder como eu tinha mandado. Em certo momento, percebendo que a nossa situação estava ficando insustentável, que as perdas eram grandes demais, eu falei sério para o Jonas: — Amigo, chega... é melhor você se esconder, procura um jeito de fugir daqui. Nós perdemos muita gente, muitos dos nossos já caíram, e eu vejo moradores sendo mortos da forma mais covilde possível, gente que não tinha nada a ver com nada, só estava no lugar errado. Eu ainda tentava reagir, atirando e derrubando qualquer um daqueles bandidos que eu visse mirando e disparando contra pessoas inocentes, mas aos poucos fui notando que tinha algo muito estranho acontecendo. Eles tinham Caveirão, tinham carros blindados, armamento pesado, tudo igual à polícia, mas... não pareciam ser policiais de jeito nenhum. Tinham um jeito frio, agiam por conta própria, não usavam fardamento, só roupas pretas, cobertos da cabeça aos pés. Mesmo assim, nós continuamos enfrentando, lutando cada palmo de chão, mas eu já via que não ia dar certo. — Jonas, ouve bem o que eu te digo: se as coisas piorarem mais um pouco, você foge, entendeu? Se salva! Eu vou é atrás da minha esposa, eu não saio daqui sem ela. Ele me olhou firme, os olhos cheios de fúria e lealdade, e respondeu com a voz dura: — Amigo, a gente vai junto até o fim. Eu não vou fugir, não vou te deixar sozinho. Vou continuar na linha de frente do seu lado, até o último suspiro. Olhei profundamente nos olhos dele, e falei o que estava guardado no fundo da minha alma: — Jonas... se eu tombar, se eu cair, alguém tem que ficar de pé para prestar conta ao meu pai, para contar a verdade, para não deixar morrer a nossa história. Mesmo assim, ele não me deixou, continuou ao meu lado. Nós conseguimos derrubar um Caveirão, parar alguns carros blindados, matamos muitos deles, mas a nossa perda foi ainda maior. Parecia que eles tinham gente infinita, enquanto nós íamos caindo um por um. Mandei de novo que ele fugisse, que saísse dali, porque não tinha mais jeito de vencer, e eu disse firme: — Eu vou atrás da Estela. Se for para morrer, morreremos os dois, mas eu não vou deixar ela para trás, não vou abandonar a minha mulher. A promessa que eu fiz para ela logo pela manhã está de pé para a eternidade: eu vou protegê-la até a morte. E assim eu vou fazer. Dessa vez ele entendeu, viu que a minha decisão era inabalável. O Jonas pegou o caminho secreto, a passagem que só nós dois conhecíamos, e correu para se salvar, para poder um dia contar tudo. E eu desci o morro correndo, desesperado, o coração me puxando com força para a direção da praça, onde ficava a loja dela. Eu poderia ter ido direto para casa, pensar que talvez ela tivesse conseguido chegar lá, mas algo dentro de mim gritava, me apertava o peito, dizendo que ela não estava em segurança em casa. Algo me puxava direto para a loja, e eu desci aquele morro como um louco, como um homem que já não tem nada a perder. Quando avistei a frente da loja, o meu mundo desabou. Estava toda destruída, portas arrancadas, vidros espalhados, parecia que alguém tinha jogado uma bomba ali. Antes mesmo de chegar perto, troquei tiro com alguns homens que estavam escondidos no beco, e um deles gritou alto, chamando por um nome que eu conhecia muito bem: “Olho!”. Na hora eu tive a certeza: o tal do Olho me traiu, nos entregou para o inimigo. Mas tudo bem... eu sabia que um dia ia pegar ele, e a conta ia ser acertada. Entrei correndo dentro da loja, gritando o nome dela, e foi então que eu vi a cena que vai me assombrar pelo resto da minha vida. Lá estava a minha esposa, caída no meio de roupas e destroços, com a barriga toda aberta, rasgada, e os seus órgãos, as suas entranhas, espalhadas no chão ao seu redor. Um pouco mais à frente, estavam as duas funcionárias dela, com tiros certeiros na cabeça, olhos abertos, vidrados, sem vida. Corri até ela, me joguei no chão ao seu lado, tentando socorrer, tentando juntar o que já estava perdido. Olhei para o rosto da minha Estela, ela sangrava muito, muito mesmo, sangue escorrendo pela boca, pelo ferimento horrível na barriga, pelo nariz, pelos olhos. Eu sabia... eu via naquela cena que ali era o fim, que não havia mais o que fazer, mas eu me agarrei a ela, abracei o seu corpo ensanguentado e falei, chorando, com a voz quebrada: — Fica comigo, amor, por favor, fica! Eu estou aqui, eu cheguei, eu vim te ajudar, eu vim te salvar! Ela abriu os olhos devagar, me olhou de um jeito estranho, como se não me visse direito, como se eu já estivesse longe dela, e sussurrou com a voz quase inaudível: — Eu te amo... cuida dos nossos filhos, por favor... — Não, não, não... fica comigo, continua respirando, fala comigo, continua falando comigo, não me deixa — eu implorava, apertando a sua mão gelada. Ela apertou a minha mão de volta, com a pouca força que lhe restava, repetiu baixinho “eu te amo”, e foi perdendo a força aos poucos. Eu continuei ali, grudado nela, beijando o seu rosto sujo de sangue, pedindo a Deus que levasse a mim no lugar dela. De repente, senti mãos brutas me agarrarem pelos braços, me puxarem para trás com violência. Eram aqueles homens de preto, que voltaram, e começaram a me bater, chutar, socar, enquanto eu me debatia, tentava voltar para perto dela, gritava, esperneava. Naquele momento, eu vi a minha mulher esticar as mãos na minha direção, olhando para onde eu estava sendo arrastado, os olhos dela me seguindo até o último segundo... e então, a mão dela caiu pesada ao lado do corpo, o olhar ficou parado. Ela tinha partido.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR