CAPITULO 9

972 Palavras
Capitulo 9 Arthur Narrando Foi exatamente nesse momento que o silêncio da noite foi quebrado de repente. Ouviu-se um estouro alto, e fogos começaram a romper o céu escuro, sinal de que a invasão tinha começado. A guerra tinha chegado de vez. O morro virou um furacão de gente: era um corre-corre desesperado de todos os lados. Pessoas correndo para dentro de casa, portas sendo fechadas com força, portões de ferro descendo ruidosamente, senhoras apressadas puxando os netos pelas mãos para levá-los para dentro de casa, longe das ruas. O meu coração disparou feito louco, a primeira coisa que pensei foi nela, na Estela. Liguei de novo, liguei várias vezes, mas o celular dela só chamava, ninguém atendia. "Ela deve estar correndo para cá", pensei comigo mesmo, tentando me acalmar. "Ela tem a moto, é rápida, tenho certeza que já está subindo o morro". Não tinha mais tempo para pensar, precisava agir. Descemos correndo para a boca, todos nós prontos para a luta, vestindo os coletes, munidos de fuzis. Quando cheguei lá, já encontrei todos os meus homens posicionados, alguns subindo pelas lajes para terem visão melhor, outros correndo pelos becos, e nós ali, na linha de frente, fazendo a contenção, firmes como rochas. O confronto foi imediato, intenso, com sangue nos olhos de cada lado. O tiroteio era infernal, balas zunindo por todos os lados, fumaça e barulho ensurdecedor. Eu atirava sem parar, derrubando qualquer um que aparecesse na minha frente, defendendo o nosso território com todas as minhas forças. Mas ao olhar ao meu redor, senti um frio na espinha: via os meus soldados caindo um após o outro, cada tiro que acertava era certeiro, bem na cabeça. Percebi na hora: tinha um atirador de elite, um sniper, escondido em algum lugar, mirando e matando com precisão cirúrgica, mas eu não conseguia descobrir de onde ele atirava. O chão pareceu tremer debaixo dos nossos pés com tantas explosões. Mesmo em desvantagem, os meus homens lutaram bravamente: conseguimos derrubar um helicóptero que sobrevoava baixo e parar dois Caveirões, acertados em cheio pelos nossos lança-foguetes e pelo poder de fogo da nossa ponto 50. Mas era muita gente. Os botas subiam o morro feito formigas, um monte deles, pareciam não ter fim, chegando de todos os lados, avançando sem parar. Olhei para o Jonas, ofegante, suado, e percebi que não tínhamos mais condições de segurar a linha. Disse a ele, com a voz embargada pela realidade dura: — Não vamos conseguir fazer frente, irmão... Eles são muitos. Vamos ter que recuar e nos esconder. Eu preciso achar a Estela, tenho que tirar ela daqui com vida. Você corre, se esconde, não bota a cara pra fora por nada, entendeu? Aconteça o que acontecer, se salve! O meu coração já estava apertado num nó, eu não sabia mais o que fazer, só sentia um desespero crescendo dentro de mim. O Jonas obedeceu, correu morro acima e entrou num beco estreito, um caminho que nós conhecíamos muito bem, que levava a um esconderijo grande, de onde havia um túnel que saía do outro lado, direto para a mata. Ele estava salvo, ou pelo menos tinha chance. Mas eu não podia ir com ele, não sem a minha mulher. Desci o morro correndo, desesperado, indo na direção da loja dela. O meu instinto gritava que ela não tinha conseguido sair, que ainda estava lá. Quando me aproximei, o que eu vi me fez parar no lugar, sem acreditar. A fachada da loja estava destruída, as portas de ferro todas explodidas, jogadas longe, vidros espalhados por todo lado. Entrei correndo, gritando o nome dela, e foi então que eu vi uma cena que vai ficar gravada nos meus olhos para o resto da minha vida, uma visão que eu nunca quis ter. Lá no meio de tudo, caída sobre um monte de roupas que estavam espalhadas pelo chão, toda ensanguentada, estava a minha Estela. Duas das suas funcionárias também estavam caídas ao lado, sem se mexer. Meu mundo desabou. Corri até ela, me joguei no chão, a segurei nos meus braços, limpando o sangue que escorria pelo seu rosto, chamando por ela, implorando: — Fica comigo, amor, por favor, fica comigo! Eu estou aqui, eu cheguei, não me deixa! Ela abriu os olhos com muita dificuldade, me olhou com aquele olhar que sempre foi só meu, e com a voz fraca, quase um sopro, disse as últimas palavras que eu ouviria dela: — Foge... Arthur... foge e cuida dos nossos filhos... E ali, nos meus braços, eu vi a vida dela se indo, vi o brilho dos seus olhos se apagando, senti o corpo dela ficar mole. Comecei a gritar, um grito de dor, de desespero, de ódio, que saiu do fundo da minha alma, sem controle. Eu não queria acreditar, não podia ser verdade. De repente, senti um empurrão forte, um solavanco, e mãos brutas me puxaram para trás, me arrancaram de perto dela. Ouvi uma voz dura, zombando de mim: — Perdeu, vagabundo! Agora acabou pra você! Eu ainda olhava para ela, ali no chão, vendo o sangue escorrer pela sua boca e vendo a sua barriga... minha nossa, a barriga dela estava toda aberta, estourada... Eu gritava, esperneava, chamava por ela, enquanto os caras riam da minha dor, me arrastavam morro abaixo, me jogavam contra o muro e me algemavam com força. Eu percebi tudo então: tinha armadilha, tudo foi preparado direitinho para me pegar. Me levaram até um beco escuro, pararam, e um deles levantou a arma, apontou para mim. Senti apenas uma queimadura forte, uma dor aguda que tomou conta do meu corpo, um calor que subiu rápido. Depois disso, tudo escureceu. Eu apaguei, caí no vazio, não vi mais nada, não senti mais nada, levando comigo apenas a imagem da minha mulher morta e o coração partido em mil pedaços.
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