O sangue fervia nas minhas têmporas. A cada minuto que passava sem notícias de Zaya Oliveira, o caso cheirava mais a queimado, e o que restava da minha paciência tinha ficado em algum lugar entre o café frio e a insolência dessa mulher na minha frente.
Fechei a porta da sala revirada, tv sobre poltrona, sofá revirado, tapete largado, tudo uma zona largada pelos os meus homens, e o estalo do trinco pareceu um gatilho. Eu a encurralei contra a parede, ou contra a minha própria sanidade, já nem sabia mais. Toda aquela história parecia me levar para um novelo sem ponta, sem fio algum para se apegar.
— Então me prenda, delegado — ela sussurrou, e a voz dela agora era um desafio que me atingiu no baixo ventre. — Me prenda, me revista, faça o que quiser... mas pare de perder tempo e encontre a Zaya.
O desafio estava lançado. Ela estava entregue ao ódio, e eu estava perdendo a guerra contra o meu próprio controle. Envolvi a nuca dela com uma das mãos, os dedos se perdendo naquele cabelo indomável, forçando-a a olhar para mim. Eu conseguia sentir o calor da respiração dela na minha pele.
Eu era um ignorante? Talvez. Mas ali, entre o sumiço da irmã e o cheiro de carro queimado, a única coisa que parecia real era a vontade de esmagar aquela insolência dela contra a minha boca e descobrir se ela tinha o mesmo gosto de perigo que exalava. O silêncio na sala era tão denso que eu podia ouvir os nossos batimentos se atropelando. Eu estava a um centímetro de mandar o meu distintivo e a minha carreira para o inferno por uma marmita de bandido qualquer, a sua boca me afrontava, como um convite ao desemprego ou para a morte.
O silêncio na sala foi subitamente devorado pela eletricidade entre nós. Eu vi o desafio nos olhos dela, vi a dor se misturando com uma entrega que me deu um soco no juízo. Eu não era um homem de dúvidas; eu era um homem de ação. E naquele momento, a única ação que meu corpo entendia era silenciar aquela boca atrevida que me chamava de ignorante enquanto me incendiava.
Eu não a beijei com delicadeza. Eu a tomei.
Minha boca colidiu com a dela em um choque de dentes e urgência. Foi um beijo com gosto de fúria e de uma fome que parecia acumulada há anos. Isabel soltou um som baixo, um misto de surpresa e desejo, enquanto suas mãos, que antes me empurravam, subiram para os meus ombros, agarrando o tecido da minha camisa com força.
Ela era quente, viva, e correspondia ao meu toque com uma intensidade que quase me fez esquecer que estávamos dentro da casa da vitima e do culpado. Puxei seu corpo com mais força contra o meu, sentindo cada curva, cada centímetro daquela pele bronzeada que cheirava a perigo. Meus dedos se enterraram no seu cabelo, mantendo-a presa a mim, enquanto minha língua explorava a dela com uma possessividade que eu não tinha o direito de sentir.
O mundo lá fora, o carro queimado, os suspeitos, o distintivo, deixou de existir. Só havia o calor daquela mulher e a forma como ela se arqueava contra mim, querendo mais, pedindo por um alívio que só aquele fogo mútuo podia dar.
— TOC! TOC! TOC! — O som da madeira sendo golpeada foi como um tiro de advertência.
— Delegado Vitorio? — A voz do sargento Batista veio do outro lado, abafada mas urgente. Eu me afastei bruscamente, a respiração tão pesada que meus pulmões chegavam a doer. Meus lábios ainda formigavam com o gosto dela, e o olhar que Isabel me lançou, nublado, lábios inchados e as bochechas coradas, quase me fez mandar o sargento para o inferno.
Passei a mão pelo cabelo, tentando reorganizar meus pensamentos enquanto o sangue ainda latejava nas minhas têmporas. Isabel recuou um passo, ajeitando a blusa com as mãos trêmulas, mas não desviou o olhar. O desafio ainda estava lá, mas agora havia algo mais: uma marca que nós dois sabíamos que não seria apagada.
— Entra! — Rosnei para a porta, sem tirar os olhos dela por mais um segundo.
A porta se abriu e Batista entrou, parando o olhar entre mim e Isabel, sentindo que o ar na sala estava espesso o suficiente para ser cortado com uma faca.
— Delegado... — Batista limpou a garganta, desconfortável. Meus lábios ainda queimavam com o gosto de Isabel. Batista entrou, os olhos desviando do estado desalinhado de Isabel, mas a urgência no seu rosto era absoluta.
— Delegado, o Zamutti acabou de sair. Ele pegou o carro em alta velocidade e não parece que está indo para casa. O rastreador que colocamos por precaução aponta para a zona norte.
— Para a favela? — Perguntei, ajeitando a minha arma na cintura.
— Exato. Ele está entrando em área de risco. Devemos seguir?
— Agora! — Rosnei. Olhei para Isabel. Ela estava pálida, os lábios inchados pelo meu beijo, mas os olhos ainda brilhavam com aquela lealdade cega ao cunhado. — Fica aqui, Isabel. É uma ordem.
— Eu vou com você! — Ela rebateu, mas eu já estava no corredor.
Não esperei e certamente vir, ela não viria, já que a sala estava lotada de meninos para todos os tons, havia negros, morenos, até uma loirinha de olhos verde jazia naquela sala.
O motor da viatura descaracterizada rugiu enquanto eu cortava o trânsito, ignorando sinais vermelhos. O GPS de Batista indicava o caminho. Marcos Zamutti, o "homem perfeito", o "esteio da família", estava se enfiando em um dos buracos mais perigosos da cidade. Por quê? Só havia uma resposta na minha cabeça: queima de arquivo ou acerto de contas.
Entramos na comunidade sob olhares hostis. O carro de Marcos estava parado no final de um beco sem saída, sob a sombra de um galpão abandonado. Estacionei a duas quadras e seguimos a pé, nos movendo pelas sombras.
O que vi ao dobrar a esquina fez o meu sangue gelar.
Marcos estava lá, de pé, cercado por três homens armados com fuzis. A postura dele não era de medo. Era de negociação. Um dos sujeitos, um tipo magro com cicatrizes no pescoço, entregava algo para ele algo como um maço de notas ou um documento, não dava para ver de longe, enquanto apontava para o fundo do galpão.
— É o contato — Batista sussurrou ao meu lado, já destravando a arma. — Esses certamente foram os caras que sumiram com a mulher.
A imagem de Isabel defendendo a "pureza" do cunhado brilhou na minha mente como uma piada de mau gosto. Ela estava sendo enganada por um mestre. Ou pior, ela era o álibi perfeito dele.