Diogo Vitorio
A minha paciência para as segundas-feiras terminava exatamente às dezoito horas. Depois disso, o que restava era um resíduo de café amargo no estômago e o peso de um distintivo que parecia cada vez mais difícil de carregar. O corredor da delegacia estava um caos, um zumbido de vozes que eu pretendia silenciar com um único olhar.
— Se não tiverem o número do protocolo, não me façam perder tempo! — Rosnei, abrindo a porta da minha sala com força suficiente para fazer o trinco reclamar.
Eu estava pronto para despachar qualquer um que estivesse ali, até que os meus olhos encontraram os dela.
No meio de um grupo de pessoas desesperadas, ela sobressaía como uma labareda num campo de cinzas. Pele bronzeada pelo sol, um sol que não entrava nesta esquadra há anos, cabelos que pareciam ter vida própria e um olhar que, em vez de se desviar por medo da minha autoridade, fixou-se em mim com uma intensidade quase física.
Senti uma descarga elétrica percorrer a minha espinha, algo que não acontecia há muito tempo. Mas eu não era homem de me deixar levar por impulsos. Analisei-a. Ela estava exausta, os olhos levemente inchados, mas havia uma dignidade naquela postura que me irritou profundamente. Porque a atração, quando vem desacompanhada de controlo, é apenas um obstáculo.
— Delegado, por favor... é sobre o desaparecimento de Zaya Oliveira — um sujeito ao lado dela gaguejou.
Zaya Oliveira. O boletim que eu tinha em cima da mesa. O marido suspeito, os detalhes que não batiam. Olhei para a mulher à minha frente novamente. O meu instinto de polícia disse-me que ela era a chave; o meu instinto de homem disse-me que ela seria o meu inferno.
— Mais uma mulher que cansou do marido e foi dar uma volta? — Soltei a frase com o máximo de desdém que consegui reunir. Era uma técnica. Eu precisava de uma reação. Precisava de ver quem ela era sob pressão.
E ela não me decepcionou.
A mulher deu um passo em frente, invadindo o meu espaço pessoal. O cheiro dela, algo doce, como fruta madura, misturado com o calor da pele atingiu-me como um murro. Vi o brilho de desafio nos seus olhos. Ela era atrevida, desbocada e possuía uma boca que, por um segundo pecaminoso, eu desejei silenciar de uma forma que nada tinha a ver com a lei.
— Minha irmã não é de "dar voltas", delegado — ela retorquiu, a voz firme, embora eu pudesse ver a veia no seu pescoço pulsar rapidamente. — E se o senhor fosse metade do profissional que a sua fama diz, estaria fazendo perguntas em vez de dar palpites idiotas.
O silêncio no corredor tornou-se denso. Ninguém falava assim comigo na minha unidade. Inclinei a cabeça, medindo a distância entre nós, sentindo a tensão s****l vibrar no ar como um fio de alta tensão prestes a partir. Ela era insolente, mas tinha razão. E aquela combinação de coragem e vulnerabilidade era a coisa mais perigosa que eu já tinha visto.
— Atrevida — murmurei, apenas para ela ouvir.
Apertei a mandíbula para não deixar transparecer que o meu coração tinha decidido acelerar. Dei-lhe as costas, sentindo o peso do olhar dela nas minhas costas, o que só serviu para me deixar ainda mais tenso. Eu precisava de manter a distância. Se eu me aproximasse demais daquele fogo, acabaria por me queimar e eu tinha um caso para resolver.
— Entra na minha sala. Agora. — Ordenei, sem olhar para trás.
Eu sabia que, assim que aquela porta se fechasse atrás dela, o interrogatório não seria apenas sobre o desaparecimento de Zaya. Seria sobre o quanto eu conseguiria resistir antes de perder o controlo que tanto me esforçava por manter.