Quatorze

1183 Palavras
Eu liguei para a Romana pela décima terceira vez. Caixa postal. De novo. Fiquei encarando o celular como se ele pudesse me dar uma resposta diferente só pela força da minha vontade. Tudo o que aconteceu foi terrível, ela ter me encontrado com a Clara desse jeito terrível, eu preciso me explicar, eu preciso contar tudo o que realmente acontece entre a gente. Mas ela não responde Mas naquele dia, nada. Saí do meu quarto da casa dos meus pais com o coração pesado e encontrei a Bia no corredor. Minha irmã estava pálida, andando de um lado para o outro com o celular grudado no ouvido. — Como assim? — ela dizia, a voz trêmula. — Não, isso não pode estar certo... Parei imediatamente. — Bia? Ela levantou a mão pedindo silêncio. O desespero no olhar dela fez meu estômago afundar. — A senhora tem certeza? Os vizinhos viram? — a voz dela falhou. — Um carro preto? Senti o sangue gelar. Quando ela desligou, ficou alguns segundos parada, encarando o nada. Então olhou para mim. — Dorian... — O que aconteceu? Ela respirou fundo, como se as palavras pesassem toneladas. — Eu estava falando com a mãe da Romana. Os vizinhos disseram que... — ela engoliu em seco — que homens em um carro preto pegaram ela na frente de casa. Levaram embora. O mundo pareceu inclinar. — Não. A palavra saiu fraca, quase infantil. — Dorian, eles disseram que foi rápido. O carro parou, eles puxaram ela e... Eu já não ouvia mais o resto. Meu coração começou a bater tão forte que doía. Uma onda de culpa me atravessou. Eu devia estar lá. Devia ter buscado ela. Devia ter insistido. Mas culpa não resolve nada. Eu faço parte do sistema de inteligência da polícia. Passei anos aprendendo a não surtar, a pensar com frieza quando tudo está pegando fogo. Só que nunca me ensinaram como manter a cabeça fria quando a pessoa que você ama é a vítima. Respirei fundo. Uma vez. Duas. — Bia, fica aqui. Não sai de casa. Vou tentar resolver isso. Peguei as chaves, o notebook e saí. Na sede, não perdi tempo com formalidades. Usei meus acessos. Câmeras públicas da rua. Trânsito. Estabelecimentos próximos. As mãos tremiam no teclado, mas minha mente estava afiada. Lá estava. Um sedã preto. Vidros escuros. Parando exatamente às 16h42. A imagem não mostrava detalhes do que aconteceu na calçada, mas vi o momento em que o carro arrancou rápido demais. Ampliei a imagem. Congelei o frame. Placa parcialmente visível. Corri o contraste. Ajustei brilho. Cruzei com o banco de dados de veículos. — Vamos... vamos... O sistema apitou. Placa confirmada. Veículo registrado com documentação aparentemente limpa. Mas o rastreador de pedágios contou outra história. Última leitura: 18h07. Zona industrial. Meu peito apertou. Abri as câmeras da região. Levei alguns minutos até encontrar o carro. Ele estava lá. Parado. Em frente a um galpão abandonado, com janelas quebradas e portão enferrujado. Ampliei a imagem. Nenhum movimento visível do lado de fora. O silêncio da tela era pior que qualquer grito. Meu telefone vibrou. Era a Bia. — Você descobriu alguma coisa? — ela perguntou, a voz frágil. — Descobri. Houve um segundo de silêncio. — Onde ela está? Olhei para a imagem do galpão. O céu já começava a escurecer ao fundo. — Eu sei onde ela está — respondi. E naquele momento, uma coisa ficou clara. Eu não ia esperar. Fechei o notebook, peguei minha arma do cofre e saí da sala. Cada passo até o carro parecia ecoar como um aviso. Se eles tocaram nela... Balancei a cabeça. Não. Foco. Dirigi em direção à zona industrial com uma única certeza queimando dentro de mim: Eu vou trazer a Romana de volta. De qualquer jeito. O galpão cheirava a ferrugem e poeira. Estacionei a alguns metros, apaguei os faróis e fiquei alguns segundos parado dentro do carro. Meu coração batia alto demais. Não de medo. De fúria. Empurrei o portão lateral, que cedeu com um rangido baixo. Entrei devagar, arma em punho, cada passo calculado. Foi quando ouvi. — Dorian! — a voz dela cortou o ar. Romana. Corri o olhar pelo interior escuro até encontrá-la. Ela estava amarrada a uma cadeira no centro do galpão, lágrimas escorrendo pelo rosto, tentando se soltar. E eles estavam ali. Três homens. Eu reconheci os rostos imediatamente. Os mesmos que dias antes estavam rindo, bebendo e apostando com o pai dela... como se pessoas fossem fichas de jogo. Um deles segurava o queixo dela à força. — Solta ela. Minha voz saiu baixa. Perigosa. Eles viraram ao mesmo tempo. — Olha só — um deles riu. — O herói chegou. Outro homem, mais alto, deu um passo à frente. — Você perdeu, Dorian. O pai dela apostou de novo. E dessa vez eu ganhei. Meu estômago revirou. — Ela não é prêmio de ninguém — eu disse. O homem que estava perto dela inclinou o rosto como se fosse provocá-la ainda mais. Foi automático. Eu atirei. O som ecoou pelo galpão. Ele caiu no chão, imóvel. Silêncio. Os outros dois congelaram por meio segundo — o suficiente. O mais alto me encarou com ódio. — Você não devia ter feito isso — ele rosnou. — Ela é minha agora. E você não tem ideia do que já— Eu não deixei ele terminar. Avancei. O segundo disparo acertou o braço de um deles, que deixou a arma cair. O outro tentou correr para o lado, mas eu já estava em cima. A raiva tomou conta. Não era técnica. Não era treinamento. Era instinto. Troquei golpes com o primeiro, derrubei o segundo quando tentou me atingir por trás. A luta foi rápida, brutal, confusa. Eu não sentia os próprios socos, só o impacto. Eles caíram. E não levantaram. O galpão voltou ao silêncio. Minha respiração estava pesada. Minhas mãos tremiam. — Dorian... — a voz dela saiu fraca. A raiva evaporou na mesma velocidade que tinha surgido. Corri até ela, ajoelhei na frente da cadeira e comecei a desfazer as cordas. — Ei... ei... eu tô aqui — sussurrei. As mãos dela estavam frias. Assim que se soltou, ela me abraçou com força, como se tivesse medo de que eu desaparecesse. — Achei que você não vinha... — ela chorava. — Eu sempre venho. Segurei o rosto dela, verificando se estava machucada. Havia marcas nos pulsos, mas ela estava ali. Viva. Isso era o que importava. Ouvi sirenes distantes ao longe. Alguém devia ter chamado a polícia depois do disparo. Eu sabia o que aquilo significava. Olhei para os homens caídos no chão. Depois para minhas mãos. Eu fazia parte do sistema de inteligência da polícia. Eu deveria seguir protocolos. Mas ali, naquele momento... eu tinha cruzado uma linha. — A gente precisa ir — falei. Ajudei Romana a levantar. Saímos pelos fundos do galpão antes que as viaturas chegassem. Enquanto dirigia para longe dali, ela segurava minha mão com força. E eu só conseguia pensar em uma coisa: Eu salvei ela. Mas talvez tenha perdido uma parte de mim no processo.
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