Não que o sol estivesse de fato forte, mas ainda assim os fracos raios foram capazes de acordar Tomlinson que, a princípio, gemeu baixinho como se reclamasse mas, em seguida, ficou mais desperto. Levou um tempo para lembrar do que tinha acontecido, porém ao olhar para o lado oposto à janela que brilhava pelo sol, suspirou ao ver os cachos escuros espalhados pelo travesseiro ao seu lado, num sono profundo. Louis poderia até mesmo jurar que Harry Styles dormia sorrindo.
O agente olhou ao redor e percebeu-se em seu quarto, nu por baixo do lençol e não precisou olhar para saber que provavelmente Harry também estava despido. Não sabia exatamente como sentia-se em relação aos seus sentimentos e emoções, mas tinha que admitir que t*****r a noite inteira era algo que fazia uma certa falta em sua vida em todos aqueles anos e ele nem sabia. Especialmente quando aquilo se tratava do homem que ele amava, e percebia isso porque vê-lo dormir: era uma das cenas mais tocantes que ele já presenciara. Os olhos fechados e a respiração tranquila quase faziam Louis querer deitar novamente e apenas assistir o outro lhe transmitir aquela paz que há muitos anos não sentia.
Mas levantou-se. Seguiu seu bom e velho lado racional — o qual estava sendo deixado um pouco de lado, devido aos claros deslizes desde que Styles voltara em sua vida — e andou até o banheiro, fez sua higiene matinal, tomou um banho rápido e, ao lembrar que era sábado, não preocupou-se em barbear-se ou em arrumar os cabelos do seu jeito tradicional e que pouco lembrava a rebeldia de quando era adolescente.
Olhou Harry novamente antes de sair do quarto e o moreno alto não parecia dar indícios de que estava pronto para acordar. Louis andou até a cozinha, fez uma omelete apenas com ovos e sal, cortou dois tomates-cereja ao meio e seu café da manhã estava pronto. Passava das dez e meia e aquele silêncio típico de seus finais de semana estava quase obrigando-o a voltar a pensar em Harry e no rumo que as coisas estavam tomando. Talvez fosse hora mesmo de ser sincero e dizer a ele o que e como se sentia.
Passados vinte minutos de um Louis Tomlinson imerso em pensamentos, olhando pela janela de sua sala, passadas lentas o fizeram voltar à realidade. Não que qualquer pessoa fosse capaz de perceber aquilo, mas Louis era policial e não conseguia desligar seu constante estado de alerta. Girou o corpo e deu de cara com um Harry Styles ligeiramente m*l humorado, mas Tomlinson não conseguiu segurar o sorriso que se formou no canto de seus lábios ao vê-lo apenas de cueca branca e com os cabelos bagunçados.
— Bom dia. — Louis disse devido ao silêncio do outro. Pôs as mãos nos bolsos da calça de moleton cinza que vestia, mas não moveu-se de onde estava.
— Sua noiva estava ligando. — Harry disse jogando o celular de Louis em cima do sofá sem muito cuidado. Styles andou de volta pelo corredor de onde veio e Louis franziu o cenho. Por dois motivos: primeiro que há muito tempo não falava com Eleanor e, segundo, não estava entendendo de onde aquela atitude atípica de Harry estava vindo.
Tomlinson pegou o celular e viu duas chamadas de Eleanor, imaginou ser importante, já que não haveria qualquer motivo casual para que sua ex-noiva ligasse num sábado de manhã. Mas não era aquilo que o estava incomodando ou preocupando, mas sim o fato de Harry parecer não ter gostado muito daquilo e Louis, obviamente, o seguiu até o quarto deixando o celular onde Harry havia jogado inicialmente.
Quando chegou ao cômodo, ouviu barulho do chuveiro e resolveu apenas esperar. Sentou-se na cama e, de leve, pôde sentir o cheiro de Harry nos lençóis e travesseiros e pensou no quanto aquilo tiraria sua paz para o resto da vida caso ele tentasse dormir sozinho por ali de novo. As roupas do hacker estavam no chão, assim como a cueca que usava na noite anterior. Louis não lembrava da última vez em que seu quarto estivera tão bagunçado.
Ouviu o chuveiro ser desligado e levantou-se ficando em frente a porta do banheiro da suíte, como se impedisse que Harry passasse por ela. Assim que o moreno alto abriu a porta, sobressaltou-se. Estava com a toalha de Louis na cintura e os cabelos molhados. Não precisou nem tentar passar para saber que Louis não o deixaria ir a lugar algum.
— Louis, eu não estou com tempo para o seu sermão de arrependimento sobre o que aconteceu ontem. — Styles começou suspirando e Tomlinson apenas arqueou as sobrancelhas. — Sei tudo que vai dizer, que foi um erro e blá blá blá, que não podemos fazer isso, que é errado, que não vai mais acontecer... — E antes que Styles pudesse continuar, Louis o segurou pela nuca e, praticamente ficando na ponta dos pés, o beijou no mais perfeito e eficaz "cala a boca" que alguém poderia pedir.
Styles, apesar de cogitar bancar o difícil naquela hora, não apenas correspondeu o beijo, como abraçou Louis pela cintura de uma forma mais carinhosa que o normal, como se realmente tivesse medo que ele fugisse a qualquer momento. Os lábios colados deram início a um beijo mais tranquilo conforme Louis parecia acalmar o hacker, que esqueceu-se por um segundo o porque de estar aborrecido.
Assim que seus rostos se afastaram, Harry tentou segurar o sorriso mas não conseguiu. Na realidade, Louis estava mesmo torcendo pra que aquilo acontecesse, simplesmente não conseguia encontrar palavras para descrever o quanto aquele sorriso lhe fazia bem e aquecia seu coração.
— Eu sabia da sua implicância com a Eleanor, mas não lembro de você ser do tipo ciumento. — Tomlinson disse olhando nos olhos de Styles, mas Harry não sustentou o olhar, era como se estivesse sido pego no flagra e corou antes de tentar se explicar.
— Não é bem isso, Lou... — Styles disse, mas Louis nem estava prestando muita atenção. Harry Styles sem graça era algo que ele quase queria patentear. — Ok, eu prefiro ser acordado por você ou pelo menos com você ao lado, do que sua noiva ligando. — Ele admitiu o ciúmes e fez Louis rir, porque agora fazia um bico com os lábios mostrando para Louis que sim, era possível Styles fazer ele se apaixonar ainda mais.
— Ex-noiva. — Louis corrigiu sem tirar o sorriso dos lábios. — Estou surpreso que se importe com isso sendo que, tecnicamente, você foi a razão de ela ter me deixado.
— E não quer voltar com ela? — Harry já sabia a resposta, mas queria ouvir do mesmo jeito.
— m*l posso acreditar que está me perguntando uma coisa dessas depois das últimas noites que temos passado juntos. — Louis disse rindo enquanto se afastava, dando espaço para o outro passar na porta. — Entendo o que ela fez, talvez eu faria o mesmo. Sofri pela falta de responsabilidade para com a seriedade do meu relacionamento com ela, diria até que foi falta de hombridade da minha parte em não honrar o compromisso que me propus honrar quando a pedi que se casasse comigo... — Tomlinson parecia nunca ter dito aquelas coisas em voz alta e, apesar de Harry entender o posicionamento do outro, Louis m*l podia crer que de fato estava admitindo aquelas coisas. — Mas nem por um minuto pense que pretendo reatar o que quer que seja com ela.
— E por que ela está ligando? Achei que não mantivessem contato. — Styles disse enquanto desenrolava a toalha da cintura.
— E não mantemos. — Tomlinson foi rápido na resposta e era verdade. Não falava com ela há anos, provavelmente desde que terminaram. — Não sei porque ela está ligando, mas vou retornar.
O agente concluiu educado, mas Harry não gostou muito de ouvir aquilo. Apesar de saber que não tinha motivos pra sentir aquela insegurança — até mesmo porque desde quando virava a noite com Louis ao telefone, sabendo que Eleanor era sua noiva, ele não se sentia intimidado, não sentia que deveria temer perder Louis pra ela, pois tinha certeza que o agente estava se apaixonando por ele.
Mas dessa vez era diferente, pois teriam que recomeçar. Ficaram anos sem trocar uma palavra e, no fundo, Styles tinha medo que Louis o tivesse esquecido. Mesmo preso, mesmo por muitas vezes ele tivesse sentido raiva de Louis por nunca visitá-lo, Harry nunca foi capaz de esquecer a voz daquele homem, seus olhos, a seriedade constante em sua expressão e especialmente de seu sorriso, suas mãos e das vezes que conseguia fazê-lo até mesmo gargalhar no telefone. Tudo que Harry menos precisava agora era a sombra de uma mulher que havia sido tão importante na vida de Tomlinson.
— Não sinto nada por ela. — Louis disse devido ao silêncio do outro. Ele estava sério e não reclamou quando Harry abriu um de suas gavetas pra pegar uma cueca dele pra usar. — Tive cinco anos longe de você para reatar com ela e eu nunca quis. — O agente levantou-se e andou na direção do hacker, que estava mais afastado buscando suas próprias roupas no chão. — Harry, olhe pra mim.
Foi uma das raras vezes em que Styles ouviu Louis falar com ele daquele jeito: pedindo simplesmente e não com ares de quem estava dando uma ordem. Quando virou-se para encarar os olhos azuis de Louis, Harry sentiu até mesmo suas pernas relaxarem e sua expressão facial se contrair menos, desfez o cenho franzido e permitiu-se respirar mais resignado. Louis tocou seu ombro e ele não conseguiu conter aquilo, rendeu-se, segurou em uma das mãos do agente e fez o que ele pediu: olhou pra ele.
— Eu lutei tanto contra isso e falhei todas vezes. — Tomlinson começou percebendo que Harry voltava ao normal. — Não consigo ficar longe de você, não consigo me controlar estando no mesmo ambiente... Entende por que nunca fui te visitar? Eu não aguentaria te ver lá, daquele jeito, sem poder te tocar... Tudo soa tão inapropriado, preciso que entenda o quanto isso é difícil pra mim... — Louis falava tão baixo e de um jeito um pouco confuso e Harry teve certeza que ele, numa das raras vezes, simplesmente falava sem pensar, sem ensaiar. Era bom ouvir Louis sendo espontâneo só pra variar.
— Me perdoe, eu não consigo te entender as vezes, sei que pressiono... — Harry acariciava os cabelos ligeiramente bagunçados do agente, num dos raros momentos em que conseguia tocar os fios sem ter que lidar com o gel no meio deles. — Eu amo você, Lou.
Era um daqueles raros momentos em que, mesmo que Harry não estivesse esperando ouvir o mesmo em troca, Louis não conteve o nervosismo. Todas as vezes que Styles abria seus sentimentos daquela forma escancarada, Louis ficava com medo. Era quase um sistema de autodefesa, era como se, no momento em que ele dissesse em voz alta que o amava também, tudo se tornaria tão real que não havia maneiras de se voltar atrás. O silêncio entre os dois tornou-se uma expectativa grande, mas foi sem querer, Louis não teve aquela intenção. Os olhos de Harry Styles estavam grudados nos de Louis, que tentava não desviar mesmo sentido que quanto mais ele demorasse para dar aquela resposta, pior a situação ficava.
— Eu acredito em você. — Foi a única coisa que Tomlinson conseguiu dizer apesar de não ser o que ele queria de fato admitir. Era verdade, ele acreditava, mas queria poder verbalizar o que todo mundo gostava de ouvir quando dizia que amava alguém: mas o "eu também te amo" de Tomlinson ainda era uma barreira a ser quebrada.
Styles não se importou, porque ele já sabia. Abraçou o agente por longos segundos, puxou-o contra si, apertava seu corpo e sentia seu cheiro como se fosse uma espécie de combustível de vida, de energia e de força. Ele sabia muito bem que Louis o amava com tudo que podia e iria respeitar o tempo que ele precisasse para se expressar em forma de palavras. Styles não tinha pressa, lembrava-se da noite anterior, da forma como Louis o beijava e se deixava ser amado, tocado, penetrado e permitia-se não se esconder de nenhum sentimento que, através daquela forma, tornava-se tangível, tocável e com uma única forma própria.
— Quer fazer alguma coisa comigo hoje? — Styles disse afastando-se do agente, que sorriu aberto em resposta, quase rindo do quanto aquilo soava infantil e adorável.
— Quero. — O agente respondeu totalmente inseguro, mas rindo. Não sabia exatamente o que esperar daquele convite e se Harry sequer tinha algo em mente. — O que quer fazer?
— Na verdade, nada muito sofisticado, mas está chovendo pra c*****o, pra variar, então pensei que a gente poderia ficar em casa e assistir algo meio "estilo Louis". — Harry disse rindo, fazendo uma careta engraçada, que lembrava a mesma que Tomlinson lembrava ver no espelho quando Harry usava seu chapéu Panamá e achava que seu nome do meio era "George".
— "Estilo Louis"? — O agente perguntou rindo, mostrando os dentes bonitos.
— É, esses filmes sérios aí, tipo cinema europeu, preto e branco, francês. — Harry dizia confuso, sem saber se explicar direito, mas ria porque Louis estava praticamente gargalhando. — Com legendas e tal.
— Adoraria sentar no sofá, tomar um chá Earl Grey e ouvir o que você pensa de mim e nunca me disse. — Tomlinson dizia ainda divertido, mas realmente estava surpreso em ouvir aquelas coisas, imaginava que Harry o conhecia bem, mas era engraçada a forma como ele praticamente admitia que via Louis como um engomadinho.
— Também me parece uma ótima ideia. — Harry respondeu voltando a beijar o agente que correspondeu sorrindo. Tinham ambos descoberto que a partir de agora, não conseguiriam manter suas bocas muito tempo longes uma da outra.
— Vou ligar pra Eleanor. — Louis disse com medo de quebrar o clima, mas Harry continuou apenas roçando devagar seu nariz no dele, não dando muita importância ao ouvir aquilo. Ele mordeu o lábio de Louis, que reclamou, mas riu em seguida.
— Vou me vestir. — Styles dizia enquanto deixava o quarto de Louis e o agente andava até a sala a fim de pegar o celular para retornar as duas ligações perdidas.
Não estava realmente preocupado com nada, mas era estranho mesmo ouvir falar de Eleanor Calder depois de tantos anos. Será que ainda estava em Londres ou tinha voltado a dar aulas na Universidade de Oxford? Não fazia ideia, mas talvez até seria interessante falar com ela, pensava no que poderia ouvir de volta enquanto esperava que a bela atendesse o telefone.
— Louis. — Ela disse e, a primeira coisa que o agente pensou, era que de fato a voz dela não havia mudado em nada. Ela atendeu naturalmente amigável, sem forçar nenhum tipo de tom de voz ou exclamação.
— Como está, Eleanor? — Louis tentou o mesmo, mas soou um pouco mais formal do que queria. — Não pude atender antes, desculpe.
— Não há problemas, é sábado de manhã, eu que deveria estar pedindo desculpas. — Ela disse simpática e Louis sorriu como se ela pudesse ver. — Estou bem, e você?
— Está tudo bem. — O agente não queria parecer apressado em ir direto ao assunto, mas não tinha nada que pudesse de fato alongar a conversa. — Há algo em que eu possa ajudar?
— Na verdade sim, mas gostaria de falar do assunto pessoalmente se não se importar. — Ela disse casual mas a verdade é que sim, Louis se importava. Não queria vê-la e o motivo ainda não era muito claro nem pra ele mesmo. Talvez ele estivesse ainda sem graça de encará-la e que isso inevitavelmente o levaria de volta no tempo.
— Claro, não vejo problemas. — Mas ele era polido e educado demais para se negar àquilo. E a verdade é que, socialmente falando, ele era péssimo para inventar desculpas de última hora.
— Estarei em Londres amanhã para visitar uma amiga, quem sabe possamos almoçar. O que acha? — Eleanor era uma mulher elegante acima de tudo. Quando se tratava de Louis, porém, ela fazia um certo esforço para manter a compostura.
— Às 13 no Fifteen? — Louis perguntou mas já sabia que a resposta seria sim, quando a moça riu do outro lado da linha. Era um restaurante tradicional em Londres, frequentado muito por Louis e Eleanor quando os dois ainda eram um casal.
— Pra não perder o costume? — Ela disse rindo, divertindo-se com a situação.
— Mas é claro. — Louis riu, também pensando que realmente ainda havia espaços para uma brincadeira entre velhos amigos.
— Obrigada, Lou. Até amanhã, ótimo falar com você. — Ela despediu-se simpática.
— Igualmente. Cuide-se. — Louis respondeu antes de desligar a ligação.
O agente respirou fundo pensando que realmente não poderia estar mais surpreso com a naturalidade da conversa. Não fazia ideia ainda do que Calder poderia querer, mas pensou que seria mesmo bom começar a retomar esse tipo de contato, especialmente com uma mulher que foi tão importante em sua vida e sua história, mesmo apesar de não ter tido o final feliz que Tomlinson pensava que teria com ela.
Mas não se atreveria a reclamar de seu final de semana, que parecia começar muito bem, ao ver Harry sorrindo pra ele ao voltar à sala com roupas confortáveis e com alguns DVDs em mãos, distraidamente falando coisas que Louis não estava prestando muita atenção, como sinopses dos filmes e de coisas que queria assistir desde quando estava preso. Louis atrevia-se a pensar que em muitos anos não sentia-se tão feliz, ouvindo a voz de Styles ecoando por sua casa e sentindo o cheiro de sabonete que vinha dele.
Nunca pensou que a simplicidade daquele programa de sábado pudesse ser exatamente o que ele estava precisando em sua vida naquele momento.