A ruiva com os cachos bagunçados, longos e pesados, atravessava a rua correndo para fugir dos carros — estava fora da faixa de pedestre. Segurava os cabelo de maneira um pouco desajeitada enquanto agarrava a bolsa no ombro direito, com medo que caísse no meio da rua. Ela tinha sardas quase invisíveis e não usava praticamente nenhuma maquiagem. Lucille era uma das melhores amigas de Eleanor Calder e chegaram a dividir o dormitório quando estava na Universidade de Manchester. Eleanor era formada em Ciência da Computação, e ela, em jornalismo.
Desde que ficara sabendo que Harry Styles estava fora da cadeia, sob custódia da Polícia Metropolitana, ela sentiu que era a oportunidade perfeita para mostrar trabalho dentro de um dos jornais mais importantes da Inglaterra — o The Guardian.
O restaurante chinês mais parecia um food-truck. Era pequeno, estava lotado e parecia tipicamente um local de comida barata — e, pela quantidade de pessoas, provavelmente muito bom. Pessoas entravam e saíam do pequeno estabelecimento e ela manteve os olhos bem abertos. Havia visto Harry Styles apenas em fotos e pela TV, não tinha certeza se o reconheceria, apesar do rosto dele ter sido bastante vinculado e, além disso, ele parecia ser mesmo aquele tipo de pessoa inconfundível, não era um homem inglês comum.
Lucille rodeava o lugar há cerca de dez minutos desde que havia chegado. Começava a se perguntar que talvez tivesse demorado demais e Styles já não estivesse mais ali, era compreensível. Mas insistiria até ter certeza absoluta, e sentia que fora recompensada. Depois de vinte minutos esperando, os cachos negros voavam acompanhando um semblante sério de um homem alto que vestia uma camisa vermelha por baixo de um casaco marrom. Seu jeans era comprido demais e a barra arrastava no chão e, por vezes, ele pisava nela com seu All Star verde desbotado. Ele mascava chicletes e carregava um saco branco, possivelmente seu almoço, já que no papel estava o emblema do restaurante chinês.
Ela apertou o passo ao vê-lo do outro lado da rua. Não tinha cem por centro de certeza que era ele, mas ao lembrar-se da figura icônica das fotos e o mesmo jeito de andar quando o viu ser preso por Louis há anos atrás, era impossível não ser ele. Ele andava com pressa e, por ter pernas mais compridas, andava mais rápido obrigando-a a correr quase para alcançá-lo.
— Senhor Styles? — Ela disse quando se aproximava pelas costas do rapaz. Harry virou-se um pouco desconfiado, franziu o cenho e parou de andar. — Muito prazer, Sou Lucille Adams.
— Prazer, sou Harry. — Ele disse oferecendo a mão para cumprimentá-la. Educado, porém desconfiado.
— Estou fazendo uma matéria sobre você para o The Guardian. — Apesar de ter seu ego completamente inflado por um segundo, chegando a exibir um sorriso maroto, Harry não estava certo sobre o que deveria fazer ou agir ao ouvir aquela informação.
— É mesmo? — Ele comentou coçando a cabeça de um jeito nervoso.
— Gostaria de entrevistá-lo. — Ela disse sorrindo aberto ao ver que ele não parecia ver problemas com aquilo. Ele segurava seu almoço um pouco desajeitado e ainda sorria.
— Eu não vejo problemas, particularmente. — Ele respondeu educado. — Mas eu não posso fazer esse tipo de coisa sem falar com Louis. Ele vai me matar. — Ele riu ao concluir fazendo Lucille igualmente rir e achar aquilo tudo adorável.
— Eu sou amiga da Eleanor, eles estão almoçando juntos. — Ela começou explicando e Harry arqueou as sobrancelhas. — Por isso sabia onde te encontrar, provavelmente Louis disse à ela.
Harry franziu o cenho com a informação. Realmente não achou que aquilo fosse coisa do Louis, basicamente contradizia toda a proteção que Tomlinson havia dito que ele precisava. Harry olhou para os lados um pouco confuso, lembrou-se da conversa por telefone com o agente, que insistia que ele fosse pra casa o mais rápido possível. Styles, de repente, passou a desconfiar muito daquela situação e não sentia-se mais confortável. Parecia mesmo uma emboscada.
— Olha, mesmo assim, preciso checar com Louis antes de dizer qualquer coisa. — Harry disse, mas agora seu sorriso estava claramente apagado.
— Tudo bem, podemos agendar alguma coisa se ele permitir. — A ruiva respondeu, tranquilizando o outro. — Mas ao menos mate minha curiosidade pessoal e me diga como está sendo trabalhar "para o lado dos mocinhos" só pra variar? — Ela disse em tom de brincadeira e Styles sorriu mais aberto.
— Tem sido uma experiência interessante digamos. — Ele respondeu tentando não parecer tão amador.
— Já fez alguma descoberta significante? — Ela perguntou se aproximando um pouco dele, como se falasse em segredo.
— Sim! — Harry respondeu no mesmo tom, talvez movido pela vaidade. — Já temos um suspeito e quem descobriu sobre ele fui eu. — Ele disse e viu a ruiva arregalar os olhos, como se estivesse mais feliz do que surpresa na verdade.
— Nossa, impressionante. — Ela comentou tirando o celular do bolso. — Se importa se eu tirar uma foto sua?
— Bem, acho que uma foto não é problema, tendo em vista que existem tantas mesmo por aí. — Harry respondeu ficando de frente para a câmera. Ele não sorriu, apenas levantou o queixo e, sem parecer m*l humorado ou qualquer coisa do tipo, deixou a moça tirar a foto apenas de seu rosto.
— Obrigada, senhor Styles. — Ela agradeceu guardando o celular e ajeitando a bolsa sobre o ombro. — Espero vê-lo novamente após conversar com o Comandante Tomlinson. — Ela concluiu e Harry apenas assentiu com a cabeça, despedindo-se educadamente da moça bonita.
Não que Harry estivesse preocupado com aquilo, mas seu sexto sentido dizia que Louis poderia não gostar nada de saber que a jornalista o encontrou. Achava quase impossível que, de fato, Tomlinson tivesse dito a alguém onde ele estava — Louis era bastante surpreprotetor para com ele, não parecia provável que aquilo tivesse acontecido. Por um momento, Styles chegou a temer por sua própria segurança e apertou o passo pra chegar em casa. Se até uma jornalista poderia encontrá-lo, quem mais poderia?
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Zayn já tinha parado de pesquisar por tudo, estava frustrado por cair sempre no mesmo beco sem saída, não importando os rumos que tomasse. Liam estava atento à tela do computador, buscando na verdade informações sobre o caso de Harry Styles, relento relatórios preenchidos pelo próprio Louis na época e alguns de seu parceiro na época, o próprio Zayn. Payne parou de ler por um segundo e apenas observava de longe Zayn beber um copo de água. Ele franziu o cenho como se tentasse raciocinar sobre informações que não batiam.
— Como descobriram onde Styles estava? — Liam perguntou normalmente e Zayn achou estranha a pergunta ser relacionada àquilo e não ao caso do Limpador.
— O padrão de cidades do proxy de Styles. As primeiras letras das capitais formavam o nome "Louis Tomlinson". — Zayn respondeu e Liam arqueou as sobrancelhas genuinamente surpreso, lembrando-se da conversa que teve com Harry, os nomes das capitais que ele citou, mas sem contar a ele do que se tratava.
— Sinto que ele se apaixonou por Louis nesse processo. — Payne disse tranquilamente e Zayn apenas concordou com a cabeça. — Acho que ainda é.
— E Louis se apaixonou por ele. — Malik confessou e Liam paralisou por um segundo. — Foi intenso, foram meses de descobertas e, pra ser sincero, achei que a obsessão de Louis no começo era puramente tática... — Zayn tomou outro gole de água enquanto Liam permanecia ligeiramente chocado com as informações. — Mas quando ele de fato encontrou Styles, eu tive certeza que aconteceu muito mais coisas do que de fato Louis pôs nos relatórios. Sei que ele escondeu muita coisa porque o conheço muito bem.
— Tudo bem, entendo descobrir o padrão das cidades, mas como Louis achou o endereço dele em Londres? — Liam perguntou lembrando-se que, por mais que tenha participado da apreensão de Harry, tinha chegado ao departamento quando as investigações já haviam se encerrado. Na época, ele não se interessou em saber muito porque não imaginava que, de fato, iria ser fixo no departamento de Louis.
— Louis sabia que, naquele endereço, havia uma empresa fantasma chamada "Gleam System", que tecnicamente se tratava de assistência técnica para computadores. Além dessa pista óbvia, Louis se tornou muito bom com anagramas, já que Styles é expert nisso. — Zayn explicava puxando de volta a cadeira onde estava sentado antes de ir buscar seu copo d'água. — Gleam System é um anagrama para "Gemma Styles", irmã de Harry. — Zayn concluiu e Payne se sobressaltou.
— E como é que Louis sabia que Styles tinha uma irmã? — Liam revirou mais algumas folhas de papel de arquivos que Zayn tinha num fichário preto sobre a mesa.
— Louis disse que estava nos relatórios... — Malik comentou dando um tom vago àquilo, não estava entendendo a importância de tudo.
— Não, Z, não está. — Liam disse convicto. — Eu revirei isso pelo menos 10 vezes e em nenhum lugar diz qualquer menção sobre a família de Styles, a não ser que os pais morreram. — Liam franziu o cenho e Zayn também.
— Mas no relatório do Louis...
— Louis não mencionou isso nos relatórios. — Payne interrompeu mostrando a certeza que tinha. Zayn não disse nada, mas ao mesmo tempo estranhou aquilo tudo. Malik começou a pensar que confiava em Louis demais quando tomava apenas a palavra dele como argumento, nunca foi de pedir muitas explicações: se Louis dizia, então é porque ele tinha certeza.
— Tudo bem, depois posso esclarecer isso com Louis. Acredito que não seja nada demais. — Zayn complementou e Liam remexeu-se na cadeira inquieto. — Onde quer chegar com isso?
— Z, olhe pra tudo isso. — Liam apontou para a pilha de papéis, os fichários, os dois computadores ligados e os dois, obviamente, referindo-se ao fato de estarem trabalhando em pleno domingo. — Vocês levaram meses para pegar Harry Styles e, honestamente, ele não era tão engenhoso quanto o Limpador... — Payne continuava, aproximou sua cadeira da de Zayn e pensou bem antes de dizer, tinha medo de estar precipitado nas conclusões. — Olha o trabalho que foi pra pegar o Styles... Não acha que, se realmente fosse o Niall, não seria o mesmo nível?
— Está dizendo que não pode ser o Niall porque está fácil demais? — Zayn pensou por um momento quando Liam concordou com a cabeça. De fato, fazia sentido.
— Pensa comigo... — Payne tomou a palavra novamente. — Gaélico, só pra começar. Segundo, os servidores e os acessoas às tecnologias são os nossos... Se você fosse o Niall, cometeria erros crassos como esse? Isso tudo leva diretamente a ele. — Liam dizia e Zayn parecia não somente acompanhar o mesmo raciocínio, mas inclusive passou a concordar. — Acha mesmo que o Niall, inteligente pra c*****o, ia fazer umas paradas burras dessa? Eu acho que não.
Zayn quase deu um salto de sua cadeira. Ele realmente não tinha pensado em tudo aquilo e realmente viu que Liam estava certo. Era pouco provável que Niall fosse descuidado daquele jeito, era impossível que ele não tivesse visto aquilo antes. Payne tomou um susto de leve quando Malik simplesmente o agarrou pelo pescoço beijando-o com força.
— Eu te amo, obrigado por ser maravilhoso. — Zayn disse sério, segurando o rosto de Liam fazendo-o olhar em seus olhos. — É por essas e outras que você está onde está, agente Payne.
— Ok. — Liam disse um pouco sem graça, rindo do jeito totalmente espontâneo do namorado. — Também te amo, agente Malik. — Ele riu recebendo mais um beijo de Zayn, que saiu do pequeno cômodo dizendo que ligaria para Louis pra falar sobre o que tinham acabando de conversar.
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FLASHBACK
Louis Tomlinson vestia o clássico terno preto de agente especial da Scotland Yard quando cruzou os bonitos corredores feitos de pedras, centenários, da famosa e tão bem conceituada Universidade de Oxford. Ele já trabalhava na divisão de Crimes Cibernéticos há cerca de três anos e fora convidado para dar uma palestra na Faculdade de Ciência e Tecnologia. Estava nervoso, mas sentia-se lisonjeado com o convite.
Na época, quem lhe pediu o favor foi uma velha amiga, dos tempos da escola, que trabalhava no setor financeiro da universidade e cursava Administração por lá — coincidentemente ou não — a razão também pela qual ele e Zayn tinha se tornado amigos na época da escola: Perrie Edwards, que por alguns anos durante a adolescência, chegou a namorar Zayn por um conturbado período de anos.
— Sou o agente Tomlinson, estou aqui para falar com a senhorita Edwards. — Louis disse assim que chegou no hall de entrada da reitoria da universidade.
— Ela avisou que estava a caminho, agente. — A secretária disse levantando-se de onde estava e pedindo que Louis a seguisse. — Por aqui.
Ele andou com a moça por um longo corredor até chegar à porta onde podia-se ler "Perrie Edwards — analista financeira". Ele entrou e ela imediatamente desligou o telefone e abriu seu melhor sorriso. A secretária se retirou e a loira bonita, dona dos olhos mais fascinantes que Louis já havia visto, o abraçou demoradamente.
— Nossa, como você está lindo. — Ela disse arrancando risos do agente.
— Tinha ouvido falar mesmo que as mulheres gostavam de homens de terno, não imaginei que fosse tanto. — Tomlinson brincou fazendo-a rir igualmente. — Bom te ver.
— Igualmente, Lou. Obrigada por vir, significa muito pra nós. — Perrie agradeceu simpática. Quando ela mencionou o "nós", foi que Louis notou no canto da sala, sentada discretamente, uma moça um pouco tímida, extremamente bonita e com os cabelos longos caindo nos ombros. — Essa é Eleanor, professora de Álgebra Linear, na faculdade de Ciência da Computação.
— Muito prazer. — Tomlinson abriu seu melhor sorriso e estendeu a mão para a mulher à sua frente. — Louis Tomlinson. — Ele concluiu sem perceber que não se apresentou como agente, o que fez Perrie notar que ele provavelmente gostou de Eleanor logo de cara.
— Eleanor Calder. — Ela retribuiu o gesto do agente com um sorriso tímido, m*l conseguindo disfarçar o quanto estava encantada com aquele homem. Pensou mesmo que há anos não via olhos mais bonitos do que aquele juntamente com o sorriso que ela teve certeza que Louis poderia conseguir o que quisesse com ele. — Agradeço por aceitar o convite, senhor Tomlinson.
— O prazer é meu. — Ele respondeu para ambas, mas fixou o olhar novamente em Eleanor.
— Lou, quem sabe você e Eleanor podem sair para tomar um café e conversar sobre os tópicos da palestra. — Perrie sugeriu e já também implicava que estava bancando o cupido do momento. Percebeu a troca de olhares e, apesar de não imaginar que aquilo fosse acontecer, pensou que eles pareciam mesmo feitos um para o outro.
— Acho uma excelente ideia. — Louis disse tentando soar casual, mas parecendo feliz demais em poder passar mais tempo com Eleanor, estava realmente interessado em conhecê-la melhor. — Quer se juntar a nós, Perrie? — Ele convidou educado, já sabendo que ela negaria.
— Até parece que posso sair daqui em pleno horário de trabalho. — Ela riu, extremamente feliz por não precisar inventar uma desculpa pra não ir, porque obviamente queria que eles fossem sozinhos. — Passe aqui antes de ir embora, nem que seja pra marcarmos de sair pra colocar a conversa em dia.
— Eu virei, sem dúvidas. — Louis disse voltando a abraçá-la para despedir-se. — Você está linda. — Repetiu fazendo a loira rir ainda mais.
— Não disse que ele era maravilhoso? — A loira comentou olhando para Eleanor que concordou com a cabeça, fazendo Louis quase gargalhar. — Cuidem-se.
— Até depois. — Eleanor sussurrou para a amiga, que piscou pra ela assim que Louis deu as costas a fim de abrir a porta para a morena passar, exercendo todo seu cavalheirismo.
Os dois saíram do escritório de Perrie e andaram calmamente até a cafeteria da Universidade. Falaram pouco, pouquíssimo sobre a palestra, porém Louis pareceu deixar bastante claro seu interesse pessoal pela professora, imaginando que alguém como ela era tudo que ele precisava na sua vida naquele momento.