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701 Palavras
Menor Narrando Se tem uma coisa que eu gosto de fazer é chegar cedo na boca. O movimento ainda tá começando, o rádio chia de vez em quando, os vapores vão aparecendo aos poucos e sempre tem alguém reclamando de alguma coisa. Eu gosto desse horário porque parece que a comunidade ainda tá espreguiçando. O comércio vai abrindo as portas, os mototáxis começam a subir e descer sem parar, as crianças passam de uniforme correndo porque já estão atrasadas para a escola e, enquanto o restante da cidade ainda acorda, a Rocinha já tá vivendo faz tempo. Eu termino de conferir umas anotações e entrego o caderno para um dos vapores quando vejo uma moto encostando na entrada da boca. Não é qualquer moto. É uma Hornet preta, daquelas que fazem qualquer um virar o pescoço quando passa. O vapor desce dela tirando o capacete e eu fico acompanhando cada detalhe sem nem perceber. Bonita pra c*****o. Dou uma volta ao redor dela fingindo que tô olhando outra coisa, mas na verdade tô admirando mesmo. Nunca escondo isso de ninguém. Meu sonho é comprar uma moto dessa. Não pra ficar acelerando por aí igual maluco, mas porque acho bonita pra c****e. — Tá babando na moto dos outros? Nem preciso olhar, reconheço a voz do Grego na hora. Viro devagar. — Tô olhando. Ele cruza os braços e acompanha meu olhar até a Hornet. — Tá olhando faz cinco minutos. — E daí? — Daqui a pouco tu pede pra tirar foto. Rio sozinho. — Um dia eu compro uma dessa. Ele faz uma cara séria, como se estivesse calculando alguma coisa. — Trabalhando? — É. — Trabalhando tu compra o retrovisor. Olho pra cara dele e começo a rir. — Tu é chato pra c*****o. — Tô mentindo? — Tá. — Quanto tu ganha? Faço uma cara feia. — Não interessa. — Interessa sim. Ele começa a contar nos dedos. — Se tu guardar tudo que ganha... Finge fazer uma conta. — Daqui uns quinze anos tu compra o pneu da frente. Balanço a cabeça. — Vai tomar no cu. Ele dá uma gargalhada alta. — Gostei da ambição. Continuo olhando a moto. — Um dia eu compro. — Compra. — Compro mesmo. Ele coloca a mão no meu ombro. — Primeiro tira a carteira. Antes que eu consiga responder, escuto outra voz atrás da gente. — Também acho. Eu e o Grego olhamos ao mesmo tempo. Cairo. Ele tá com as mãos no bolso e um sorriso quase invisível no rosto. — Tá vendo? Até ele concorda comigo. Reviro os olhos. — Vocês dois se juntam só pra me sacanear. Cairo para do meu lado e também olha para a moto. — É bonita. Abro um sorriso. — Muito. Ele olha para mim. — Mas moto não anda sozinha. Franzo a testa. — Como assim? — Primeiro aprende a dirigir direito. Depois compra. O Grego não aguenta e começa a rir de novo. — Tá vendo? Nem teu irmão tá acreditando. Dou um empurrão de leve nele. — Irmão é o c*****o. — Ih... O Grego coloca a mão no peito. — Ficou bravinho. Antes que eu responda, o rádio preso na cintura do Cairo chia. Um dos vapores chama avisando sobre uma movimentação na parte de baixo da comunidade. Nada demais. Só um caminhão chegando antes do horário previsto. Cairo responde rápido, passa algumas orientações e guarda o rádio novamente. É engraçado observar ele trabalhando. Ele nunca fala mais do que precisa, nunca levanta a voz. Mesmo assim, todo mundo faz exatamente o que ele manda. Não é medo, é respeito. Enquanto ele segue para a sala dele, eu continuo ajudando na organização da boca. Confiro algumas anotações, separo dinheiro, levo informação de um lado para o outro e ainda preciso ouvir o Grego me zoando sempre que passa por mim. — E aí, já comprou a Hornet? Levanto o dedo do meio. Ele começa a rir. — Educação nota dez. Passa mais ou menos uma hora até que o movimento muda completamente. Uma mulher aparece correndo pela viela. O cabelo tá bagunçado, o rosto molhado de lágrimas e ela m*l consegue respirar. Ela entra na boca desesperada.
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