— Pelo amor de Deus!
Todo mundo para o que tá fazendo. Cairo sai da sala na mesma hora.
— O que aconteceu?
Ela tenta falar, mas o choro não deixa.
Respira fundo duas vezes antes de conseguir.
— Meu filho...
A voz falha.
— Meu filho sumiu.
O silêncio toma conta do lugar, meu coração aperta na mesma hora.
Cairo se aproxima dela.
— Calma.
Ele fala baixo.
— Quantos anos ele tem?
— Seis.
— Quanto tempo ele tá desaparecido?
— Eu achei que ele tava brincando na rua...
Ela leva a mão ao rosto.
— Quando fui chamar pra almoçar... ele não tava mais.
Cairo olha rapidamente para mim e para o Grego. Não precisa dizer mais nada, a gente entende na hora.
O clima muda completamente. Não existe carga, não existe dinheiro, não existe trabalho. Só existe um menino de seis anos desaparecido dentro da Rocinha.
Cairo pega o rádio.
— Atenção, geral.
A voz dele ecoa firme.
— Quero todo mundo procurando um menino de seis anos. Camisa azul, short cinza e chinelo preto. Divide as áreas. Quero resposta de todo mundo. Agora!
As respostas começam a surgir uma atrás da outra pelo rádio.
— Copiado.
— Tô indo.
— Parte de cima comigo.
— Viela da 4 comigo.
Olho para o Grego, ele já tá andando.
— Bora.
Nem espero resposta.
Saio correndo. Porque, naquele momento...A única coisa que importa é encontrar aquele menino.
Eu desço a viela correndo sem nem perceber o quanto minhas pernas já estão pesadas. A Rocinha inteira parece entrar em alerta junto com a gente. Quem tá trabalhando para o que tá fazendo. Quem tá na porta de casa começa a perguntar o que aconteceu. Em menos de cinco minutos, parece que todo mundo já sabe que um menino de seis anos desaparece.
— Camisa azul! Short cinza! Seis anos!
Vou repetindo as características enquanto passo pelas escadarias, olhando para cada beco, cada laje e cada canto onde uma criança pode estar brincando. Algumas moradoras já saem das casas perguntando se podem ajudar. Outras pegam os próprios filhos pela mão com medo de acontecer a mesma coisa.
O rádio chia sem parar.
— Parte de baixo negativa.
— Aqui na Rua Um também não.
— Procurando na quadra.
— Nada até agora.
Engulo seco.
Quanto mais o tempo passa, pior fica. Não porque eu ache que aconteceu alguma coisa, mas porque a mãe dele deve estar enlouquecendo.
Continuo correndo até encontrar dois moleques jogando bola.
— Vocês viram um garotinho de camisa azul?
Os dois balançam a cabeça.
— Não, Menor.
Nem paro.
Sigo andando rápido, perguntando para todo mundo que encontro pelo caminho.
Uma senhora me chama da porta de casa.
— Filho...
Paro na mesma hora.
— O que foi, dona Marta?
— Eu vi um grupinho de crianças subindo pra umas lajes mais pra cima.
Meu coração acelera.
— Faz muito tempo?
Ela pensa por alguns segundos.
— Uns vinte minutos, eu acho.
Nem agradeço direito.
Saio praticamente correndo escada acima. Enquanto isso, o rádio continua ligado.
A voz do Grego aparece.
— Menor, tu tá onde?
Pego o rádio.
— Subindo pras lajes da parte alta.
— Achou alguma coisa?
— Ainda não.
— Qualquer novidade, avisa.
— Pode deixar.
Continuo subindo.
O suor já escorre pelo meu rosto, o fôlego começa a faltar. Mesmo assim, não diminuo o ritmo. Conheço essa comunidade como a palma da minha mão. Se tem um lugar onde criança gosta de brincar escondida... É nas lajes.
Chego na primeira, nada. Na segunda, nada. Na terceira...Escuto risadas, paro por um segundo, olho para cima.
Tem quatro crianças sentadas perto de uma caixa d'água, brincando com tampinhas de garrafa como se o mundo inteiro não estivesse procurando uma delas.
Subo os últimos degraus, uma menina me olha primeiro.
— O Menor chegou!
Os outros vieram na minha direção.
E lá está ele, camisa azul, short cinza e chinelo preto.
O mesmo sorriso tranquilo de quem não faz ideia do tamanho do susto que causou.
Respiro tão aliviado que minhas pernas quase falham.
— Ô, campeão...
Ele levanta.
— Oi.
Aproximo devagar.
— O que tu tá fazendo aqui?
Ele aponta para os outros.
— Brincando.
Olho ao redor.
Não tem nenhum adulto.
Só as crianças.
Passo a mão na cabeça dele.
— Tu sabe que tua mãe tá te procurando?
Ele arregala os olhos.
— Tá?
Faço que sim.
— A comunidade inteira.
Ele abaixa a cabeça.
— Ela vai brigar comigo?
Sinto um aperto estranho no peito.
Dou um sorriso de leve.
— Vai não.
Ele me olha desconfiado.
— Tem certeza?
Seguro na mão dele.
— Ela só quer te abraçar.
Pego o rádio quase no mesmo instante.
— Achei.
O silêncio dura menos de um segundo.
Depois o rádio explode.
— Onde?
É a voz do Grego.
— Laje da parte alta.
— Ele tá bem?
Olho para o garoto.
— Tá brincando.
Escuto uma risada aliviada do outro lado.
— Tô chegando.
Menos de cinco minutos depois, a movimentação começa.
Moradores aparecem subindo as escadas.
Alguns vapores.
Grego.
E, por último...
Cairo.
A mãe vem logo atrás dele.
Ela m*l espera o filho chegar perto.
Corre e ajoelha na frente dele, abraçando o menino tão forte que começa a chorar de novo.
— Nunca mais faz isso comigo...
Ela repete a mesma frase várias vezes enquanto enche o rosto dele de beijos.
O garotinho só consegue pedir desculpa.
Olho para o lado.
Vejo vários moradores respirando aliviados.
Alguns sorriem.
Outros limpam discretamente os olhos.
Até eu preciso desviar o rosto por alguns segundos.
O Grego encosta do meu lado.
— Boa, cria.
Dou de ombros.
— Foi a dona Marta que viu as crianças subindo.
— Mas foi tu que encontrou.
Antes que eu responda, sinto uma mão apertar meu ombro.
É o Cairo.
Olho para ele.
Ele não sorri.
Só faz um leve movimento positivo com a cabeça.
Pra quem não conhece...Parece pouca coisa, pra mim...Vale mais que qualquer elogio.
A mãe do menino se aproxima da gente ainda segurando o filho pela mão.
Ela enxuga as lágrimas.
— Obrigada.
Olha para mim.
Depois para o Grego.
E, por último, para o Cairo.
— Que Deus proteja vocês.
Ninguém responde.
Ela vai embora abraçada ao menino.
O silêncio fica por alguns segundos enquanto todo mundo observa os dois descendo a viela.
O Grego quebra o silêncio primeiro.
— Agora pode dar uma bronca nesse moleque.
Dou uma risada.
— Merece.
Cairo olha para os dois desaparecendo no meio da comunidade.
Depois fala baixo, quase como se estivesse pensando alto.
— Tá vendo?
Eu e o Grego olhamos para ele.
Ele continua com os olhos voltados para a viela.
— Isso vale mais que qualquer carga.
Ninguém responde, porque não precisa. Naquele momento...Todo mundo entende exatamente o que ele quer dizer.
Enquanto voltamos para a boca, percebo uma coisa que nunca tinha parado para pensar.
Lá fora, muita gente olha pra gente e só enxerga arma, dinheiro e crime. Mas quem mora aqui sabe, antes de qualquer coisa...
A Rocinha cuida dos seus e eu tenho orgulho de fazer parte disso.