Rosana Narrando - Mãe do Menor
Ser mãe é viver com o coração apertado quase o tempo todo. Não importa se o filho ainda cabe no colo ou se já passa da minha altura. A preocupação muda de roupa, mas nunca vai embora. Comigo é assim desde o dia em que o Luan nasceu. Hoje quase ninguém chama ele pelo nome. Pra comunidade inteira ele é o Menor. Pra mim continua sendo o menino que corria descalço pelas vielas da Rocinha, voltava pra casa com o joelho ralado e sempre inventava uma desculpa diferente pra dizer que não tinha sido culpa dele.
Levanto cedo, como faço todos os dias. O relógio ainda nem marca seis horas quando já estou de pé. Coloco a água do café no fogo, abro as janelas da casa e escuto a comunidade despertando. O som das primeiras motos cortando as ruas, o rapaz da padaria descarregando os pães, uma vizinha varrendo a porta enquanto conversa com outra do outro lado da viela, as crianças começando a aparecer de uniforme, umas sonolentas, outras correndo porque já acordam atrasadas. Esse barulho faz parte da minha vida desde menina. Tem gente que olha pra Rocinha e só vê notícia r**m. Eu olho e enxergo pessoas tentando viver mais um dia.
Enquanto passo o café, olho na direção do quarto do Luan.
Vazio.
Dou uma risadinha sozinha.
— Claro...
Nem preciso perguntar onde ele tá, conheço meu filho. Se acorda antes de mim, já foi pra boca.
Pego o celular.
Nenhuma mensagem.
Pelo menos ontem ele teve a decência de avisar que sairia cedo, isso já é um avanço.
Sento perto da janela com a caneca de café nas mãos e fico observando a rua. Às vezes me pego pensando como o tempo passa rápido. Parece que ontem era o Luan quem descia essas escadas de mochila nas costas reclamando porque eu obrigava ele a ir pra escola. Hoje ele já é homem. Trabalha. Faz as próprias escolhas.
E nenhuma mãe está preparada para aceitar todas elas, nunca gostei do caminho que ele escolheu. Nunca vou gostar, mas também não sou uma mulher que vive de ilusão. Conheço essa comunidade desde que nasci, sei que muita gente julga sem nunca ter colocado os pés aqui.
Crime continua sendo crime, isso nunca vai mudar. Mas também sei reconhecer quando alguém impede um menino de se perder completamente. E, por mais difícil que seja admitir...O Cairo e o Grego fazem isso com o meu filho, eles cobram respeito, cobram educação. Vivem perguntando se ele está estudando, obrigam ele a comer.
Outro dia o Grego entrou aqui em casa só pra reclamar que o Luan anda dormindo pouco.
Olhei pra cara daquele homem e começo a rir.
— Tu veio aqui só pra isso?
Ele responde na maior naturalidade.
— Se continuar dormindo desse jeito, daqui a pouco cai duro.
Quem ouve de fora até estranha, mas eu conheço os dois. Se preocupam com ele do jeito deles. E isso, querendo ou não, tranquiliza um pouco meu coração.
Termino o café e começo a arrumar a casa. Lavo a louça, estendo roupa no varal, separo algumas contas pra pagar e coloco um feijão na panela de pressão. Faço tudo no automático. A cabeça nunca desliga.
De vez em quando olho pro celular.
Nada.
Respiro fundo.
— Para de ser ansiosa, Rosana.
Repito isso pra mim mesma quase todos os dias, nem sempre funciona. Mas eu tento.
Quando o almoço já está quase pronto, escuto uma movimentação diferente do lado de fora. Gente correndo. Vozes mais altas do que o normal. Abro a porta e encontro a dona Vera praticamente passando em disparada.
— Vera!
Ela para por um segundo.
— O que aconteceu?
Ela respira ofegante antes de responder.
— Um menino desapareceu.
Meu coração dispara.
A primeira coisa que faço é pegar o celular.
Ligo pro Luan.
Chama.
Chama.
Nada.
Desligo.
Ligo outra vez.
Nada.
Fecho os olhos por um instante, conheço meu filho. Se ele não atende...É porque tá ajudando.
Volto pra dentro de casa, mas já não consigo prestar atenção em mais nada. O feijão termina de cozinhar. O arroz fica pronto. A carne já tá frita.
Mesmo assim, não sinto fome, só olho pra porta, pra janela, pro celular. O tempo parece não passar.
Lá fora a movimentação continua intensa. Muita gente sobe e desce as escadas. Alguns perguntam se apareceu alguma notícia. Outros saem procurando sem nem conhecer a família da criança.
É nessas horas que eu lembro por que amo esse lugar. A Rocinha pode ter muitos problemas, mas quando alguém precisa, todo mundo vira uma família só.
Quase uma hora depois, meu celular vibra, meu coração acelera antes mesmo de desbloquear a tela.
É uma mensagem do Luan.
Luan:
Mãe, fica tranquila.
Encontramos o menino.
Ele tá bem.
Levo a mão ao peito, as lágrimas descem sem que eu consiga impedir. Não é só alívio, é gratidão. Pela mãe daquela criança, pelo meu filho. Por cada pessoa que saiu de casa para procurar um menino que nem conhece.
Naquele momento, faço apenas uma oração silenciosa.
Obrigada, meu Deus.
Porque hoje...
Uma mãe volta a respirar.