Ela (desconhecida) - Narrando
Existem pessoas que morrem apenas uma vez. Outras continuam morrendo todos os dias na lembrança de quem ficou. Minha mãe é assim.
Às vezes eu ainda esqueço que ela não está mais aqui. Passo pela porta do quarto dela e meu primeiro impulso é chamar pelo nome dela, perguntar como foi o dia ou reclamar de alguma coisa boba. Então a realidade volta. O quarto continua vazio. A cama continua perfeitamente arrumada. O perfume dela já não existe mais, mas, de alguma forma, eu ainda consigo sentir.
Abro a porta devagar. Faço isso quase todos os dias. Não porque acredito que ela vai aparecer, faço porque tenho medo de esquecer algum detalhe dela. O jeito que sorria, o jeito que falava comigo, o jeito que segurava minha mão quando eu era criança.
Sento na cama.
Abro a gaveta do criado-mudo.
A fotografia continua escondida exatamente onde eu deixei. Ninguém sabe que ela está aqui, muito menos ele.
Passo os dedos pela foto, ela está sorrindo, como sempre. Minha mãe tinha um dom raro, ela conseguia sorrir mesmo quando a vida fazia de tudo para tirar isso dela.
Quando eu era pequena, perguntava por que ela nunca brigava de volta.
Ela apenas sorria.
Depois passava a mão no meu cabelo.
— Nem toda guerra merece ser lutada, meu amor.
Na época eu não entendia, hoje eu entendo. Ela não era fraca, ela só estava cansada. Cansada de tentar convencer alguém que nunca quis mudar.
Minha infância tem lembranças bonitas. E, ao mesmo tempo, lembranças que eu daria tudo para apagar. Lembro de mamãe sentada no chão da sala colocando minha órtese antes de eu ir para a escola.
Eu reclamava, dizia que odiava aquilo. Ela ria.
— Um dia você vai agradecer por ela existir.
Eu fazia bico.
— Eu queria correr igual às outras crianças.
Ela terminava de prender as tiras na minha perna, depois segurava meu rosto com as duas mãos.
— Você pode não correr igual a elas.
— Mas vai chegar muito mais longe.
Eu nunca acreditava, ela beijava minha testa.
— Escuta uma coisa.
Esperava eu olhar para ela.
— Nunca deixe ninguém fazer você acreditar que vale menos por andar diferente.
Essas palavras nunca saem da minha cabeça, nunca. Na escola, as crianças perguntavam por que eu mancava.
Algumas riam, outras apontavam. Eu chegava em casa tentando fingir que não doía. Mas doía, não na perna, na alma. Ela percebia antes mesmo de eu abrir a boca. Sempre percebia, sentava ao meu lado. Fazia chocolate quente, mesmo nos dias mais quentes do Rio de Janeiro.
Eu dizia que não queria, ela colocava a caneca na minha frente do mesmo jeito.
— Pode chorar.
Eu balançava a cabeça.
— Eu não quero.
Ela sorria.
— Eu sei.
— Mas pode.
E eu chorava.
Porque com ela eu nunca precisava ser forte. Ela era minha força, o problema é que ninguém consegue viver para sempre sendo o escudo de outra pessoa.
Ainda lembro da última vez que ela me abraçou, foi um abraço demorado, silencioso. Como se ela soubesse alguma coisa que eu ainda não sabia. Naquele dia ela passou a mão no meu cabelo várias vezes.
Beijou minha testa.
E disse baixinho:
— Nunca deixe o ódio morar dentro de você. Na época achei estranho, hoje eu entendo. Ela sabia exatamente com quem dividia a mesma casa.
Às vezes me pergunto quantas coisas ela suportou para me proteger, quantas mentiras contou dizendo que estava tudo bem, quantas noites passou acordada para ter certeza de que eu dormia em paz.
Eu nunca vou saber e talvez essa seja a parte que mais dói. Levanto da cama e caminho até a janela lá fora, tudo continua igual. Carros passando, pessoas vivendo. O mundo nunca para quando alguém vai embora.
Fecho os olhos por alguns segundos, penso nela. Penso em tudo que ela me ensinou. Talvez seja por isso que eu nunca consegui enxergar o Cairo da mesma forma que as outras pessoas.
Minha mãe dizia que o mundo sempre tenta resumir alguém ao pior erro que essa pessoa cometeu.
Mas que, se a gente prestar atenção...Sempre encontra alguma coisa boa escondida. E foi isso que eu fiz, prestei atenção, enquanto todo mundo via um homem perigoso...Eu via pequenos gestos que ninguém parecia notar.
Talvez eu tenha aprendido isso com ela, talvez tenha sido ela quem me ensinou a procurar humanidade onde ninguém mais procura.
Seguro a fotografia contra o peito, sinto um nó na garganta. Ainda converso com ela em silêncio, ainda conto como foi meu dia, ainda peço conselhos que nunca serão respondidos.
Porque algumas pessoas não vão embora completamente. Elas continuam vivendo dentro daquilo que ensinaram e minha mãe ainda vive em cada escolha que faço.
Mesmo depois de tantos anos, mesmo depois de tudo.
Porque, no fim...
Foi ele quem tirou a mulher que eu mais amava no mundo, mas nunca conseguiu tirar dela a capacidade de me ensinar a amar.