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596 Palavras
Augusto Narrando As pessoas gostam de acreditar em personagens. O pai de família, o político honesto. O homem que aperta mãos, beija crianças e promete um futuro melhor. É impressionante como uma boa imagem vale mais do que a verdade. Desço do carro oficial com um sorriso perfeitamente calculado. Dois fotógrafos me esperam do lado de fora do portão. Aceno, cumprimento algumas pessoas e escuto elogios sobre meu trabalho. Faço questão de olhar nos olhos de cada uma delas. Elas precisam acreditar que me importo. — Deus abençoe o senhor, deputado. Sorrio. — Deus abençoe todos nós. As câmeras registram exatamente o que precisam registrar. Quando o portão fecha atrás de mim, o sorriso desaparece. — Alfredo. O mordomo surge quase correndo. — Senhor. Olho para um pequeno arranhão na mesa da entrada. — Quem fez isso? Ele engole em seco. — Não sabemos, senhor. Aproximo meu rosto do dele. — Eu perguntei quem fez. — Vamos descobrir. — Não. Dou um passo para trás. — Você vai descobrir antes de eu terminar meu banho. Ele assente imediatamente, medo é um excelente incentivo. Entrego o paletó para outra funcionária. Ela demora dois segundos para pegá-lo. Dois segundos. Olho para ela. — Seu braço está quebrado? Ela empalidece. — Não, senhor. — Então da próxima vez seja mais rápida. Ela abaixa a cabeça. Ninguém responde, ninguém discute. Nesta casa todos aprenderam que questionar só piora as coisas. Entro no escritório e meu assessor já me espera. — Boa noite, deputado. — Economize meu tempo. Ele abre uma pasta. — Tivemos novas informações sobre a Rocinha. Levanto os olhos. — Continue. — O nome do Cairo voltou a aparecer em alguns relatórios. Dou uma risada sem humor. — Bandido continua sendo bandido. Meu assessor permanece calado. — O Estado perde tempo demais tentando negociar com esse tipo de gente. Fecho a pasta com força. — Lugar de criminoso é embaixo da terra. O silêncio domina o escritório, meu assessor sabe que não é uma opinião. É uma convicção. Ele muda rapidamente de assunto, fala sobre agendas e reuniões. Dispenso-o poucos minutos depois. Antes de sair, ele pergunta: — Precisa de mais alguma coisa? Olho para ele. — Preciso. Ele espera. — Que as pessoas ao meu redor parem de cometer erros tão simples. Ele abaixa a cabeça e sai. Vou até a estante. Existe uma fotografia antiga ali, não gosto daquela foto. Viro o porta-retrato com violência. O passado serve apenas para atrapalhar quem pretende continuar no poder. Sigo para a sala de jantar. Os empregados já estão posicionados, todos em pé, todos em silêncio. Exatamente como deve ser. Uma funcionária se aproxima. — O jantar está servido, senhor. Olho para a mesa. Depois para ela. — Quem autorizou servir antes da minha chegada? Ela empalidece. — Eu... eu achei que... Interrompo. — Você não é paga para achar. Ela baixa os olhos imediatamente. Aproximo-me devagar. — Pessoas incompetentes costumam tomar decisões que não lhes pertencem. Ela começa a tremer. Faço um gesto de desprezo. — Saia da minha frente antes que eu perca a paciência. Ela praticamente corre para fora da sala. Os demais permanecem imóveis, ninguém ousa respirar mais alto. Puxo a cadeira da cabeceira. Antes de me sentar, pergunto sem alterar o tom de voz: — Onde ela está? Uma das funcionárias responde rapidamente: — No quarto, senhor. Olho para o relógio. — Mande descer. Ela assente. Enquanto espero, observo a mesa enorme. Uma casa cheia de funcionários, uma mesa farta. Um silêncio absoluto, é exatamente assim que eu gosto. Porque onde existe medo...Existe controle.
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