Eu sempre aprendi a desconfiar de quem sabe demais. Informação é uma das coisas mais perigosas que uma pessoa pode ter. Dinheiro acaba. Poder muda. Mas informação...Informação coloca alguém alguns passos na frente.
E aquela mulher tem muitos passos na minha frente. Desde a primeira vez que ela me mandou mensagem, eu tento entender como ela consegue. No começo eu achava que era só alguém observando de longe, alguém curioso, alguém que tinha ouvido histórias sobre mim e criado uma imagem na cabeça. Mas não é isso. Ela sabe detalhes. Sabe coisas que não fazem sentido alguém saber. E o pior...Ela não usa isso para me ameaçar, não tenta me prejudicar.
Ela usa para falar comigo como se me conhecesse. Como se soubesse exatamente quando eu estou cansado, quando estou irritado, quando estou fingindo que está tudo bem. Isso me incomoda.
Porque é mais fácil lidar com um inimigo declarado do que com alguém que parece querer o meu bem.
Chego na boca e encontro o movimento de sempre. O barulho das pessoas, os meninos trabalhando, os moradores passando pela rua e cumprimentando.
A vida segue, mas minha cabeça está em outro lugar.
O Grego percebe antes de qualquer pessoa.
Ele sempre percebe.
— Tu vai continuar fingindo que não tá acontecendo nada?
Olho para ele.
— Do que tu tá falando?
Ele dá aquele sorriso de quem já sabe a resposta.
— Da mulher.
Fico sério.
— Cuidado com o que fala.
— Olha aí.
Ele aponta para mim.
— É exatamente isso.
— Isso o quê?
— Tu muda até o jeito de falar quando é sobre ela.
Reviro os olhos.
— Tu tá imaginando coisa.
Ele ri.
— Cairo, eu te conheço há anos.
Fica alguns segundos em silêncio.
— Tu nunca ficou curioso por ninguém.
Não respondo, porque ele está certo. Eu não sou um homem curioso, sou um homem que procura respostas. Existe diferença.
— Ela sabe muita coisa.
O sorriso dele diminui.
— Que tipo de coisa?
Pego o celular e mostro algumas mensagens.
Ele lê em silêncio.
A expressão dele muda.
— Caraca...
— Pois é.
Ele continua olhando.
— E tu tem certeza que ela não é alguém daqui?
Balanço a cabeça.
— Não sei.
— Então descobre.
Olho para ele.
— Não é tão simples.
— Por quê?
Guardo o celular.
— Porque ela não parece uma ameaça.
O Grego cruza os braços.
— Às vezes é justamente quem não parece que preocupa.
Fico em silêncio.
Porque essa é uma possibilidade que eu não consigo ignorar, o dia passa e eu continuo pensando nisso. No fim, quando estou sozinho, pego o celular novamente.
A conversa dela está aberta.
Eu olho para o número.
Sem nome.
Sem foto.
Sem nada.
Só uma pessoa do outro lado da tela que, de alguma forma, sabe mais sobre mim do que deveria. Antes que eu consiga pensar em mandar alguma coisa, chega uma mensagem.
Desconhecida:
Você está desconfiado.
Fico parado.
Ela nem pergunta, ela afirma.
Eu:
Como sabe?
Ela demora alguns segundos.
Desconhecida:
Porque você está mais quieto.
Olho para a tela.
Eu:
Tu percebe tudo?
Ela responde:
Desconhecida:
Nem tudo.
Desconhecida:
Só aquilo que importa.
Essa resposta me irrita, porque ela parece simples demais.
Eu:
Quem te contou sobre mim?
Dessa vez ela demora, muito. Eu vejo a mensagem sendo digitada algumas vezes.
Até chegar.
Desconhecida:
Nem tudo que a gente sabe alguém precisa contar.
Fico olhando.
Eu:
Isso não responde.
Desconhecida:
Eu sei.
Passo a mão no rosto, ela faz isso de propósito. Responde o suficiente para me prender, mas nunca o suficiente para eu entender.
Eu:
Tu tem acesso a informações.
Ela não responde na hora, quando responde, é uma frase curta.
Desconhecida:
Tenho.
Meu olhar fica preso naquela palavra. Finalmente uma confirmação!
Eu:
Como?
Ela demora.
Desconhecida:
Minha vida sempre esteve cercada de pessoas que sabem coisas.
Leio novamente, não é uma resposta completa. Mas é mais do que ela já disse.
Eu:
Que pessoas?
Silêncio.
Ela fica alguns minutos sem responder.
Até que chega.
Desconhecida:
Pessoas que acham que conhecer informações é ter poder.
Franzo a testa.
Essa frase parece ter um peso diferente.
Eu:
E você?
Ela demora.
Desconhecida:
Eu acho que conhecer alguém é entender.
Fico olhando para a tela. Existe algo nessa mulher que me deixa dividido, uma parte minha quer descobrir tudo, a outra quer mandar ela desaparecer. Porque eu não gosto da sensação de alguém enxergar partes minhas que eu escondo.
Eu:
Tu sabe que isso continua sendo estranho, né?
Ela responde:
Desconhecida:
Eu sei.
Eu:
E mesmo assim continua.
Desconhecida:
Sim.
Eu:
Por quê?
Dessa vez a resposta demora mais.
Quando chega, eu fico alguns segundos sem reação.
Desconhecida:
Porque durante muito tempo todo mundo olhou para o que você representa.
Desconhecida:
Eu queria saber quem você era.
Fico parado, porque essa resposta eu não esperava. Não é uma justificativa, não é uma desculpa, é apenas a verdade dela. E talvez seja isso que mais me incomoda.
Ela não parece estar tentando me convencer, parece apenas falando o que sente.
Apago a tela do celular.
Mas a conversa continua na minha cabeça.
Pela primeira vez em muito tempo, existe alguém tentando descobrir o homem antes do nome. E eu ainda não sei se isso é uma coisa boa ou se é exatamente o tipo de coisa que pode acabar me colocando em perigo.