21

1052 Palavras
Cairo Narrando O churrasco na casa do Grego já dura algumas horas e, pela primeira vez na semana, minha cabeça parece desacelerar. A música toma conta do quintal, a fumaça da churrasqueira sobe devagar e a cerveja gelada vai passando de mão em mão. O Grego já perdeu a conta de quantas vezes foi zoado por causa da Helena, o Menor ri de tudo, e eu só observo. Gosto mais de assistir do que de participar. — Tá rindo de quê? — o Grego pergunta quando percebe um sorriso no meu rosto. — De tu. A roda inteira cai na gargalhada. — Até tu, Cairo? Dou de ombros. — Hoje tu facilitou. Ele balança a cabeça. — Vocês não prestam. A música aumenta e o assunto muda. O Menor começa a contar uma história completamente exagerada e metade da mesa já manda ele parar de mentir. É nessas horas que eu lembro que, apesar de tudo, ainda existem momentos normais. Pego outra cerveja. O celular vibra no bolso. Nem preciso olhar duas vezes para imaginar quem é. Saio um pouco da roda e encosto perto do muro. Abro a conversa. Desconhecida: Boa noite. Dou um sorriso de canto. Nem percebo. Eu: Boa noite. Desconhecida: Você parece mais leve hoje. Olho para a tela. Eu: Agora tu adivinha meu humor também? Ela responde quase na hora. Desconhecida: Não. Você só demora menos para responder quando está tranquilo. Dou uma risada baixa, essa mulher repara em cada detalhe. Eu: Tô num churrasco. Desconhecida: Eu imaginei que estivesse com seus amigos. Levanto uma sobrancelha. Eu: Tu imagina muita coisa. Desconhecida: Nem sempre. Às vezes eu acerto. Bebo mais um gole da cerveja. Não sei se é o álcool ou o clima da noite, mas hoje sinto menos vontade de fugir da conversa. Pela primeira vez... Sou eu quem quer perguntar. Eu: Posso fazer uma pergunta? Ela demora poucos segundos. Desconhecida: Pode. Eu: Qual é a tua verdadeira intenção comigo? Ela fica alguns instantes sem responder. Quando a mensagem chega, eu releio duas vezes. Desconhecida: A mesma de dois anos atrás. Que um dia você me enxergasse. Fico olhando para a tela, não parece uma resposta decorada. Parece sincera. Eu: Só isso? Desconhecida: Só isso já é muito difícil. Respiro fundo. Pela primeira vez, sinto que ela baixou um pouco a guarda. Resolvo fazer outra pergunta. Eu: Agora eu quero saber uma coisa. Desconhecida: Hum? Eu: Como tu é? Ela demora. Depois responde. Desconhecida: Fisicamente? Eu: É. Passam alguns segundos. Desconhecida: Sou pequena. Rio sozinho. Eu: Pequena quanto? Ela responde. Desconhecida: Um metro e cinquenta e seis. Solto uma gargalhada. O Grego olha de longe. — Tá maluco? Faço um gesto com a mão dizendo que está tudo bem. Volto para o celular. Eu: Mais um pouco era anã. Ela responde quase na mesma hora. Desconhecida: Muito engraçado. Eu: Tô falando sério. Desconhecida: Você tem quanto? Eu: Um e oitenta e seis. Ela manda um emoji de silêncio. Depois escreve: Desconhecida: Então eu realmente sou um chaveiro perto de você. Dou outra risada. É a primeira vez que conversamos assim, sem tensão. Sem discussão. Só... normal. Eu: Além de baixa, o que mais? Ela responde. Desconhecida: Tenho cabelo comprido. Eu: Da cor de quê? Desconhecida: Isso você imagina. Balanço a cabeça. Eu: Difícil. Desconhecida: Usa a criatividade. Eu: Olhos? Ela demora. Desconhecida: Também imagina. Fico encarando a tela. Sem perceber, começo a montar uma imagem na cabeça. Baixinha, cabelo comprido, pele clara e olhos cor de mel. Não faço ideia do motivo, é simplesmente a imagem que minha cabeça cria. Eu: Se eu errar depois, a culpa é tua. Ela responde. Desconhecida: Eu assumo esse risco. Guardo o celular por alguns minutos e volto para a roda. O Grego continua sendo zoado, a Helena já foi embora e o Menor insiste em dizer que um dia ainda vai ver os dois juntos. A cerveja continua descendo fácil e, quando olho novamente para o celular, percebo que a imagem daquela mulher continua na minha cabeça. Isso me irrita! Porque eu nem sei se ela existe daquele jeito. Talvez seja completamente diferente. Talvez eu esteja imaginando alguém que nunca vou conhecer ou talvez eu só esteja ficando maluco. Impulsivamente, abro outra conversa. Uma mulher com quem já fiquei algumas vezes. Eu: Tá acordada? A resposta vem quase na hora. Ela: Tô. Eu: Brota. Ela responde com um áudio curto dizendo que ia tomar um banho e vai. Guardo o celular. Respiro fundo. É mais fácil assim, muito mais fácil. Antes que eu consiga voltar para o churrasco, o aparelho vibra outra vez. Número desconhecido. Meu coração acelera sem que eu queira. Abro. Desconhecida: Vai tentar esquecer nossa conversa? Meu semblante muda. Eu: Do que tu tá falando? Ela demora. Desconhecida: Quando alguma coisa mexe com você... Você procura o caminho mais fácil para não pensar. Franzo a testa. Eu: Tu não sabe de nada. Ela visualiza. Demora alguns segundos. Depois responde. Desconhecida: Espero que ela consiga. Meu peito aperta. Eu: Ela quem? A resposta chega. Desconhecida: A mulher que você acabou de chamar. Meu sangue gela. Olho em volta instintivamente. O quintal, a rua, o portão e nada. Ninguém me observa. Volto para a conversa. Eu: Quem é você? Ela ignora a pergunta. Desconhecida: Porque eu tenho quase certeza... Que, enquanto ela estiver na sua frente... Você vai continuar tentando descobrir a cor dos meus olhos. Fico parado, com o celular na mão. Sem conseguir responder. A mulher que convidei manda outra mensagem avisando que já está saindo de casa. Olho para a tela, penso por alguns segundos. E respondo apenas: Eu: Melhor deixar pra outro dia. Ela pergunta se aconteceu alguma coisa. Não respondo. Guardo o celular no bolso. Me despeço do Grego dizendo que estou cansado. Ele estranha. — Já? — Amanhã o dia começa cedo. Ele não insiste. Vou embora. Entro em casa. Tomo um banho demorado. Deixo a água cair sobre a cabeça tentando levar embora aquela conversa. Não leva, apago a luz do quarto. Deito, fecho os olhos e percebo que ela venceu mais uma vez. Porque, em vez de dormir pensando no trabalho... Eu continuo tentando imaginar a mulher de um metro e cinquenta e seis que insiste em aparecer na minha vida sem nunca mostrar o rosto. Que inferno de mulher!
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR