Menor Narrando
Até aquela madrugada, eu jurava que já tinha visto de tudo.
Eu estava errado.
O primeiro estrondo fez o peito inteiro vibrar. Veio outro. Depois mais um. Em poucos segundos, o morro pareceu tremer nos alicerces. As sirenes vinham lá de baixo, misturadas a gritos, ordens e tiros. O rádio no meu colete chiava sem parar, as vozes se atropelando.
— Avançaram pela principal!
— Movimentação na segunda quadra!
— Segura a barreira!
Respirei fundo e apertei a arma contra o peito. Era a primeira vez que eu via uma operação daquele tamanho. As mãos suavam frias, mas eu não podia tremer. Ali ninguém tinha tempo para medo.
Olhei à frente, procurando. E o encontrei.
Caminhava entre os homens como se o mundo não estivesse desabando ao redor. Nem um passo vacilante. Nem um olhar perdido. Parecia saber exatamente onde cada peça se encaixava.
— Menor!
Virei de um golpe.
— Tô aqui!
— Fica na tua posição! Qualquer mudança, avisa no rádio antes de se mover!
— Pode deixar!
Era assim. Ele não precisava gritar. Quando falava, a voz cortava o barulho e todo mundo obedecia.
O Grego passou correndo, parou ao lado dele por dois segundos. Trocaram meia dúzia de palavras e seguiram em direções opostas. Nem parecia conversa. Parecia que um completava o pensamento do outro. Foi naquele instante que eu entendi por que comandavam juntos. Confiança daquela não se fabrica da noite pro dia.
O rádio chia de novo.
— Estão tentando avançar de novo!
Olhei pro Cairo. Ele levou o aparelho à boca.
— Todos mantêm posição. Ninguém recua sem minha ordem.
A voz era firme. Calma. Sem desespero. Sem pressa. E aquela calma parecia se espalhar. Até eu, ali tremendo, sentia, se ele diz que segura, segura.
Passei a observar mais do que atirar. Queria aprender. Enquanto uns perdiam a cabeça, ele já calculava o próximo passo. Enquanto uns gritavam, ele organizava. Enquanto o caos crescia, ele parecia mais frio, mais duro, mais presente.
Foi aí que eu entendi, ser respeitado não é fazer os outros terem medo de você. É conseguir fazer todo mundo acreditar que ainda existe saída... mesmo quando parece que não tem nenhuma.
O Grego voltou correndo.
— Lado esquerdo sob controle!
Cairo apenas assentiu.
— Dá cobertura. Não deixa abrirem brecha.
— Pode deixar.
Os dois seguiam sincronizados, como se fizessem aquilo a vida inteira. E talvez fizessem mesmo.
A fumaça cobria partes da rua. As paredes marcadas por tiros mostravam o tamanho daquela noite. Moradores espiavam atrás dos portões, em silêncio, rezando pra que tudo acabasse logo.
E naquele momento eu vi o que ninguém costuma falar. Todo mundo fala do poder dele. Do medo que seu nome causa. Do respeito que carrega. Mas ninguém fala do peso. O peso de ser o último a recuar. O primeiro a decidir. O único que não pode perder a cabeça, mesmo quando todos ao redor já perderam.
O rádio chia de novo.
— Menor, atento no teu setor.
Levei a mão ao aparelho de imediato.
— Tô firme.
Olhei pro Cairo de novo. Já estava em outro ponto, conferindo cada posição, garantindo que ninguém ficasse descoberto. Nem um segundo parou. Nem um segundo deixou alguém sem saber o que fazer.
E foi naquela madrugada, entre tiros e fumaça, que eu deixei de ver apenas o chefe da Rocinha.
Passei a ver o homem que carregava um morro inteiro nas costas.
E entendi de uma vez, um nome como o dele... nunca é de graça.
Sempre tem um preço...Vai achando que ser dono só tem benefícios.