Cairo Narrando
O relógio parecia ter parado. Cada minuto durava uma vida inteira. O ar estava carregado de fumaça, pólvora e medo. A garganta ardia como se tivesse engolido fogo. O corpo pesava, os braços doíam, os ouvidos zumbiam com o ribombar dos tiros. Mas ninguém ali podia fraquejar. E eu, menos que ninguém.
As vozes pelo rádio se atropelavam sem parar.
— Estão avançando pela principal!
— Movimento na segunda quadra!
— Estão se reagrupando! Vão tentar de novo!
Fechei os olhos por um instante. Respirei fundo, puxando aquele ar irrespirável. A cabeça pesava. Pelo desgaste da noite. E por algo mais. Porque em meio ao fogo, eu lutava contra dois inimigos, o que estava lá fora... e a preocupação que me consumia por dentro. Queria pegar o celular. Saber se ela estava bem. Se estava viva. Se ninguém tinha descoberto que foi ela quem me avisou.
Mas não dava. Naquela hora, eu não podia ser o homem que espera uma mensagem. Eu precisava ser o homem que todos esperam. Guardei aquele pensamento no fundo da alma. Depois eu pensaria nela. Se houvesse um depois.
Subi a escadaria da laje da boca principal, passo firme, sem vacilar. Lá de cima, o morro inteiro se descortinava diante de mim. O céu ainda escuro começava a clarear no horizonte, mas a noite parecia não querer acabar. Peguei o rifle que estava apoiado na parede, o AK-47. Pesado, confiável, conhecido como parte de mim. Coloquei a coronha firme no ombro, respirei fundo e me posicionei.
Ali, todos viram por que meu nome pesa.
Não me escondi. Não recuei. Fiquei à mostra, de pé na beira da laje, visível para todos, meus homens e eles. E quando eu falei, minha voz cortou o som dos tiros, firme e grave, sem tremer um fio.
— NINGUÉM RECUA! NINGUÉM PERDE A CABEÇA! SEGURA A POSIÇÃO!
Meus homens me viram ali. De pé. Armado. Comandando do ponto mais alto, como sempre foi. E se eu estava ali, firme, sem medo... então ninguém tinha o direito de ter medo. Apontava. Disparava. Ordenava. Cada movimento calculado. Cada tiro certeiro. Eles recuavam quando eu avançava. Hesitavam quando eu aparecia. Foi então que compreenderam, não é apenas o nome que inspira respeito. É o homem por trás dele.
Os minutos seguintes pareceram não ter fim. Até que, aos poucos, o fogo diminuiu. O ímpeto deles quebrou. Pelo rádio, a notícia chegou.
— Estão recuando!
— Confirmado! Estão deixando a área!
Olhei mais uma vez lá de cima. Os veículos se afastaram, o famoso caveirão que na verdade eram três, também. A poeira e a fumaça começavam a baixar. O pior tinha passado.
Desci da laje devagar, sentindo o peso da noite inteira nas costas. Assim que pisei no chão, o Menor veio correndo na minha direção, os olhos arregalados de admiração e choque.
— Chefe... caralho... tu viu aquilo? Tu tava lá em cima, de pé, atirando como se fosse o próprio d***o! Eu achei que não íamos segurar!
Limpei o suor e a fuligem do rosto com a manga da camisa.
— Toda tempestade passa, Menor. Não importa o quanto demore.
Ele balançava a cabeça, sem acreditar no que viu.
— Eu nunca vi ninguém fazer o que tu fez ali. De pé, à mostra... sem medo nenhum.
Antes que eu respondesse, o Grego apareceu. Sujo, cansado, mas sorrindo. Me olhou de cima a baixo e soltou.
— Rapaz... lá de baixo eu jurei que tu tinha perdido o juízo. De pé na beira da laje? Deixando todo mundo te ver? Mas... que espetáculo. Os caras pararam quando te viram.
O Menor caiu na risada.
— Pararam mesmo! Ficaram apavorados!
Sorri de canto, cansado.
— Vocês dois são loucos.
— Somos nada — bateu um tapa firme no meu ombro — Mas vou te falar, hoje tu mostrou por que esse morro obedece a ti.
Rimos. Não porque havia motivo para festa. Mas porque rir, depois de uma madrugada daquelas, era a única forma de provar que ainda estávamos vivos.
Enquanto eles continuavam ali, conversando, me afastei um passo e levei a mão discretamente ao bolso. Peguei o celular. A tela acendeu. Meu coração disparou. Olhei. Procurei o nome dela.
E naquele instante, com o peito ainda acelerado e o rifle na mão... a única coisa que eu queria encontrar... era uma resposta.