Ela (Desconhecida) - Narrando
Acordei de um golpe, o coração disparado como se algo dentro de mim tivesse percebido antes de tudo. Abri os olhos de uma vez, ofegante. O quarto ainda estava escuro. Olhei o relógio, madrugada, muito antes do sol nascer. O remédio devia ter me deixado dormir até o meio-dia. Mas meu coração não quis saber.
Sentei devagar. Coloquei o pé bom no chão primeiro, depois o outro, suportando a dor que já fazia parte de cada passo. Aprendi a conviver com ela. Aprendi a não fazer barulho ao caminhar.
Abri a porta do quarto sem som. O corredor em silêncio. Meu pai ainda dormia. Desci as escadas devagar, sem pressa, sem ruído. Na sala, liguei a TV no volume mínimo.
E o mundo caiu.
Na tela: a Rocinha. Viaturas. Blindados. Fumaça subindo densa. Repórteres falando em operação de grandes proporções, iniciada na madrugada, confronto em curso.
Meu sangue gelou. As mãos se apertaram com força.
— Meu Deus... — sussurrei, sem perceber.
Procurei cada detalhe. Um nome. Uma informação. Algo. Mas era cedo demais. Tudo confuso. Apenas que havia confronto. Que havia tiros. Que a operação seguia sem previsão de fim.
As lágrimas vieram sem aviso. E se ele não tivesse acreditado em mim? Se tivesse ficado? Se...
Balancei a cabeça, apavorada. Não. Ele é inteligente. Ele ouviu. Precisa ter ouvido.
Desliguei a TV de uma vez quando passos soaram no corredor. Meu pai apareceu, já vestido, de rosto fechado, celular colado ao ouvido. A voz dele cortou o ar, fria e dura.
— Não quero explicações. Quero saber como essa informação vazou. Alguém falou demais. Descubram quem foi. Eu quero um nome.
Engoli em seco, o coração parando. Fiquei de olhos fixos na tela escura da TV, fingindo indiferença. Ele desligou e me olhou.
— Já acordada?
— Perdi o sono. — Forcei um sorriso que não chegou aos olhos.
Ele assentiu, sem questionar.
— Volte a dormir. Hoje vai ser um dia longo.
Esperei ele sair. Esperei o carro sumir da garagem. Esperei mais alguns minutos, só pra ter certeza. Subi correndo. Tranquei a porta. Fui até o fundo falso da gaveta e tirei o celular escondido. As mãos tremiam tanto que quase o deixei cair.
A tela acendeu.
Duas mensagens. As duas dele. Enviadas com horas de diferença.
Cairo:
Você está bem?
Cairo:
Me responde quando puder.
Levei a mão à boca. As lágrimas escorreram quentes pelo rosto. Ele estava vivo. Ele sobreviveu. E durante toda aquela noite de fogo, de tiros, de perigo... ele estava ali, olhando o celular, preocupado comigo.
Respirei fundo, tremendo ainda. Escrevi. Apaguei. Escrevi de novo. Deixei o coração falar.
Eu:
Desculpa por não responder antes. Tive que esconder o celular. Passei a madrugada inteira com medo de ter acontecido algo com você.
Nem um minuto depois, vibrou.
Cairo:
Achei que tinham descoberto tudo.
Sorri, entre lágrimas.
Eu:
Quase descobriram. Meu pai já sabe que alguém vazou a informação. Quer descobrir quem foi.
Ele demorou alguns segundos.
Cairo:
Então eu estava certo em me preocupar.
O peito se aqueceu de um jeito que não sou explicar.
Eu:
Você se preocupou comigo?
A resposta veio quase imediata.
Cairo:
A pior parte da operação não foi a operação.
Franzi a testa.
Eu:
Foi o quê?
Cairo:
Não saber se você estava viva.
Fechei os olhos. Nunca imaginei ler isso. Depois de dois anos de mensagens, de silêncios, de distância... foi ele quem confessou primeiro.
E a conversa fluiu. Sem pressa. Sem medo. Como se toda aquela madrugada tivesse derrubado de uma vez o muro entre nós. Falamos do confronto. Do medo. De como eu quase fui descoberta. Ele disse que só conseguiu respirar quando viu minha mensagem. Rimos quando ele reclamou de ter passado horas olhando a tela.
Eu:
Nunca imaginei que o dono da Rocinha fosse ficar ansioso.
Cairo:
Não espalha. Tenho reputação a zelar.
Rí alto. Há muito tempo eu não ria assim, leve, sem peso. E ele continuou, como se estivesse sorrindo do outro lado.
Cairo:
Posso te fazer uma pergunta?
Eu:
Depende...
Cairo:
Quantos chips tu tem? Kkkkk
Levantei, fui até o fundo do guarda-roupa e puxei a velha caixa de sapatos escondida atrás das roupas. Abri. Centenas deles. Uns novos, outros usados. Todos organizados. Tirei uma foto e enviei.
A resposta foi imediata.
Cairo:
CARALHO! KKKKKKKKK TU É PSICOPATA!
Ri até doer a barriga.
Eu:
Olha o respeito, por favor.
Cairo:
Respeito? Depois dessa foto? Quem guarda caixa de sapato cheia de chips é completamente doida!
Eu:
Era a única forma de continuar falando com você. Já que eu era bloqueada toda semana.
A mensagem de "digitando..." apareceu e sumiu três vezes. Até que chegou.
Cairo:
Peraí... essa caixa toda foi por minha causa?
Sorri, olhando a tela.
Eu:
Acha que era por quem mais?
Ele demorou um pouco mais.
Cairo:
Caralho... acho que ninguém nunca fez uma loucura dessas por mim.
O coração deu um salto.
Eu:
Não vai se emocionar, tá?
Cairo:
Relaxa, psicopata. Mas essa foto eu guardo.
Arregalei os olhos.
Eu:
NEM PENSAR! APAGA AGORA!
Cairo:
Calma. Já apaguei. Prometo.
Revirei os olhos, rindo.
Eu:
Idiota.
Cairo:
Prefiro ser i****a do que dona da maior coleção de chips do Rio de Janeiro.
A conversa seguiu. Bobagens. Provocações. Silêncios que não incomodavam. Parecia que nos conhecíamos há vidas, não há meses. Quando olhei pela janela, o sol já estava alto. Nem percebemos a madrugada passar.
Os olhos pesavam.
Cairo:
Vai dormir um pouco.
Eu:
Você também.
Cairo:
Obedece primeiro.
Eu:
Chato.
E então chegou a última mensagem. Uma palavra que me desmontou inteira.
Cairo:
Descansa, pequena.
Pequena. Ninguém nunca me chamou assim. Ninguém nunca conseguiu me tocar tanto com uma única palavra. Apertei o celular contra o peito, sorrindo com os olhos fechados.
E pela primeira vez em dois anos... dormi tranquila. Sabendo que ele estava vivo. E que, em algum lugar lá fora, ele também fechou os olhos... sabendo que eu estava bem.