Cairo Narrando
A primeira coisa que ouvi foi alguém batendo à porta. Não era batida de quem pede licença. Era batida de quem já sabe que vai entrar.
— Cairo!
Fechei os olhos de novo. Fingi que não escutei. Dois segundos depois, a porta abriu.
— Sei que tá acordado.
Abri um olho devagar. Grego estava ali, encostado na moldura, com aquele sorriso de quem já venceu antes mesmo de começar.
— Tu tem algum problema?
Ele entrou sem ser chamado.
— Tenho. O problema é que sou o único que consegue te arrancar dessa cama.
Puxei o cobertor sobre a cabeça.
— Vai embora.
Ele riu.
— Olha o estado do homem.
Sentei devagar, passando a mão pelo rosto. Cada músculo doía. Cada lembrança da madrugada parecia gravada no corpo. A operação. O fogo. A tensão. E ela, sempre ela, na minha cabeça.
— Que horas são?
Grego olhou o celular.
— Quase duas.
Franzi a testa.
— Duas da tarde?
— Isso aí. Dormiu feito pedra. E vou te falar... até defunto levanta primeiro que tu depois de uma noite dessas.
Jogou uma camisa em cima de mim.
— Levanta.
Peguei a peça e olhei pra ele.
— Pra onde?
O sorriso alargou.
— Arrumei um pagode.
Balancei a cabeça.
— Tu é impossível.
— Depois do que a gente passou, tu acha mesmo que ia ficar olhando pra parede? Hoje tem Flamengo e Vasco. Seu João já pôs televisão na praça, o bar vai estar lotado.
Fiquei em silêncio por um instante. A verdade é que eu precisava disso. Todo mundo precisava. Depois de uma madrugada de guerra, o morro precisava lembrar que a vida continuava. Que ainda havia som, risada, paz.
Levantei.
— Tu é insistente pra c*****o.
— Sei. — Ele sorriu. — É por isso que funciona.
...
Quando chegamos à praça, parecia outro mundo. O som do pagode tomava conta das ruas. O bar do Seu João transbordava. Mesas espalhadas pela calçada. Crianças correndo. Gente rindo, bebendo, vivendo. Era estranho pensar que poucas horas antes aquele chão havia tremido. Mas é assim que se sobrevive aqui, não parando. Nunca.
Sentei com Grego e o Menor. Grego já mandou trazer cerveja. O Menor brilhava os olhos.
— Hoje ninguém fala de operação. — Grego ergueu o copo. — Hoje a gente vive.
Olhei os dois e sorri de canto. Talvez fosse exatamente isso que eu precisava. Mas não importava o quanto eu tentasse desligar... minha mente voltava sempre pro mesmo lugar. Pra ela.
Peguei o celular. Desde a madrugada, depois que ela respondeu, alguma coisa tinha mudado entre nós. Aquele peso tinha dado lugar a algo mais leve, mais real. E agora, em meio a tudo isso, eu não conseguia pensar em ninguém mais.
Abri a conversa. Minha última mensagem: "Bom dia." Ela tinha respondido. Mas pouco. Muito pouco. Estranhei. Nas últimas horas trocamos mensagens sem parar. Agora... parecia distante.
Antes que eu pudesse escrever, uma voz conhecida me chamou.
— Olha quem resolveu aparecer.
Levantei o olhar. Era ela. A mulher do churrasco na casa do Grego. Sorri por educação.
— E aí.
Ela se aproximou. Se sentou ao nosso lado. Conversou. Riu. Era bonita. Sempre foi. Mas ali, na minha frente, eu percebi, posso ser educado. Posso ser gentil. Mas minha cabeça está longe. Meu coração... está do outro lado da cidade.
Peguei o celular discretamente. Escrevi.
Eu:
Tá viva?
Guardei o aparelho. E ali, entre o som e a gente rindo... eu esperei.
Peguei o celular de novo minutos depois. A tela acendeu.
Desconhecida:
Tô.
Só isso. Uma palavra. Seca. Demais. Franzi a testa.
Eu:
Só isso?
Demorou. O tempo suficiente pra eu perceber que ela estava escolhendo cada letra.
Desconhecida:
Uhum.
Soltei uma risada baixa. Grego me olhou de soslaio.
— Rindo de quê?
— Nada. — Guardei o aparelho.
Ele me encarou, desconfiado.
— Sei.
Voltei a prestar atenção na conversa da mesa. Mas minha mente estava naquela tela. Eu conhecia aquele jeito dela. Ela podia esconder muita coisa atrás de mensagens curtas. Mas não conseguia esconder tudo.
Peguei o celular de novo.
Eu:
O que foi?
A resposta demorou. O "digitando..." apareceu e sumiu três vezes. Até que chegou.
Desconhecida:
Nada.
Sorri. Ela realmente achava que eu ia acreditar.
Eu:
Tu nunca fala "nada" quando é realmente nada.
Dessa vez demorou mais. Eu já ia guardando quando chegou.
Desconhecida:
Você tá ocupado.
Olhei a tela. Depois olhei pra mesa. A mulher ali conversava animada com Grego. Eu nem lembrava do que estavam falando.
Eu:
Ocupado por quê?
Segundos.
Desconhecida:
Nada.
Revirei os olhos, rindo sozinho.
Eu:
Tu fez isso de novo.
Ela visualizou. Não respondeu. Bebi um gole de cerveja e esperei. Até que:
Desconhecida:
Vi que você tá no pagode.
Franzi a testa.
Eu:
Como sabe?
Desconhecida:
O Grego postou.
Olhei pro lado. Grego mexia no celular, alheio a tudo. Balancei a cabeça. Então era isso. Ela viu.
Eu:
E daí?
Desconhecida:
Nada.
Ri.
Eu:
Tu abusa dessa palavra hoje.
Desconhecida:
Só achei engraçado.
Eu:
O quê?
Mais segundos.
Desconhecida:
Nada.