Eu já estava sorrindo de verdade. Ela tentava disfarçar. Mas eu estava começando a decifrar cada silêncio. Cada palavra curta. Cada hesitação.
Eu:
Tu tá com ciúme?
A resposta veio na mesma hora.
Desconhecida:
Não.
Eu:
Mentira.
Desconhecida:
Não é.
Eu:
É sim.
Desconhecida:
Você se acha demais.
Ri baixo.
Eu:
Então me explica por que tu ficou estranha desde que viu a foto.
Silêncio. Ela visualizou. Um minuto. Dois. O pagode seguia. Grego cantava desafinado. O Menor ria dele. E eu... eu só conseguia olhar pra tela.
Até que:
Desconhecida:
Eu não fiquei estranha.
Eu:
Ficou.
Desconhecida:
Não fiquei.
Eu:
Ficou tanto que até eu percebi.
Demorou. Depois:
Desconhecida:
Só achei que...
A mensagem sumiu. Ela apagou.
Eu:
Que?
Segundos.
Desconhecida:
Esquece.
Neguei com a cabeça, sorrindo.
Eu:
Agora fala.
Mais alguns minutos de silêncio. Até que finalmente:
Desconhecida:
Só achei que depois de ouvir minha voz... depois de tudo que aconteceu... você ia olhar ao redor e ver alguém ali. Alguém de verdade. E perceber que era mais fácil.
Meu sorriso desapareceu. Não por raiva. Mas porque entendi. Ela realmente achava isso. Como se eu pudesse trocar tudo que vivemos em mensagens, cada risada, cada confidência, cada segundo de preocupação... por alguém que está ali, visível, mas que não me enxerga como ela me enxerga.
Olhei a mulher sentada à minha frente. Depois voltei à tela.
Eu:
Olha uma coisa. Essa mulher está sentada na minha frente. Mas eu estou aqui... falando com você.
Ela visualizou. Não respondeu. Continuei.
Eu:
Se eu quisesse estar conversando com ela, eu estaria. Mas desde que sentei nessa mesa... a pessoa que eu procurei foi você.
Fiquei olhando a tela. Esperando. E pela primeira vez, não estava provocando. Não estava jogando. Estava dizendo a verdade. E isso... isso me assustava mais do que qualquer confronto.
O "digitando..." apareceu. Sumiu. Apareceu de novo. Fiquei ali, parado, esperando. Era irônico. Enfrentei operações, tiros, decisões que poderiam custar vidas... e nada disso foi tão difícil quanto esperar a resposta de uma mulher que eu nunca vi.
Até que chegou.
Desconhecida:
Você fala como se fosse simples.
Franzi a testa.
Eu:
O que é simples?
Desconhecida:
Você. Você parece não ter medo de nada.
Fiquei olhando aquelas palavras. Porque ela estava errada. Eu tinha medo. Mais do que todos imaginam. Só não costumo mostrar.
Eu:
Todo mundo tem medo de alguma coisa.
Desconhecida:
Você não parece ter.
Olhei ao redor. A praça. As pessoas rindo. A vida seguindo. E pensei em como, poucas horas antes, tudo parecia prestes a acabar.
Eu:
Tenho.
Desconhecida:
De quê?
Eu poderia ter brincado. Poderia ter fugido. Sempre faço isso. Mas com ela... parecia mais fácil ser sincero.
Eu:
De perder quem importa.
Demorou. Dessa vez foi ela quem ficou em silêncio. Até que:
Desconhecida:
Você fala coisas que me deixam sem resposta.
Sorri.
Eu:
Primeira vez que consigo te calar.
Desconhecida:
Convencido.
Eu:
Realista.
Ela mandou um emoji rindo. E aquilo, tão simples, me arrancou um sorriso de verdade. Grego percebeu, claro que percebeu. Ele conhece cada reação minha.
— Quem é?
Olhei pra ele.
— Ninguém.
Ele riu.
— Tu é péssimo mentindo.
— Cuida da tua vida.
— Tô cuidando. A tua tá bem interessante.
Balancei a cabeça e voltei ao celular. Uma nova mensagem.
Desconhecida:
Ela é bonita?
Olhei a pergunta. Agora tinha certeza. Ciúme. E por algum motivo... isso me aqueceu. Não porque gosto de vê-la insegura. Mas porque significa que eu não sou o único. Que ela sente o mesmo.
Eu:
É.
Desconhecida:
Pelo menos foi sincero.
Ri.
Eu:
Tu perguntou.
Desconhecida:
Mas podia ter mentido.
Eu:
Por quê?
Desconhecida:
Pra eu não ficar...
A mensagem parou. Apagou.
Eu:
Com ciúme?
Demorou.
Desconhecida:
Não.
Eu:
Tu é péssima nisso.
Desconhecida:
Em quê?
Eu:
Em fingir que não sente.
Fiquei olhando a tela. Queria ouvir ela admitir. Não pra zoar. Mas pra que ela soubesse que tem todo o direito.
Até que chegou.
Desconhecida:
Tá bom. Eu fiquei.
Sorri. De verdade.
Eu:
Ciumenta.
Desconhecida:
Não começa.
Eu:
Mas é verdade.
Desconhecida:
E daí? Não tenho direito de sentir nada.
Aquelas palavras me fizeram parar. Ela... que arriscou tudo por mim. Que se importou antes de qualquer um. Ainda achava que não tinha lugar.
Eu:
Quem disse isso?
Desconhecida:
Ninguém.
Eu:
Então não inventa regras.
Silêncio. Depois:
Desconhecida:
Você fala como se eu fosse importante.
Meu peito doeu. Porque era verdade. Ela era importante. Mais do que devia. Mais do que eu esperava. E ainda não sabia dizer isso em voz alta. Então escrevi o que conseguia.
Eu:
Porque você é.
Ela visualizou. Demorou. Quando chegou... foi só uma palavra. Mas carregada de tudo que não conseguia dizer.
Desconhecida:
Obrigada.
Eu:
Agora me responde uma coisa. Por que você se importa tanto comigo?
A resposta demorou. Muito. Até que:
Desconhecida:
Porque mesmo sem saber quem eu sou... você foi a primeira pessoa que me fez sentir que eu não precisava me esconder. Que eu podia ser quem sou.
Fiquei parado, olhando a tela. Porque entendi naquele instante, ela não se importava apenas com o homem que todos veem. Ela enxergou algo aqui dentro. Algo que eu mesmo não conhecia.
Guardei o celular. Respirei fundo. O pagode seguia. O jogo ia começar. Pessoas gritavam, riam, viviam. Mas parecia que tudo estava distante. A única coisa real era aquela conversa. Aquela mulher.
Ainda não sabia chamar isso de amor. Mas sabia uma coisa com toda certeza, eu já não conseguia mais imaginar meus dias sem aquelas mensagens. Sem ela.