Helena Narrando
Não dormi.
Na verdade... nem tentei.
A televisão ficou ligada a noite inteira, na sala, na minha frente. Cada notícia que surgia apertava meu peito um pouco mais.
"Confronto intenso na Rocinha."
"Operação segue sem previsão de fim."
"Troca de tiros em vários pontos da comunidade."
Eu mudava de canal. Voltava. Procurava alguma coisa diferente. Alguma informação que dissesse que tinha acabado. Mas todas diziam a mesma coisa. O meu lugar estava em guerra.
E no meio daquela fumaça, daqueles tiros... estavam eles.
Cairo. Grego. O Menor.
Passei a madrugada inteira andando de um lado pro outro. Pegava o celular. Ficava olhando os nomes. E guardava de novo. O que eu ia escrever? Vocês estão vivos? Parecia absurdo. E se estivessem no meio do fogo... nem veriam.
Então esperei. Esperei a noite passar. Esperei o sol nascer. Esperei uma notícia melhor.
Quando o dia clareou, desliguei a TV. A cabeça doía. Os olhos ardiam. Olhei o relógio, já era hora de abrir a loja. Levantei devagar. Fui até o quarto. Troquei de roupa. Entrei no banheiro. E quando me vi no espelho... desisti.
Olheiras fundas. Rosto abatido. Olhos inchados. Eu não tinha dormido nem uma hora. Sentei na cama, a loja não abre hoje. Pela primeira vez em anos... simplesmente não tinha forças.
Deitei no sofá. E sem perceber... apaguei.
...
Acordei assustada. Olhei o relógio, já passava das duas da tarde. Peguei o celular. Várias notificações. Nada de importância. Até que um story me chamou a atenção.
Grego.
Cliquei com o coração na mão.
Vídeo do pagode. Pandeiro. Cavaquinho. A praça cheia. O bar do Seu João lotado. Passei pro próximo, o Menor cantando desafinado, rindo à toa. E no terceiro...
O ar voltou aos meus pulmões.
Lá estavam os três. Vivos. Inteiros. Cairo sentado, garrafa na mão, ouvindo os dois com aquele jeito calmo dele. Grego gesticulando. Menor falando de futebol.
Fechei os olhos e respirei fundo, tremendo.
— Graças a Deus... obrigada, meu Deus.
Levantei de um pulo. Fui pro quarto. Vesti um vestido leve. Prendi o cabelo. Passei perfume. Olhei no espelho e sorri. Aquele primeiro sorriso verdadeiro desde a madrugada. Peguei a bolsa. Tranquei a porta. E fui.
...
O som do pagode já chegava antes mesmo de eu ver a praça. O lugar parecia outro. Crianças corriam. Gente dançando. Rindo. Bebendo. Como se todos tivessem combinado, apagar a guerra, só por hoje.
Os vi de longe. Os três na mesma mesa. Grego falando sem parar. Menor debatendo. Cairo observando, balançando a cabeça com aquele sorriso de canto. Parei alguns passos antes. Fiquei ali, olhando. E meus olhos encheram de lágrimas de novo. Ninguém sabia... ninguém precisava saber. Mas eu passei a noite inteira rezando por esses três.
Respirei fundo e fui.
Foi o Grego quem me viu primeiro.
— Ô, p***a! Olha quem apareceu!
Os três olharam de uma vez. O Menor abriu um sorriso enorme e veio me abraçar antes mesmo de eu chegar perto.
— Helena! Tu sumiu!
— Quem sumiu foram vocês. — Respondi, com a voz ainda tremida.
Ele me soltou e Grego chegou. Me puxou num abraço apertado.
— Pensei que tinha nos abandonado.
— Quase. — Brinquei, secando o rosto disfarçadamente.
E então olhei pro Cairo. Ele já estava de pé. De pé, parado, me olhando como se percebesse tudo. Abriu os braços devagar.
— Vem cá.
Fui. O abraço foi rápido. Mas foi suficiente. Sem que ele percebesse, respirei fundo nele. Cheirei o cheiro dele. Confirmei, inteiro. Sem ferimentos. Sem faltar nada.
Quando nos afastamos, ele franziu a testa. Percebeu meus olhos vermelhos.
— Tá tudo bem?
Olhei os três. Engoli o nó na garganta e balancei a cabeça.
— Passei a noite inteira acordada. A televisão não parava de falar de confronto. De tiros. Daqui. Eu só precisava... eu só precisava ver vocês. Ver que estavam bem.
Ninguém falou nada. Nem o Grego. Nem o Menor. Nem ele. Por um instante, o som do pagode pareceu baixar, como se respeitasse o quanto aquilo tinha pesado em mim.
Foi Grego quem quebrou o silêncio. Puxou uma cadeira e sorriu, suave.
— Então senta. Hoje ninguém fala de guerra. Hoje só tem pagode, futebol e cerveja gelada.
O Menor apontou pra televisão.
— E hoje o Vasco vai tomar um sacode.
— Sonha. — Cairo respondeu na mesma hora, com aquele brilho nos olhos que só aparecia quando estava leve. — Hoje é dia de Flamengo perder e vocês arrumarem desculpa.
Os três voltaram a discutir, rindo, se provocando. Como se nada tivesse acontecido. Como se a madrugada de horror nunca tivesse existido.
Sentei entre eles. Olhei cada rosto. Respirei aliviada de verdade. E pela primeira vez desde que o sol nasceu... meu coração encontrou a paz.
Eles carregavam o mundo nas costas. Mas nunca deixavam de viver.