Ela (Desconhecida) - Narrando
Eu sempre soube que esse dia chegaria.
Não era uma questão de "se". Era questão de "quando". Quando alguém apareceria. Quando ele conheceria alguém que pudesse caminhar ao seu lado sem medo. Sem esconder o rosto. Sem precisar ocultar o nome. Sem viver atrás de uma tela. Apenas... sendo ela mesma.
Talvez fosse por isso que meu peito se partiu quando vi o story do Grego.
O pagode surgiu primeiro, a comunidade sorrindo, como se a vida tivesse voltado. Depois o Menor, desafinando como sempre, e eu sorri sozinha. Até que passei ao vídeo seguinte.
Ele.
Sentado à mesa. Rindo. Garrafa na mão. Meu coração desacelerou de alívio. Estava vivo. Estava bem. Era tudo que eu precisava saber desde a madrugada.
Mas segundos depois... ela apareceu.
Bonita. Segura de si. Se aproximou dele com uma naturalidade que me doeu. Beijou seu rosto e se sentou ao lado.
Meu sorriso se desfez de uma vez. Fechei o vídeo antes que terminasse. Joguei o celular sobre o sofá. Respirei fundo, tentando empurrar a dor para longe.
— Você sabia que isso ia acontecer... — murmurei, quase sem voz. — Então por que dói tanto?
Andei pela sala sem rumo, tentando organizar o que nem eu mesma conseguia entender. Ele nunca me prometeu nada. Nunca disse que esperaria. Nunca sequer viu meu rosto. Que direito eu tinha de sentir ciúme?
Nenhum.
Mesmo assim... doía.
Porque, pela primeira vez, o medo me tomou. Bastou uma mulher bonita aparecer para que ele esquecesse? As madrugadas em claro. As risadas compartilhadas. A minha voz avisando da operação. Tudo isso seria substituído tão fácil?
Fechei os olhos. Talvez estivesse sendo injusta. Talvez. Mas um pensamento insistiu em permanecer, agora ele encontrou alguém de verdade.
...
Quando ele mandou mensagem, respondi curta. Seca. Eu sabia que ele perceberia. Ele sempre percebia. E percebeu. Insistiu. Tentou arrancar de mim o motivo. Até que me deixei levar.
E pela primeira vez em toda a minha vida... alguém cuidou do que eu sentia. Não zombou. Não ridicularizou. Não me chamou de dramática. Simplesmente... me acolheu.
— Desde que sentei nessa mesa, a pessoa que procurei foi você.
As palavras ecoaram na minha mente. Meu pai sempre ensinou que demonstrar emoção era fraqueza. Que revelar o que se sente é dar poder ao outro. Mas o Cairo... sem sequer perceber... tratou minha maior vulnerabilidade com mais cuidado do que alguém jamais teve comigo.
Ele podia ter rido. Podia ter se aproveitado. Mas fez o oposto. Pegou meu medo e o tornou menor. Foi ali que algo mudou. Não nele. Em mim. Pela primeira vez, não tive medo de sentir. Tive medo apenas de perder.
Guardei o celular e olhei novamente aquela imagem. Ela continuava ali. Mas já não parecia uma ameaça. Porque o homem que estava sentado àquela mesa havia escolhido... falar comigo.
Balancei a cabeça, sorrindo sozinha.
— Idiota... — sussurrei, com um carinho que nunca pensei sentir.
Decidi não enviar mais nada. Não estava brava. Ao contrário. Se continuasse falando, acabaria dizendo coisas que ainda não tenho coragem de admitir nem para mim mesma.
Olhei pela janela. O sol se punha lentamente.
— Vai aproveitar teus amigos... — murmurei.
Eles mereciam aquelas horas de paz. Mereciam rir, beber, discutir futebol. Mereciam esquecer que, poucas horas antes, haviam encarado a morte de frente.
Guardei o aparelho na gaveta. Passei o resto da tarde tentando ler. Mas relia a mesma página três vezes sem compreender uma única linha. Minha mente insistia em voltar para ele. Será que o Flamengo venceu? Será que o Grego já estava bêbado? Será que o Menor ainda cantava daquele jeito horrível?
Ri sozinha. Olhei a gaveta. Quase peguei o celular. Não. Balancei a cabeça. Deixa ele viver. Deixa ele aproveitar. Passei a noite inteira em luta comigo mesma, contendo cada impulso de mandar mensagem.
...
Já passava das dez quando ouvi o carro do meu pai entrando na garagem. Desliguei a TV. Escondi o celular no fundo falso da gaveta. Respirei fundo. Esperei. Os passos dele ecoaram pelo corredor. A porta do escritório se fechou. Silêncio.
Só então saí. Peguei água na cozinha. Voltei. Tranquei a porta. Aquela era a única parte do mundo onde eu podia respirar.
Entrei no banho. A água morna escorria pelos ombros enquanto eu sorria, lembrando de como ele insistiu até descobrir o que me afligia.
— Ciumenta... — murmurei, revirando os olhos. — Convencido.
Me vesti, soltei os cabelos ainda úmidos. Sentei na cama. Peguei o celular.
Uma mensagem.
Meu coração disparou.
Cairo:
Tá aí?
Respondi no mesmo instante.
Eu:
Tô.
A resposta veio rápido.
Cairo:
Ainda bem.
Franzi a testa. Antes que eu perguntasse, outra mensagem chegou.
Cairo:
Posso te pedir uma coisa?
O coração bateu mais forte.
Eu:
Pode.
Ele demorou. O "digitando..." apareceu, sumiu, voltou. Como se ele também escolhesse cada palavra com cuidado. Até que chegou.
Cairo:
Posso ouvir tua voz?
Fiquei paralisada. Li. Relí. Li de novo. Ele não precisava. Não era urgência. Era vontade. Ele simplesmente... queria me ouvir.
Andei de um lado para o outro. O coração batia descompassado. Era só uma ligação. Mas não era qualquer ligação. Seria a primeira vez que nos falamos sem perigo à espreita. Sem tiros. Sem sirenes. Sem medo. Apenas... nós dois.
Quase uma hora se passou.