Provavelmente ele pensava que eu havia recusado. Meu peito doeu de imaginar sua decepção. Respirei fundo. Fui até a gaveta. Peguei o celular. Abri a conversa. Meu dedo pairou sobre o ícone de chamada. Fechei os olhos. E apertei.
Um toque. Dois. Três.
Ele atendeu.
Nenhum falou. Apenas a respiração um do outro preenchendo o silêncio. Meu coração parecia querer sair pela boca. Até que ouvi sua voz, rouca e baixa:
— Achei que tu tinha desistido...
Sorri, olhando para o teto.
— Eu quase desisti...
Ele riu. Aquele som suave que me acalmava.
— Ainda bem que não desistiu.
Fechei os olhos. Apenas ouvi-lo já tornava meu quarto menos vazio.
— Então... — falamos ao mesmo tempo.
Rimos juntos.
— Pode falar. — Dissemos de novo, em uníssono.
Cobri o rosto com as mãos, envergonhada.
— Fizemos isso de novo... — falei baixinho.
Ele riu.
— Tá nervosa?
— Muito.
— Achei que só eu estivesse.
Isso me fez sorrir.
— Você? Não parece.
Ele hesitou.
— A verdade é que passei quase dez minutos escrevendo aquela mensagem.
Ri.
— Mentira.
— Juro.
— Por quê?
Ele suspirou.
— Porque eu não sabia se tu ia achar estranho.
Meu peito se aqueceu.
— Eu achei... estranhamente lindo.
Ele soltou uma gargalhada.
— Lindo? Nunca me chamaram assim.
— Há uma primeira vez para tudo.
— Se o Grego ouvir isso, perco toda a autoridade na comunidade.
— Relaxa. Não conto.
— Como relaxar? Tu acabou de destruir minha reputação.
— Dramático.
— Aprendi contigo.
A conversa fluía com uma leveza que me assustava e me encantava. Por minutos, esqueci quem ele era. Esqueci o morro. Esqueci meu pai. Esqueci tudo. Era apenas ele falando comigo. E eu poderia passar a noite assim.
— Posso perguntar uma coisa? — pediu de repente.
— Pode.
— Tu ri assim sempre? Tão baixinho?
Sorri.
— Acho que sim.
— É bonito.
O coração acelerou.
— Você está tentando me deixar sem graça?
— Estou conseguindo?
— Muito.
— Então deu certo.
Balancei a cabeça, rindo.
— Convencido.
— Um pouquinho.
— Agora é minha vez. Qual tua comida preferida?
Ele riu.
— Sério?
— Muito sério.
— Lasanha.
Sorri, surpresa.
— Esperava churrasco.
— Todo mundo espera. Mas é lasanha.
— E a sua?
— Estrogonofe.
— Faz sentido.
— Faz?
— Pessoas que gostam de estrogonofe são pessoas boas.
Caí na risada.
— Inventou isso agora.
— Com certeza.
Falamos de tudo. Cores. Sonos. Gostos. Descobri que ele gosta de preto e odeia acordar cedo. Ele soube que amo ler quando não consigo dormir. Nenhuma pergunta sobre quem eu sou. Onde moro. Como vivo. Nada. Aquilo me tocou mais do que qualquer declaração. Ele respeitava meu tempo.
Até que ele falou, mais suave:
— Posso te perguntar uma coisa de verdade?
— Pode.
— Tu sorri o tempo todo?
Sorri para o teto.
— Acho que não.
— Acho que sim.
— Como pode saber?
Ele respondeu com uma calma que me desarmou:
— Porque dá pra ouvir. Quando tu sorri, tua voz muda. Tem gente que sorri só com a boca. Tu sorri com as palavras.
Fiquei sem ar. Sem palavras. Sem saber o que dizer. Ele viu , ouviu o que ninguém jamais notou. E naquela noite, pela primeira vez em muito tempo... eu não me senti escondida.
Me senti... vista.
E isso era muito mais perigoso do que qualquer segredo que eu carregava.