Ela (Desconhecida) - Narrando
Desligo o celular. Mas continuo parada, olhando para a tela escura como se ela ainda tivesse algo a me dizer. Por alguns segundos, juro que ainda consigo ouvi-lo. A voz dele.
É estranho. Durante dois anos, o Cairo existiu apenas assim, em palavras escritas. Frases que eu relia dezenas de vezes, mensagens que eu guardava como se fossem tesouros. Eu passava horas imaginando como seria a voz dele. O tom. A pausa entre as palavras. Tudo apenas na minha cabeça.
Mas agora não é mais imaginação. Agora é real. Eu ouvi. Aquela voz rouca, grave, carregada de uma calma que ele tenta manter mesmo quando o mundo inteiro está desabando ao redor. Ficou gravada em mim. E isso me assusta. Porque passei tanto tempo querendo que ele me notasse... e nunca imaginei que um simples "alô" pudesse mudar tudo dentro de mim.
Fecho os olhos. Lembro do instante em que ele ficou calado. Ele estava ouvindo minha voz. Assim como eu estava ouvindo a dele. E por aqueles segundos, não existiu distância. Não existiu Rocinha, não existiu essa casa, não existiu o mundo. Pareceu que eu não era uma desconhecida. Pareceu que ele estava bem aqui, ao meu lado.
Um sorriso brota nos meus lábios. Mas desaparece de uma vez. Porque a realidade volta como um soco. Lembro onde estou. Lembro de quem é meu pai. Lembro do que eu acabei de fazer.
Eu não deveria estar sorrindo. Não agora.
Ando de um lado para o outro no quarto, sem conseguir parar. Meu coração bate tão forte que dói. Não sei se é pelo susto de finalmente ouvi-lo, pelo medo do que está por vir... ou pelos dois juntos.
A informação que eu passei não devia ter saído daquela sala. Meu pai não é alguém que deixa as coisas passarem. Ele percebe quando um fio se solta. Ele sabe quando algo foge ao seu controle. E dessa vez fugiu. Ele tinha um plano. E eu estava lá. Eu ouvi. Eu estava perto demais.
E se ele começar a procurar quem falou? Se questionar todos que estavam por perto? Se começar a eliminar um por um até achar quem vazou? Meu nome vai aparecer. Eu sou a primeira pessoa que ele vai desconfiar. Porque eu estava ali. Porque ele sabe que eu nunca fui boa em fingir. Porque ele sabe que eu nunca fui como ele.
Pego o celular de novo. A conversa com ele ainda está aberta. Meu dedo passa sobre a tela, com vontade de escrever. Perguntar se ele está bem. Se conseguiu sair. Se está seguro. Mas paro. Agora, cada mensagem, cada toque, pode ser descoberto. Qualquer movimento pode chamar atenção.
Guardo o aparelho bem escondido. Não porque eu queira me afastar dele. Mas porque se eu for descoberta... não serei apenas eu quem vai pagar.
Vou até o banheiro. Bebo um copo de água com as mãos tremendo. Tomo o remédio que me ajuda a acalmar quando a cabeça não para. Sei que hoje ele não vai ser suficiente. Minha mente não vai descansar. Vou repetir cada palavra da ligação, cada tom de voz, cada segundo de silêncio.
E a pergunta dele não sai da minha cabeça: "Por que você está fazendo isso?"
E a verdade é que eu nem sei explicar direito. Talvez porque, em algum momento, ele deixou de ser apenas uma pessoa que eu observava de longe. Talvez porque eu enxerguei nele algo que ninguém mais conseguiu ver. Ou talvez porque, pela primeira vez na minha vida, alguém que carregava tanta escuridão também conseguiu enxergar a minha.
Deito na cama. Apago a luz. O quarto fica em silêncio. Mas aqui dentro continua um caos. Penso na operação. Penso no meu pai. Penso nele. E penso que amanhã tudo pode estar destruído. Porque se meu pai descobrir que foi eu... ele não vai procurar longe. Ele vai vir direto pra mim.
Fecho os olhos. O sono começa a chegar devagar. E antes de apagar, a última coisa que me vem à mente é a voz dele. Seria a lembrança mais bonita que eu já tive... se eu não soubesse que talvez seja justamente ela que vai nos destruir.