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676 Palavras
Augusto Narrando Eu não suporto imprevistos. Tudo na minha vida foi construído sob medida. Cada passo calculado, cada escolha pesada. Cada palavra dita em público ensaiada com precisão. As pessoas imaginam que poder é ser visto por todos. Estão enganadas. Poder é saber o que vai acontecer antes de qualquer um. É possuir o que ninguém mais tem. É jogar todas as peças sem que ninguém perceba que você é quem comanda o tabuleiro. Estou no escritório quando a ligação chega. Antes mesmo de ouvir, já sei. Pelo tom baixo, pela hesitação no início. Algo deu errado. — Augusto... — Fala. Silêncio do outro lado. Segundos que parecem eternos. — Existe a possibilidade de a informação ter vazado. Fico imóvel. Não me altero. Não pergunto de novo. Apenas absorvo. — Como? — Ainda não conseguimos identificar. A resposta me incomoda. Não por não saber quem foi. Mas porque alguém ousou desafiar-me. Alguém achou que podia tocar no que é meu. Fecho a pasta sobre a mesa com um movimento seco. — Quem tinha acesso? Ele começa a citar nomes. Ouço cada um. Gravo cada nome na memória. Poucas pessoas sabiam. Poucas tinham autorização para saber. E mesmo assim... alguém falou. — A operação segue amanhã? — pergunta ele. Olho pela janela. A cidade segue alheia. Pessoas passando, vivendo vidas pequenas, sem imaginar que o destino delas está sendo decidido aqui, longe dos olhos. — Sim. — A palavra sai firme, sem tremor. Ele hesita. — Tem certeza? Será que não é mais seguro adiar? Me encosto na cadeira e sorrio de um jeito que não chega aos olhos. — Se recuarmos agora, o que você acha que vão concluir? Silêncio. Ele entende. Se eu recuar, todos percebem que alguém me feriu. Todos percebem que alguém conseguiu interferir. E eu não permito que ninguém pense que pode me colocar de joelhos ou eu tenha perdido o controle da situação. — A operação segue no horário combinado. Sem alterações. Desligo. Fico ali, parado, encarando a parede. O problema não é o vazamento. O problema é que alguém acreditou que podia me colocar em posição de recuar. Eu não recuo. Nunca recuei. Quem tentou isso vai descobrir que escolheu o caminho mais curto para a própria ruína. Levanto e caminho pelo escritório. Repasso cada nome. Quem falou? Quem teve coragem? Quem tem motivo para se arriscar? A resposta ainda não está clara. Mas uma coisa é certa, quando eu descobrir, essa pessoa vai desejar nunca ter nascido. Pego o celular de novo. — Preciso de uma coisa. — Ordeno, sem elevação de voz. — Quero a lista completa de todos que tiveram acesso à informação. E quero saber se alguém desses teve contato com qualquer pessoa de fora. Qualquer uma. Nem que seja por um segundo. Desligo. Volto à mesa. E por um instante, a imagem da minha filha passa pela minha mente. Ela estava em casa. Ouviu. Mas afasto o pensamento. Não porque seja impossível. Mas porque eu não trabalho com suspeitas. Trabalho com provas. E se for ela... Sorrio de novo. Seco. Sem calor. Ela sempre foi fraca. Sempre teve dificuldade em esconder o que sente. Sempre acreditou nessa tolice de dar chance às pessoas. Talvez esse seja o defeito que vai destruí-la. O mundo não pertence a quem sente. Pertence a quem enxerga antes. E ela aprendeu a olhar para o chão, enquanto eu aprendi a enxergar o que ninguém quer que se veja. Olho os documentos sobre a mesa. Amanhã tudo acontecerá como planejei. E todos vão acreditar que estava tudo sob controle. Porque é isso que eu preciso que acreditem. Não importa quem tentou interferir. Não importa quem tentou estragar. A diferença entre quem manda e quem obedece está numa coisa, saber manter a aparência de controle, mesmo quando tudo parece prestes a desmoronar. E ninguém vai saber. Ninguém vai desconfiar. Mesmo que, por um instante... alguém tenha conseguido chegar perto demais. Quando eu descobrir quem foi... essa pessoa vai aprender que se meter no meu jogo tem preço. E o preço custa caro.
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