35

649 Palavras
Grego Narrando Tem dias que a gente percebe que alguma coisa está errada antes mesmo de saber o motivo. Foi assim que entrei na sala e vi o Cairo. Ele estava ali. Parado. Sentado na cadeira. O celular na mão. O olhar perdido em algum lugar que não era aqui. E isso me chamou atenção. Porque o Cairo pode estar cansado. Pode estar irritado. Pode estar carregado de preocupação. Mas parado daquele jeito... isso não é normal. — Cairo. Nada. Dou mais alguns passos e falo mais firme. — Cairo. Ele pisca devagar, como se estivesse voltando de um lugar distante. — O que foi? Franzo a testa. Porque não era ele que devia perguntar isso. Era eu. — Eu que pergunto. Que cara é essa? Ele me olha. E por alguns segundos parece pesar se vai falar ou não. Esse é o problema dele. Guarda tudo dentro do peito, até quando está prestes a explodir. — Aconteceu alguma coisa. — Digo, sem perguntar. Ele passa a mão pelo rosto, demorada. E finalmente fala, baixo: — Ela ligou. Fico em silêncio. Porque sei exatamente quem é. A mulher das mensagens. A desconhecida. — Ela? Ele assente, sem desviar o olhar do aparelho. — Eu ouvi a voz dela. Por um instante, esqueço o resto. Porque conheço o Cairo. Conheço cada reação, cada silêncio, cada jeito de olhar. E nunca vi esse brilho confuso nos olhos dele por causa de ninguém. — E o que ela disse? Ele levanta o olhar de uma vez. — Me avisou de uma operação. O ar muda na mesma hora. Toda a curiosidade desaparece. Dá lugar a um peso real. — Como ela sabe disso, Cairo? Ele balança a cabeça, sem entender. — Não sei. Então ele conta tudo. A ligação. O tremor na voz dela. A urgência com que pediu pra ele sair. A certeza de quem sabe exatamente o que está por vir. Fico em silêncio, pensando. Porque tem alguma coisa que não fecha. Uma pessoa que sabe demais. Que nunca apareceu. Que permaneceu escondida... e mesmo assim arriscou tudo pra avisar ele. — Ela podia ter ficado quieta. — Digo, por fim. Cairo assente, pesado. — Podia. E essa é a parte que mais pesa. Ninguém coloca o próprio pescoço em risco sem motivo. Principalmente alguém que se esconde há tanto tempo. — Então a gente se prepara. — Digo, firme. Cairo se levanta. E naquele instante volta a ser o homem que todos respeitam. O que decide. O que comanda. Sem espaço para dúvida. A notícia se espalha de um jeito silencioso. Sem pânico. Mas com atenção. O clima muda de uma ponta a outra do morro. As conversas ficam mais baixas. Os olhares mais atentos. O morro, que normalmente tem sua vida e seu barulho, parece respirar diferente. Mais alerta. Mais silencioso. Nas horas seguintes, o Cairo organiza cada passo. Cada ponto de observação. Cada posição. Eu fico ao lado dele. Sempre. Porque algumas coisas não precisam ser ditas. A gente simplesmente sabe. A noite cai. E com ela vem aquela sensação r**m de que o tempo está correndo contra nós. Cada hora parece menor. Cada minuto pesa mais. Olho pro Cairo de vez em quando. Ele tenta agir como se fosse apenas mais um problema. Mais uma ameaça. Mas eu conheço ele. E isso não é só sobre o morro. Não é só sobre uma operação. É sobre uma mulher que, sem mostrar o rosto, conseguiu fazer algo que quase ninguém consegue, fazer o Cairo parar. E pensar. E temer por ela. Antes de a madrugada chegar, olho ao redor. Ninguém dorme. Todos esperam. Porque sabem que a manhã vai trazer a resposta. E até lá... existe uma pergunta que não sai da minha cabeça, e com certeza não sai da dele também. Quem é essa mulher? E por que ela sabia de tudo antes de todo mundo?
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR