Ela - (desconhecida) Narrando
Existem pessoas que passam a vida inteira tentando esquecer o próprio passado. Eu passei a minha tentando entender o meu, às vezes eu penso que a minha história começou antes mesmo de eu nascer. Antes de eu conhecer o mundo, o mundo já tinha deixado uma marca em mim. Uma marca que eu carrego todos os dias, não só no meu corpo, mas na forma como enxergo as pessoas.
Minha mãe costumava dizer que eu era um milagre. Talvez eu fosse, porque sobreviver sempre foi uma parte da minha vida.
Eu cresci em uma casa onde, para quem olhava de fora, tudo parecia perfeito. Meu pai era um homem importante, respeitado e conhecido por muitas pessoas. O tipo de pessoa que aparece sorrindo em fotos, apertando mãos e falando sobre família, valores e honestidade.
As pessoas olhavam para ele e viam alguém admirável. Eu olhava para ele e via alguém que eu nunca consegui entender, porque existem homens que sabem convencer o mundo inteiro de quem são.
Mas dentro de casa...Dentro de casa ninguém consegue fingir para sempre.
Minha mãe era uma mulher forte, a mulher mais forte que eu conheci. Ela sorria mesmo quando estava cansada. Fazia tudo parecer mais fácil do que realmente era. Tentava proteger a mim e a ela mesma de coisas que nenhuma pessoa deveria precisar suportar.
Eu ainda era pequena quando entendi que algumas dores não aparecem no corpo. Elas ficam escondidas, minha mãe carregava muitas. E uma delas acabou mudando a minha vida antes mesmo de eu ter consciência dela.
Naquele terrível dia, meu pai perdeu o controle. Ele acreditou em uma coisa que nunca foi comprovada, uma suposta traição. Uma mentira sem tamanho, uma dúvida que, na cabeça dele, virou verdade.
E quando um homem deixa a raiva ser maior que a razão, ele não destrói apenas o momento. Ele destrói tudo ao redor, minha mãe estava grávida de mim.
E uma das consequências daquela violência foi uma marca que eu carregaria pelo resto da vida.
Eu cresci aprendendo que algumas pessoas podem machucar outras e ainda assim serem chamadas de importantes. Aprendi que dinheiro e respeito público não significam caráter. Aprendi que alguém pode ser admirado por milhares e ser desconhecido por quem divide a mesma casa.
Talvez seja por isso que eu nunca consegui olhar apenas para a imagem das pessoas. Eu sempre procurei o que existe por trás e foi isso que aconteceu com ele.
Com o Cairo.
A primeira vez que eu ouvi falar dele, ele era exatamente aquilo que todos diziam.
Um homem perigoso, o dono do morro.
Alguém que carregava um nome que fazia pessoas mudarem o tom de voz, eu poderia ter parado por aí. Poderia ter acreditado no que todos acreditavam.
Mas eu vi uma coisa que ninguém estava prestando atenção. Eu vi o homem, não o nome, não o título, não o medo. O homem!
Foi uma coisa pequena. Uma situação que, para qualquer outra pessoa, talvez não significasse nada. Mas para mim significou tudo.
Eu vi quando ele parou para ajudar alguém que não poderia oferecer nada em troca, vi quando ele poderia ter escolhido a violência, mas escolheu outra coisa. Vi um lado que não combinava com a imagem que criaram dele.
E aquilo ficou preso na minha cabeça, no começo, era apenas curiosidade. Eu queria entender, como alguém que carregava tanta responsabilidade conseguia continuar tendo pequenos gestos que ninguém via? Como alguém que todos chamavam de monstro conseguia demonstrar humanidade em momentos que ninguém estava olhando?
Eu comecei a observar, primeiro de longe. Depois com mais atenção, eu procurava notícias. Ouvia histórias, tentava separar a verdade dos boatos.
E quanto mais eu descobria...Mais difícil ficava ignorar, foi assim que começou. Não foi de uma hora para outra, não foi uma paixão de filme. Foi devagar, foi crescendo em silêncio e talvez essa seja a parte mais assustadora.
Porque eu sei que, olhando de fora, parece errado. Uma pessoa que manda mensagens durante dois anos. Uma pessoa que conhece detalhes da rotina de alguém que nunca respondeu.
Eu sei como parece, eu sei que a palavra que muitos usariam seria loucura, obsessão. Mas existe uma diferença entre querer alguém para si e querer entender alguém.
Eu nunca quis prender o Cairo, nunca quis tirar a liberdade dele. Nunca quis que ele deixasse de ser quem é. Eu só queria que, em algum momento, ele percebesse que alguém enxergava além daquilo que todos enxergavam.
Eu queria que alguém lembrasse ele de uma coisa que talvez ele tenha esquecido. Que antes do homem que todos temem...Existe uma pessoa.
Foi por isso que eu mandei a primeira mensagem, eu não esperava resposta.
Na verdade, durante muito tempo, eu achei que nunca teria... Mas ele respondeu.
E aquele simples momento mudou tudo. Porque durante dois anos eu conversei sozinha, durante dois anos eu escrevi palavras que talvez nunca fossem lidas.
E, de repente, o homem que parecia impossível de alcançar estava ali, do outro lado da tela.
Ainda desconfiado, ainda tentando entender quem eu era e eu entendo. Eu também teria medo de alguém como eu. Porque a verdade é que nem eu sei explicar completamente o que sinto.
É amor? É admiração? É a necessidade de proteger alguém que nunca pediu proteção? Talvez seja tudo isso junto. Talvez seja uma mistura de tudo que eu vivi com tudo que eu enxerguei nele.
Porque algumas pessoas passam pela nossa vida e deixam uma lembrança. Outras passam e fazem a gente sentir que, de alguma forma, sempre estiveram ali.
O Cairo é assim, ele não sabe meu nome. Não sabe minha história. Não sabe quantas vezes eu pensei em desistir de mandar mensagens. Não sabe quantas vezes eu olhei para o celular esperando uma resposta que nunca veio. Mas agora ele responde e isso deveria ser suficiente.
Só que existe uma pergunta que continua na minha cabeça.
Quando ele descobrir quem eu sou...
Ele ainda vai enxergar a mesma pessoa?
Ou vai olhar apenas para tudo aquilo que eu tentei esconder?