Desço da laje ainda tentando entender por que aquela conversa continua ocupando espaço na minha cabeça. Não é a declaração dela que me incomoda, mulher dizendo que me ama nunca foi novidade. O problema é outro, ela sabe onde eu estou, sabe o que estou fazendo e parece me conhecer melhor do que deveria. Isso sim, me deixa com a pulga atrás da orelha e a mente toda embolada, girando sem parar nessa história.
Entro no banheiro, tiro a roupa e abro o chuveiro. A água fria escorre pelo meu corpo enquanto tento organizar os pensamentos. Talvez eu esteja exagerando. Talvez exista uma explicação simples para tudo isso e eu esteja transformando uma maluca qualquer em um problema maior do que realmente é. Fecho os olhos por alguns segundos, deixo a água cair sobre o rosto e respiro fundo. Não adianta. A imagem da conversa continua voltando como um filme repetido, bagunçando tudo de novo na minha cabeça.
Depois do banho, visto apenas uma bermuda e sigo para a varanda do quarto. Acendo um baseado, puxo a fumaça devagar e deixo que ela saia lentamente dos meus pulmões. Aos poucos, a tensão vai diminuindo. O morro continua acordado, as motos ainda cortam as vielas e o baile segue como se o mundo nunca parasse. Dou mais duas tragadas, apago o baseado e entro. Jogo o celular sobre o criado-mudo sem nem olhar para a tela. Se aquela maluca mandou mais alguma coisa, vai continuar falando sozinha. Apago a luz, deito na cama e o cansaço faz o resto. Em poucos minutos, eu apago.
Na manhã seguinte, acordo cedo, tomo um café preto, resolvo algumas ligações e desço para a boca. A rotina não espera ninguém. Confiro as cargas que chegaram durante a madrugada, faço o levantamento da mercadoria que saiu, vejo quanto entrou de dinheiro em cada ponto e resolvo algumas pendências com os gerentes das bocas menores. Ser chefe não é só andar armado e dar ordem. Tem muita conta, muita responsabilidade e gente dependendo da minha decisão o tempo todo.
Quase na hora do almoço, finalmente consigo alguns minutos de paz. Entro na minha sala, fecho a porta e me jogo na cadeira de couro. Apoio a cabeça para trás e solto um suspiro demorado.
— Agora sim...
Meu celular vibra sobre a mesa. Nem preciso olhar para saber. Quando pego o aparelho, a vontade é de arremessar aquela porcaria na parede. Outro número desconhecido. Dou uma risada sem humor antes de abrir a conversa.
Desconhecida:
Bom dia.
Desconhecida:
Espero que tenha dormido bem.
Balanço a cabeça, completamente sem paciência.
Eu:
Caralho... quantos chips você tem?
Eu:
Sério mesmo que você não vai me deixar em paz?
Os três pontinhos aparecem quase imediatamente.
Desconhecida:
Eu prometi que não desistiria.
Passo a mão no rosto e rio sozinho.
Eu:
Isso já deixou de ser insistência faz tempo.
Eu:
É coisa de gente psicopata.
Eu:
Você cria um número novo toda hora. Não trabalha, não?
Ela demora alguns segundos.
Desconhecida:
Trabalho.
Eu:
Então vai trabalhar e esquece que eu existo.
Desconhecida:
Eu tento.
Eu:
Tenta direito então.
Ela fica online por alguns instantes antes de responder.
Desconhecida:
Não é tão fácil.
Reviro os olhos.
Eu:
Claro que é. Você nem me conhece.
Desconhecida:
Conheço mais do que você imagina.
Solto uma risada irônica.
Eu:
Lá vem você de novo...
Eu:
Escuta, eu tenho um morro inteiro para administrar. Tenho carga para conferir, dinheiro para contar, problema para resolver e gente para comandar. A última coisa que eu preciso é perder tempo discutindo com uma desconhecida que troca de número igual troca de roupa.
Ela demora. Dessa vez demora bastante. Quando finalmente responde, a mensagem é pequena.
Desconhecida:
Eu só queria saber se você acordou bem.
Fico olhando para a tela por alguns segundos. Aquela resposta me irrita ainda mais, porque não faz sentido. Depois de tudo, depois de dois anos, ela simplesmente queria saber se eu dormi bem?
Sem responder, bloqueio aquele número também, jogo o celular sobre a mesa e volto para as planilhas. Só espero que, dessa vez, ela entenda o recado.
No fundo...
Eu já sei que não vai entender.